Sob protesto dos advogados de defesa e com o mais vívido testemunho ouvido até agora sobre o massacre de xiitas pelo qual Saddam Hussein e seus antigos colaboradores estão no banco dos réus, recomeçou nesta segunda-feira, em Bagdá, o julgamento o ex-ditador iraquiano e sete aliados. Esta foi a apenas a terceira audiência do julgamento, iniciado no dia 19 de outubro e marcado por duas longas pausas relacionadas a necessidades da defesa. As sessões serão retomadas nesta terça-feira.
A audiência de segunda-feira foi encerrada depois de Saddam Hussein voltar a desafiar o tribunal, pressionando o juiz, tentando desacreditar a testemunha e afirmando que não teme morrer.
Massacre
Ahmed Hassan, de 38 anos, era adolescente na época do massacre, inciado em represália a uma tentativa de assassinato de Saddam na cidade de Dujail, em 1982. Ele perdeu vários parentes, muitos deles presos e torturados.
Com dedo em riste, lágrimas nos olhos e às vezes aos gritos, Hassan narrou com detalhes as atrocidades que viu e que sofreu. O testemunho foi o primeiro a dar um contorno claro às atrocidades de que o ex-presidente e seus aliados processados. Antes, o tribunal havia apenas assistido a um depoimento gravado, de uma testemunha que morreu no mês passAdo.
Hassan contou que seus parentes e ele foram levados para um prédio da inteligência em Bagdá, gerido por Barzan Ibrahim al-Tikriti, meio-irmão de Saddam e um dos réus no julgamento.
- Eu juro por Deus. Passei por uma sala e vi um moedor com sangue saindo dele e cabelo humano abaixo - descreveu Hassan. - Meu irmão levou choques elétricos, enquanto meu pai, de 77 anos, observava. Alguns eram aleijados por causa de braços e pernas quebradas. Meu irmão e eu estivemos na mesma prisão por quatro anos, a apenas alguns metros de distância, mas sem não nos víamos.
No meio do testemunho, o meio-irmão de Saddam, sentado atrás dele no tribunal, interrompeu Hassan.
- É uma mentira - gritou Barzan, repreendido pelo juiz.
"Não temo a execução"
Saddam Hussein ouviu boa parte do testemunho em silêncio e prestando muita atenção. Mas esboçou um sorriso, quando a testemunha relatou um encontro dele com um garoto de 15 anos, detido no mês do massacre, levou um golpe na cabeça com um cinzeiro, num encontro com Saddam. Segundo a testemunha, o ditador perguntava ao rapaz quem ele era e parecia fazer questão de ser tratado por "presidente", enquanto o rapaz apenas dizia que ele era Saddam.
No final da audiência, quando era ouvida uma segunda testemunha, Saddam e alguns de seus aliados dirigiram-se agressivamente aos depoentes, chamando-os de mentirosos.
- Quando falo, falo como seu irmão. Seu irmão no Iraque e seu irmão na nação (árabe). Não temo a execução. Dou-me conta de que há pressão sobre você e lamento que um de meus irmãos deva me enfrentar - disse Saddam, dirigindo-se ao juiz que preside o tribunal, Rizgar Mohammed Amin.
Saddam interrompeu testemunhas e o juiz algumas vezes e chegou a gritar com um dos depoentes.
- Você não pode continuar jogando esses jogos. Se quer meu pescoço, pode levar - disse Saddam ao juiz.
Ele lançou dúvidas sobre a sanidade mental da testemunha e disse que espera que o tribunal determine que seja examinado por uma instituição médica independente.
- O importante são os fatos e não as palavras - disse Saddam.
Protesto
O início da sessão desta segunda-feira, os advogados chegaram a deixar a corte, para pressionar os juízes a deixá-los contestar a legitimidade do tribunal especial instaurado para julgar o ex-presidente do Iraque. Saddam uniu-se como pôde ao protesto, ficando de pé e declarando que a corte havia sido nomeada pelas forças da ocupação.
- Vida longa ao Estado árabe - gritou o ex-ditador.
Uma hora e meia depois, os advogados voltaram quando os juízes deram a eles a chance de pelo menos expor publicamente seus argumentos. Depois de eles apresentarem brevemente suas opiniões sobre a legitimidade da corte e de queixarem-se de falta de segurança - dois advogados de defesa já foram assassinados - , os juízes começaram a ouvir as testemunhas.



