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Internacional

Cristãos perseguidos sobem para 388 milhões no mundo

Eucaristia é o sacramento central do cristianismo, onde o pão e o vinho são consagrados e se tornam o Corpo e o Sangue de Jesus.
Eucaristia é o sacramento central do cristianismo, onde o pão e o vinho são consagrados e se tornam o Corpo e o Sangue de Jesus. (Foto: Pixabay/ ArtByrandy)

A liberdade religiosa ou de crença, um pilar da dignidade humana e das sociedades democráticas, está ameaçada em muitas regiões do mundo por perseguição, discriminação e violência relacionada à fé. Em um contexto internacional marcado por conflitos e radicalização, protegê-la está se mostrando crucial para a paz e a coesão social.

Um painel de discussão realizado em 21 de agosto, dia de abertura do Encontro para a Amizade entre os Povos, intitulado "A Liberdade de Crer: Um Direito Humano no Centro dos Desafios Geopolíticos", explorou o papel da liberdade religiosa nas dinâmicas geopolíticas contemporâneas, com atenção particular às minorias em áreas de crise e à contribuição das comunidades de fé para os processos de reconciliação. Também examinou as responsabilidades da União Europeia, da Itália e da cooperação internacional no fortalecimento de instrumentos diplomáticos e políticos para defender esse direito fundamental.

Após observações introdutórias de Maria Cristiana Mele, enviada especial da Itália para a promoção da liberdade religiosa e a proteção de minorias religiosas em todo o mundo, os palestrantes incluíram Cristina Duranti, diretora da Fundação Internacional Bom Pastor; o bispo Matthew Hassan Kukah, da Diocese de Sokoto, Nigéria, que disse: "Na Nigéria, se você perguntar a alguém se ele é cristão ou muçulmano, ele responderá: Estou com fome"; Mairead McGuinness, enviada especial da União Europeia para a promoção da liberdade de religião ou crença; e Andrea Avveduto, jornalista e porta-voz do Comitê Italiano para a Liberdade de Religião ou Crença, que moderou a discussão. Daniela Canclini, presidente do Comitê Italiano para a Liberdade de Religião ou Crença, fez as observações finais.

Em suas observações, Kukah destacou as "ações" de grupos terroristas na Nigéria: "O extremismo islâmico mudou com o tempo. Se há 15 ou 20 anos o Boko Haram perseguia apenas cristãos porque visava converter a população ao islamismo na mira da arma e estabelecer um califado no qual a sharia seria imposta; os grupos que operam hoje não têm contato com a população. Eles vivem escondidos e emergem apenas para matar, saquear e estuprar. Eles não matam com base confessional, então é impreciso dizer que hoje eles perseguem apenas cristãos."

"Seus ataques não fazem distinção com base na crença: eles matam pessoas em fazendas, em igrejas, em mesquitas, em casa, em todos os lugares. Há também vários grupos afiliados ao Estado Islâmico, mas divididos entre si, então se você é morto, você nem sabe quem fez isso. A situação é extremamente complicada. A única coisa que une esses grupos uns aos outros e ao Boko Haram é a violência e o comércio de minerais."

Ele também descreveu as dificuldades envolvidas no combate aos grupos terroristas: "A situação é extremamente difícil de conter, e o governo está presente apenas através dos militares, que, no entanto, permitem que as coisas aconteçam. A Nigéria é um estado corrupto. Perdeu a capacidade de fazer cumprir as leis, que existem, assim como existe uma constituição. A cada eleição política acontece a mesma coisa: há um candidato adequado, capaz, a pessoa ideal para ter um impacto positivo no governo do país. Ele não será eleito, porque outro candidato, mais rico, comprará a eleição com dinheiro."

Ao final do encontro, a ACI Stampa, o serviço irmão em língua italiana da EWTN News, pediu a Avveduto que explicasse por que a liberdade de crer está cada vez mais ameaçada.

ACI Stampa: Por que a liberdade de crer está cada vez mais ameaçada?

Avveduto: Estamos vivendo em uma época em que a fé voltou a ser percebida como um problema e não como um recurso. Por um lado, há regimes autoritários e ideologias totalitárias, que veem no crente alguém que obedece a uma autoridade superior ao Estado e, portanto, o temem; por outro, há o crescimento de extremismos que exploram a religião para justificar a violência e a tomada do poder.

No meio está a fragilidade de muitos estados: onde as instituições entram em colapso, a liberdade religiosa é a primeira a cair, porque as minorias ficam sem proteção. E há também uma ameaça mais sutil, típica de nossas sociedades secularizadas: a tentação de reduzir a fé a uma questão puramente privada, expulsando-a da esfera pública. A liberdade de crer está ameaçada onde quer que a pessoa não seja reconhecida em sua totalidade, que também inclui a dimensão espiritual.

Por que cada vez mais cristãos estão sob ameaça?

Os números são impressionantes: de acordo com a Lista de Vigilância Mundial 2026 da Portas Abertas, o número de cristãos expostos à perseguição em todo o mundo subiu para 388 milhões, 8 milhões a mais do que no ano anterior — um ano recorde. Um cristão em cada 7 no mundo sofre perseguição. As razões são diferentes e interligadas: a expansão do extremismo islamista, especialmente na África subsaariana; regimes que veem os cristãos como um corpo estranho ou inimigo ideológico; crime organizado que tem como alvo comunidades cristãs porque elas são indefesas.

