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Da motosserra ao tesouraço

Como as políticas de Milei estão inspirando candidatos de direita no Brasil

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Flávio chama Milei de “estimado amigo” e promete reaproximação com Argentina em 2027. (Foto: Beto Barata/PL)

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As políticas aplicadas pelo presidente Javier Milei na Argentina ganharam espaço na atual campanha eleitoral do Brasil. Diversos candidatos – à Presidência, aos governos estaduais e ao Congresso – passaram a defender a adoção de medidas inspiradas na experiência argentina, como cortes de gastos públicos, privatizações, redução de impostos e desregulamentação. Em alguns casos, a inspiração em Milei é declarada pelos próprios candidatos, em outros, aparece na adaptação de propostas ou na proximidade com políticas implementadas pelo líder libertário na Argentina.

Um dos exemplos é o plano de governo do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) que lançou a ideia do “Tesouraço”. Trata-se de uma proposta de redução de gastos públicos e tamanho do Estado inspirada na “motosserra” de Milei, como o presidente argentino batizou seu plano de redução do Estado na Argentina.

Além de Flávio, outros candidatos têm citado ou adotado propostas associadas à agenda de Javier Milei. Renan Santos (Missão) faz referência direta à experiência argentina; o candidato ao governo de SP Tarcísio de Freitas (Republicanos) já elogiou o ajuste promovido por Milei e discutiu com ele políticas de austeridade; Sergio Moro (PL), que concorre ao governo do Paraná, promete reduzir impostos e regulações; e o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), que tentará a reeleição, apresentou uma PEC que, segundo ele próprio, foi inspirada nas políticas do presidente argentino.

Veja a seguir as semelhanças entre as políticas do presidente argentino e as propostas dos candidatos.

Flávio Bolsonaro troca a motosserra pelo tesouraço

Em seu plano de governo, Flávio Bolsonaro afirma que, caso eleito, realizará um “grande Tesouraço” para enxugar a máquina pública e posteriormente reduzir impostos. Entre as medidas estão o corte de pelo menos dez ministérios, a diminuição de cargos comissionados e despesas administrativas, o combate a supersalários e uma nova agenda de privatizações e desestatizações.

O programa também propõe substituir o atual arcabouço fiscal por uma nova regra voltada à estabilização e posterior redução da dívida pública. A estratégia descrita no documento segue uma sequência semelhante à defendida por Milei na Argentina: primeiro reduzir gastos e equilibrar as contas para, depois, abrir espaço para diminuir impostos. No começo de seu governo, Milei também reduziu o número de ministérios e promoveu cortes no funcionalismo público.

A semelhança entre as políticas defendidas por Flávio e as de Milei também aparece na desregulamentação. O candidato do PL promete uma ampla revisão de normas nas áreas administrativa, tributária, previdenciária e trabalhista, além de um “revogaço regulatório” para eliminar regras consideradas desnecessárias. O plano prevê ainda uma reforma administrativa e profissionalização das agências reguladoras.

Milei colocou a desregulamentação no centro de seu governo na Argentina e criou um ministério específico para reduzir burocracia, gastos e estruturas estatais. Até o último mês de julho, o órgão contabilizava 719 medidas de desregulamentação.

Flávio também defende modelos mais flexíveis de contratação para determinados trabalhadores. Nesse campo, a Argentina avançou neste ano com uma reforma trabalhista apoiada por Milei que flexibilizou regras de contratação, demissão, férias e jornada de trabalho.

Milei participou em julho da convenção do PL que oficializou Flávio como candidato à Presidência e declarou apoio ao brasileiro. Flávio tem utilizado um broche em formato de tesoura, numa adaptação da motosserra que marcou a candidatura presidencial do argentino em 2023.

Renan Santos promete reformas econômicas "difíceis" e cita Milei

Em entrevista à CNN Brasil em maio, Renan Santos afirmou que um eventual governo seu seguiria uma estratégia semelhante à de Milei, concentrando reformas econômicas difíceis logo no início do mandato. Entre elas, citou mudanças no regime fiscal e uma nova reforma da Previdência.

Renan Santos disse que, assim como Milei avisou aos argentinos que faria reformas difíceis antes que os resultados aparecessem, também pretende deixar claro aos brasileiros que mudanças consideradas impopulares serão necessárias.

“Ele disse que ia mexer com os privilegiados, e eu falo a mesma coisa”, declarou Renan.

O plano de governo de Renan Santos apresenta algumas convergências com a agenda econômica de Milei na Argentina. O documento defende a realização de uma reforma administrativa, redução de supersalários, flexibilização das relações de trabalho e contenção de gastos. Na infraestrutura, ele pretende ampliar concessões e parcerias público-privadas depois de realizar as reformas fiscais e administrativas.

O caminho é similar ao de Milei na Argentina, onde o libertário avançou com cortes de gastos, reorganização do Estado e abertura para maior participação privada em setores como infraestrutura e serviços públicos.

O plano de governo de Renan Santos cita expressamente a experiência de Milei na Argentina, justificando que os eleitores do presidente argentino também aceitaram a aplicação de um “remédio amargo” diante da crise econômica que assolava o país.

Tarcísio leva agenda liberal de Milei à campanha pela reeleição

A influência das políticas de Milei também aparece na disputa pelos governos estaduais. Candidato à reeleição em São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) chega à campanha eleitoral deste ano defendendo uma agenda baseada em mais eficiência do Estado, atração de investimentos privados e continuidade de concessões e privatizações, pontos que convergem com as políticas de Milei.

