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Como a ativista Alexandria Ocasio-Cortez se tornou o símbolo do ‘novo socialismo’ nos EUA

Nova-iorquina pode ser a mulher mais jovem a se tornar deputada nos Estados Unidos. A dúvida é se a identificação com o socialismo será capaz de empurrar os democratas americanos para a esquerda

  • PorLeonardo Pujol
  • especial para a Gazeta do Povo
  • 30/09/2018 22:53
Alexandria Ocasio-Cortez, candidata democrata ao Congresso de Nova York, fala durante evento em Los Angeles | Dania Maxwell/Bloomberg
Alexandria Ocasio-Cortez, candidata democrata ao Congresso de Nova York, fala durante evento em Los Angeles| Foto: Dania Maxwell/Bloomberg

A vida de Alexandria Ocasio-Cortez virou de ponta-cabeça em 26 de junho. Aos 28 anos, ela fez o improvável: derrotou, no 14º distrito de Nova York, o deputado Joseph Crowley nas eleições primárias do Partido Democrata. A vitória  lhe garantiu a vaga na disputa por uma cadeira na Câmara de Representantes dos Estados Unidos – o equivalente à Câmara dos Deputados no Brasil. A eleição, marcada para 6 de novembro, será disputada contra o republicano Anthony Pappas. Se vencer – e tudo a leva a crer que sim, já que o histórico do distrito correspondente a partes do Bronx e do Queens é predominantemente democrata –, Ocasio-Cortez será a mulher mais jovem a assumir um mandato no Capitólio. 

A ascensão política de Ocasio-Cortez é simbólica sob vários aspectos. Filha de mãe porto-riquenha e de um arquiteto de origem humilde, ela nasceu no Bronx, onde 49% dos habitantes são hispânicos. Vive em um modesto apartamento de um quarto, como a maioria dos trabalhadores da região. Move-se pela cidade de metrô e, até fevereiro, era garçonete num restaurante de comida mexicana. 

Mulher, jovem, proletária e latina: Ocasio-Cortez é praticamente um bastião das minorias. E foi valorizando essa condição que ela atraiu a preferência dos democratas do 14° distrito. Sua campanha, de baixo orçamento, privilegiou o apelo digital, embora não abrisse mão do corpo a corpo. Entre suas bandeiras estão o amplo acesso à educação superior, assistência médica universal, fortalecimento dos sindicatos e apoio a moradias populares e a imigrantes – uma agenda com clara inclinação social. 

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Esses interesses vieram a reboque de sua participação como organizadora da pré-campanha do socialista Bernie Sanders, em 2016. Senador pelo estado de Vermont, ele concorreu à vaga democrata na corrida presidencial – apesar de não ser filiado à sigla oficialmente. Sanders não levou a vaga, mas os ideais progressistas derramaram-se sobre as estruturas do partido. 

Desde então, comenta-se que os democratas estão, aos poucos, deixando para trás o posicionamento centrista adotado nas últimas décadas. E guinando à esquerda. A vitória de Ocasio-Cortez sobre Crowley, democrata tradicional com dez anos de Câmara, talvez seja a maior prova disso. “Ainda estou aceitando o fato de realizarmos, no nosso quintal, algo que ressoou muito além das minhas expectativas”, disse ela em entrevista recente à Interview Magazine. “Mas definitivamente parece surreal.” 

Socialismo dentro da caixa

O frisson político causado por Ocasio-Cortez é um sintoma do que alguns analistas convencionaram chamar de “novo socialismo”. O movimento se caracteriza por defender as causas clássicas da esquerda, como diminuição da influência monetária, pleno emprego e igualdade de gênero, mas sem romper os limites de um regime democrático e liberal. “Os novos socialistas objetivam uma reconstrução da vida social e econômica em direção a mais segurança e menos poder arbitrário”, sintetizou Jedediah Purdy, professor de Direito na Duke University, ao portal Politico

Essa corrente não advém necessariamente das alas radicais do Partido Democrata. Mas de organizações socialistas como a Democratic Socialists of America, ou DSA. Criada nos anos 1980, a entidade sempre se dedicou a enfatizar a educação política, por meio de teóricos e escritores como Michael Harrington e Barbara Ehrenreich. Ocasionalmente, o grupo endossou candidaturas democratas. 

O perfil e a relevância da DSA, porém, mudaram de patamar com a campanha de Bernie Sanders. E sobretudo após a chegada do republicano Donald Trump à Casa Branca. De 2016 para cá, a organização cresceu 900%, chegando a 45 mil associados. A idade média dos integrantes, que ficava na casa dos 60 anos, caiu para 30. No mesmo período, segundo a DSA, o número de filiados eleitos pelo país saltou de cinco para 50 – Ocasio-Cortez está entre eles. Purdy acrescentou:

Esta é a maior colheita de candidatos socialistas autodeclarados em quase um século, não apenas em Nova York, mas em lugares como Virgínia e Pensilvânia.

Um levantamento recente da Gallup mostrou que 57% dos democratas têm uma visão positiva do socialismo, enquanto apenas 47% enxergam o capitalismo com bons olhos. “As visões do socialismo entre os democratas e os independentes de tendência democrática são particularmente importantes no atual ambiente político, porque muitos observadores afirmaram que o Partido Democrata está tendo uma orientação mais socialista”, escreveu Frank Newport, responsável pela pesquisa.  

