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A tentativa do presidente americano Donald Trump de se aproximar da Coreia do Norte abre caminho para a China fortalecer sua agenda de política externa na Ásia. O movimento ocorre em meio ao silêncio de Pyongyang sobre o contato com os EUA, enquanto mantém sua política belicista e alianças com Pequim e Moscou.
A aproximação diplomática de Trump com um dos regimes mais isolados do mundo vem acompanhada da decisão de cortar drasticamente as manobras militares com a Coreia do Sul, abalando um dos eixos de segurança mais antigos do continente asiático. Esse e outros fatores podem contribuir para os planos da China na região, incluindo sua estratégia de pressionar militarmente Taiwan até a tomada da ilha.
Frederico Dias, professor de Relações Internacionais do Ibmec Brasília, destaca que as medidas mais recentes anunciadas pelo chefe da Casa Branca podem, de fato, fortalecer os laços da China com sua vizinha norte-coreana, aproveitando um momento de fragilidade nas antigas alianças, ao mesmo tempo em que capitaliza influência e valida a liderança regional do gigante asiático diante das crescentes tensões entre Seul e Washington.
O aparente afastamento entre Coreia do Sul e EUA surge em um momento em que a Casa Branca tem reclamado da lentidão na aplicação do acordo comercial firmado no ano passado com Seul, que prevê investimentos de US$ 350 bilhões nos EUA. Ainda, o republicano disse nesta semana que a redução dos exercícios militares conjuntos se justificaria, em parte, pela falta de apoio do aliado asiático na reabertura do Estreito de Ormuz durante a guerra contra o Irã.
Um dos efeitos rebote que essas decisões podem provocar, segundo o analista explicou à Gazeta do Povo, é o fortalecimento das ambições militares e nucleares de China e Coreia do Norte. "A tendência apresentada no último governo Trump mostra que, ao contrário de frear ambições militares e nucleares de chineses e norte-coreanos, esses dois países costumam responder acelerando seus investimentos bélicos e expandindo suas próprias atividades militares regionais".
Ditador chinês só fez uma viagem ao exterior este ano: para a Coreia do Norte
O interesse da China em ampliar a influência sobre a Coreia do Norte é evidente. Uma das provas disso é o fato de a única viagem do ditador Xi Jinping para o exterior em 2026 ter sido ao país vizinho, em junho, embora tenha recebido mais de 20 líderes no primeiro semestre do ano, incluindo o presidente Donald Trump.
Depois da viagem, focada no 65º aniversário do Tratado de Amizade, Cooperação e Assistência Mútua China-Coreia do Norte, o tratado de defesa mútua dos países, Pequim reiterou a aliança com Kim Jong-un por meio de duas trocas de cartas de felicitações e uma visita de um assessor em meados de julho.
Além de ter ampliado acordos militares com Pyongyang, o regime chinês tem estreitado os laços por meio do comércio e da cooperação diplomática, como forma de manter o aliado distante de negociações com o Ocidente e até mesmo com a Rússia.
Alguns dos objetivos centrais da estratégia de aproximação com Kim seriam o desejo de Xi Jinping de reduzir a influência russa sobre Pyongyang - iniciada com a invasão em larga escala da Ucrânia - a necessidade de se proteger contra um governo dos EUA imprevisível, o contrapeso ao fortalecimento militar do Japão e o fortalecimento das opções militares em relação a Taiwan, segundo aponta uma análise do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS).
Outro ponto de destaque nas últimas trocas entre os países foi o silêncio da China em relação à política nuclear da Coreia do Norte, algo a que anteriormente Pequim se posicionava contra, o que demonstra uma disposição de Xi em aceitar a posição belicista da ditadura de Kim.
A aproximação entre Pequim e o regime de Kim Jong-un, no entanto, está longe de representar um ativo gratuito para os chineses, segundo destaca Márcio Coimbra, CEO da Casa Política.
"A Coreia do Norte é um parceiro notavelmente volátil, nuclearizado e falido, que exige de Pequim contínuos subsídios econômicos e desgaste político para ser blindado em fóruns internacionais. Ao tentar instrumentalizar Pyongyang para criar um cenário de ameaça em duas frentes, a China assume um fardo geopolítico pesado. Essa dinâmica consome capital diplomático e atenção estratégica de Xi Jinping que, em outras circunstâncias, seriam direcionados de forma monomaníaca à pressão militar e coerção psicológica sobre Taipei", aponta.
Afastamento dos EUA de parceiros regionais pode ajudar China nos planos sobre Taiwan
A parceria militar entre Rússia e Coreia do Norte abriu os olhos do regime de Xi para a possibilidade de ampliar as opções militares em relação a Taiwan. O aparente afastamento de Trump de aliados na Ásia pode, agora, dar novo fôlego aos planos de Pequim sobre o território reivindicado.
Diante desse cenário, Taipei anunciou nesta semana um aumento de 18% nos gastos com defesa para o próximo ano, o que inclui recursos para drones e mísseis e eleva o total de gastos para mais de 1 trilhão de dólares taiwaneses (US$31,41 bilhões) pela primeira vez.
Outro episódio simultâneo que pode levar a China a agir é o início das negociações entre Japão e Filipinas sobre a delimitação de fronteiras marítimas no Mar das Filipinas, onde Pequim mobilizou navios de pesquisa e fiscalização para realizar uma série de operações sem precedentes nos últimos meses.
Segundo o CSIS, a escalada e a natureza da resposta chinesa sugerem que essas operações não visam apenas enviar um sinal a Tóquio e Manila, mas podem criar uma oportunidade para alterar o status quo, estabelecendo uma presença semipermanente e exercendo algum tipo de jurisdição a leste de Taiwan. As recentes incursões chinesas foram condenadas pelos EUA.