Tarcísio já declarou publicamente admiração pelas reformas promovidas por Milei na Argentina. Em julho deste ano, já no período de articulação eleitoral, o governador recebeu Milei no Palácio dos Bandeirantes. Os dois discutiram austeridade fiscal, redução de despesas, carga tributária, desregulamentação e atração de investimentos privados.

Em seu plano de governo para um segundo mandato, Tarcísio coloca a responsabilidade fiscal e a eficiência dos gastos públicos entre as prioridades. O candidato promete “otimizar gastos e ampliar investimentos com eficiência” em São Paulo e prevê criar novos incentivos para o empreendedorismo, a indústria, o agronegócio, a tecnologia e a outros setores produtivos.

Tais pontos têm paralelo em duas das principais frentes econômicas de Milei: o controle das despesas públicas e a criação de condições mais favoráveis à iniciativa privada. O plano de Tarcísio, contudo, mantém atuação direta do Estado em áreas como infraestrutura, saúde, educação, desenvolvimento social, ciência e tecnologia.

Moro promete passar a “motosserra” na burocracia do PR; Salles defende redução do Estado

Oficializado pelo PL como candidato ao governo do Paraná, Sergio Moro colocou a redução da burocracia estatal entre as principais bandeiras de sua campanha. Durante a convenção que oficializou sua candidatura, o ex-juiz da Lava Jato disse que pretende passar uma “faca ou motosserra” sobre cobranças e regras que, na avaliação dele, dificultam investimentos e a atividade empresarial no estado.

Moro é um admirador das políticas de Milei. Em entrevista à revista Veja, em julho, o candidato ao governo afirmou admirar principalmente as medidas do argentino para reduzir burocracias e controlar os gastos públicos. Em outras entrevistas recentes, ele também confirmou que pretende levar princípios semelhantes aos adotados por Milei a um eventual governo no Paraná. Moro já chamou Milei de uma “figura histórica” para a Argentina e para a América Latina.

Em São Paulo, Ricardo Salles (Novo), candidato ao Senado, também já elogiou Milei publicamente e defende uma agenda de redução do Estado, desregulamentação e privatizações.

Nikolas leva o modelo de Milei para o Congresso

O deputado federal Nikolas Ferreira (PL), que disputa a reeleição por Minas Gerais, apresentou neste mês a chamada PEC da Responsabilidade, proposta de emenda constitucional que cria gatilhos automáticos de redução de despesas e dos próprios salários de autoridades quando as contas públicas se deteriorarem.

O mecanismo seria acionado se o país descumprisse a meta de resultado primário durante dois anos consecutivos ou se a dívida pública aumentasse o equivalente a cinco pontos percentuais do Produto Interno Bruto (PIB) em dois anos. Inicialmente, seriam reduzidas despesas consideradas não essenciais e benefícios. Depois, os salários de deputados, senadores, presidente, vice-presidente e ministros poderiam cair 25% e, posteriormente, 50%.

A proposta tem forte semelhança com o chamado “grillete fiscal”, projeto de lei anunciado por Milei no fim de julho que prevê que, se o país registrar déficits durante vários meses consecutivos e o Congresso não conseguir restabelecer o equilíbrio das contas dentro de determinado prazo, seja acionada automaticamente uma paralisação de atividades não essenciais do Estado. Nesse cenário, presidente, vice-presidente, ministros, secretários, deputados e senadores deixariam de receber salários enquanto durasse o desequilíbrio fiscal. Aposentadorias, pensões, programas sociais, saúde, segurança e defesa permaneceriam funcionando.

Nikolas reconheceu que sua proposta foi inspirada na de Milei. “A PEC da Responsabilidade vem inspirada, sim, em Milei”, afirmou o deputado. “Aquilo que é bom a gente copia", completou.

O projeto argentino ainda precisa ser aprovado pelo Congresso para entrar em vigor. No Brasil, a proposta de Nikolas também está em estágio inicial.

Zema já criticou a forma de Milei, mas plano de governo tem similaridades com o do argentino

O plano de governo de Romeu Zema, do Novo, propõe a aplicação de um “choque fiscal nos gastos do governo”, com reforma da Previdência, revisão do crescimento automático de despesas obrigatórias e uma ampla reforma administrativa para reduzir ministérios, cargos comissionados, autarquias e fundações. A proposta se assemelha ao enxugamento promovido por Milei na Argentina.

Assim como o presidente argentino, Zema também propõe a privatização de empresas estatais, sob o argumento de retirar o governo de áreas em que considera sua presença desnecessária, além de ampliar parcerias público-privadas inclusive em serviços como saúde e educação.

Na Argentina, a Lei de Bases defendida por Milei e aprovada em 2024 autorizou o avanço de privatizações de empresas estatais, embora o processo tenha ocorrido de maneira gradual e não tenha alcançado todas as companhias públicas.

Outro ponto de convergência entre as políticas de Milei e o plano de Zema é o mercado de trabalho. O candidato do Novo defende flexibilizar regras trabalhistas, algo que Milei conseguiu fazer neste ano com a aprovação de sua reforma que tornou mais flexíveis normas de trabalho na Argentina.

A discordância de Zema em relação a Milei ocorreu depois que o libertário participou da convenção de Flávio Bolsonaro e fez críticas ao presidente Lula e ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, em julho. Questionado sobre as falas de Milei, que chamou Lula de “presidiário” e Moraes de “lixo careca”, Zema disse concordar com o que foi dito, mas discordou da maneira como as críticas foram feitas.

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