Sanders de saias 

Alexandria Ocasio-Cortez morou no Bronx praticamente a vida toda. Só se afastou do bairro em duas oportunidades. A primeira foi durante o ensino médio, quando estudou numa escola do Condado de Westchester, a 40 quilômetros de casa. Com o auxílio de parentes, os pais juntaram dinheiro e custearam uma pensão para que ela pudesse frequentar uma instituição com melhores índices de ensino.

Aos 17 anos, após juntar economias e colher empréstimos com a família, mudou-se novamente para ingressar na Universidade de Boston, no estado de Massachusetts. Alexandria começou a frequentar as aulas de bioquímica, mas acabou se formando em economia e relações internacionais. O pai morreu em seu segundo ano de graduação. 

A faculdade também marcou o início do envolvimento político. Ela estagiou no escritório do senador Edward M. Kennedy, democrata de Massachusetts, dedicando-se a questões de imigração. 

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De volta ao Bronx, depois de formada, tornou-se ativista comunitária em defesa dos imigrantes e da educação infantil. Lançou-se editora de livros infantis e lecionou cursos de verão para alunos do ensino médio do Instituto Nacional Hispânico de Nova York. Mas as ocupações não rendiam dinheiro suficiente para viver com a mãe, que àquela altura trabalhava limpando casas e dirigindo um ônibus escolar. A necessidade de completar a renda familiar fez com que ela deixasse de lado planos profissionais para se dedicar a um emprego emergente. Daí que trabalhou no Flats Fix, o restaurante mexicano. 

Após a derrota de Sanders para Hillary Clinton, nas primárias de 2016, alguns integrantes de campanha do socialista criaram uma organização chamada Brand New Congress (BNC) – algo como Congresso Novo em Folha, numa tradução livre. O objetivo era recrutar possíveis candidatos nos moldes de Sanders para concorrer à Câmara e ao Senado. Em dezembro daquele ano, uma das organizadoras do BNC ligou para Ocasio-Cortez para apresentar a ela o projeto. A ativista gostou do que ouviu e decidiu se arriscar. A partir de então, engajou-se na busca por voluntários e simpatizantes no 14° distrito, garantindo o apoio do movimento negro Black Lives Matter e, claro, dos socialistas da DSA. 

A corrida congressista começou no ano seguinte e cresceu agora, em 2018. O desafio era superar um deputado com dez anos de mandato, forte candidato à reeleição – e também à presidência da casa, caso ganhasse as primárias. Ocasio-Cortez era latina; Crowley, branco. Ela tinha 28 anos; ele, o dobro. Ela andava de metrô; ele, de carro e motorista. A ativista construiu sua campanha em pequenas doações; Crowley recebia verbas do mercado imobiliário. Renovação versus continuidade. 

A dicotomia ficou ainda mais evidente na estratégia para redes sociais. Enquanto Ocasio-Cortez comprou 180 anúncios para suas páginas oficiais do Facebook e do Instagram, tanto de publicações em inglês quanto em espanhol, Crowley impulsionou 110 anúncios, todos em inglês. Em um vídeo que acabaria viralizando, Ocasio-Cortez aparecia em situações triviais do cotidiano, falando diretamente para o espectador: “É hora de reconhecermos que nem todos os democratas são iguais”, dizia. “Um democrata que pega dinheiro corporativo, lucra com a execução de uma hipoteca, não mora aqui, não manda os filhos para as nossas escolas, não bebe a nossa água e nem respira o ar que respiramos não pode nos representar”. 

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Além da forte presença digital, Ocasio-Cortez diz ter batido em mais de 120 mil portas, visitou praças e escolas do Bronx e do Queens. O esforço deu resultado. Quando as urnas das eleições primárias foram encerradas, a jovem de descendência latina havia recebido 57% dos votos. A atriz Cynthia Nixon, possível candidata do Partido Democrata ao governo do estado de Nova York, classificou o feito como uma conquista dos “democratas progressistas contra os democratas corporativos”. 

Desde que venceu as primárias, Ocasio-Cortez virou a “nova Bernie Sanders”. Acompanhou correligionários nos estados do Kansas, Michigan e Havaí. Tem assumido o papel até mesmo de porta-voz do Partido Democrata em entrevistas para jornais e programas de rádio e TV. Nem sempre ela se mostra simpática aos convites, contudo. 

O apresentador Ben Shapiro, por exemplo, que tem enorme apelo entre os conservadores americanos, chegou a oferecer US$ 10 mil para Ocasio-Cortez doar para caridade se participasse de um debate com ele. O convite foi rejeitado. Recentemente, ela foi acusada de excluir a imprensa de duas reuniões com moradores que eram abertas ao público. Entre os jornalistas, comentou-se que ela teria dificuldade de se adequar às regras do Capitólio, onde os repórteres andam livremente. 

Esse tipo de rusga envolvendo Ocasio-Cortez tem irritado o alto-escalão do Partido Democrata, embora não mais do que a ideia de um novo socialismo tomando corpo entre seus quadros. De fato, alguns candidatos socialistas não tiveram o mesmo êxito que a turma de Ocasio-Cortez. Democratas tradicionais venceram em diversos lugares, como no Havaí, que terá Ed Case concorrendo novamente à Câmara, e em Michigan, onde Gretchen Whitmer venceu a primária governamental. 

Este “novo socialismo”, em algum momento, poderá empurrar o partido – e o país – à esquerda? Para Nancy Pelosi, líder dos democratas na Câmara, não. “Talvez, o socialismo seja ascendente naquele distrito específico”, disse ela à imprensa, referindo-se às áreas de Nova York que elegeram Ocasio-Cortez. “Mas não aceito qualquer caracterização socialista no nosso partido”.

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