O centro de gravidade do cristianismo mudou para a África, e é precisamente lá que ele está principalmente sob ataque: os cristãos são frequentemente minorias visíveis, comunidades que educam, prestam cuidados e constroem coesão social; precisamente por isso, tornam-se alvos daqueles que querem o caos ou um monopólio do poder. O paradoxo é que os cristãos são perseguidos não apesar do bem que fazem, mas muitas vezes por causa disso.

Outra região é o Oriente Médio. O conflito entre Israel e Irã está afetando o Líbano: como os cristãos estão vivendo isso?

O Líbano está mais uma vez pagando por guerras decididas em outros lugares. Desde o início de março, os bombardeios causaram mais de 2.000 mortes e mais de 1 milhão de deslocados, e os cristãos não foram poupados: membros da comunidade que não têm nada a ver com o Hezbollah foram mortos nos ataques. E ainda assim, em meio a tudo isso, a fé persiste: em aldeias cristãs no sul, como Rmeich, Debel e Ain Ebel, os padres dizem que a missa diária e o rosário rezado juntos são o que sustenta o povo sob bombardeio.

Os cristãos libaneses estão experimentando um sofrimento duplo: o sofrimento material da guerra e o sofrimento moral de um país mantido refém, cuja soberania é contestada entre potências externas. Mas eles também permanecem portadores de uma vocação: como o patriarca maronita lembra, ecoando as palavras dos papas, "o Líbano é mais do que um território; é uma mensagem de liberdade, dignidade, pluralismo e coexistência". Por essa razão, apoiar os cristãos do Líbano significa apoiar a própria ideia de um Oriente Médio pluralista.

Outra situação difícil é encontrada na Nigéria, como o bispo Hassan Kukah descreveu, e no Sudão: como os cristãos podem ser apoiados?

A Nigéria hoje é o lugar mais mortal do mundo para os cristãos: ela sozinha responde por cerca de 3.490 vítimas, 70% do total global de cristãos mortos por sua fé, em meio a ataques a aldeias, igrejas queimadas, sequestros de padres e até de estudantes. O Sudão, devastado pela guerra civil, também está entre os países que experimentam perseguição extrema. Como eles podem ser apoiados? Primeiro de tudo, não os esquecendo: a primeira perseguição é o silêncio.

Depois, através da proximidade concreta: apoiando as Igrejas locais, escolas, clínicas e projetos que permitem que as comunidades permaneçam em suas próprias terras em vez de fugir. Há também o nível de pressão política e diplomática, para que os governos sejam chamados à sua responsabilidade de proteger. E finalmente a oração, que para os próprios perseguidos — eles sempre dizem isso — não é um gesto simbólico, mas o sinal de que pertencem a um corpo maior que não os abandona.

Por que a liberdade religiosa é um bem para todos, como a Igreja enfatiza em seu magistério?

Porque é a mãe de todas as liberdades. Ela diz respeito ao núcleo mais íntimo da pessoa: a consciência, a relação com a verdade e com o significado último da vida. Um Estado que respeita esse santuário interior também respeitará a liberdade de pensamento, expressão e associação; um Estado que o viola mais cedo ou mais tarde violará todo o resto.

Isso pode ser visto empiricamente: os países onde os crentes são perseguidos são os mesmos países onde todos os direitos humanos são pisoteados. A liberdade religiosa, além disso, não protege apenas os crentes: também protege aqueles que não acreditam, porque afirma que nenhum poder pode impor ou proibir uma visão de mundo. É o fundamento de uma sociedade verdadeiramente pluralista, onde a diversidade não é meramente tolerada, mas reconhecida como fonte de riqueza.

Então, por que a Igreja luta pela liberdade religiosa para todos?

Porque ela não pede privilégios, mas um direito que surge da dignidade da pessoa criada à imagem de Deus, uma dignidade que pertence a todo ser humano, cristão ou não. Este é o ensinamento do Concílio Vaticano II através da declaração sobre a liberdade religiosa, Dignitatis Humanae: a verdade se impõe apenas em virtude de sua própria verdade, nunca através da coerção. A fé, para ser autêntica, deve ser livre; uma fé imposta não é fé.

Por essa razão, a Igreja defende com a mesma voz o cristão perseguido na Nigéria, o muçulmano discriminado, o judeu ameaçado, o yazidi massacrado: porque defender a liberdade religiosa apenas para o seu próprio povo negaria seu próprio fundamento. E é também uma questão de credibilidade: a Igreja sabe que o testemunho mais forte é o daqueles que defendem os direitos dos outros, não apenas os seus próprios.

Há alguns meses na Itália, o Pacto entre Religiões foi assinado. Pode ser um primeiro passo em direção à cooperação e ao diálogo entre as religiões?

Sim, e é um passo significativo precisamente porque não é uma declaração de intenções, mas um compromisso público e estruturado. Em 25 de junho, na Ara Pacis em Roma, os líderes de confissões religiosas presentes na Itália assinaram o pacto "O Caminho Italiano do Diálogo Inter-religioso", que foi então apresentado ao presidente italiano Sergio Mattarella: 15 confissões religiosas, da Igreja Católica às comunidades muçulmana, judaica, ortodoxa, protestante, budista, hindu e bahá'í, fruto de três anos de trabalho conjunto.

O documento contém nove compromissos e nove ações concretas: educar as comunidades no diálogo, trabalhar juntos pelo bem comum e promover uma cultura de paz. É importante por duas razões. A primeira é porque mostra que as religiões não são o problema, mas parte da solução e, como Mattarella disse, o diálogo buscado sinceramente produz compreensão e cooperação, e dá vida a formas de coexistência que são essenciais para banir toda intolerância.

A segunda é esta: em um mundo onde a religião é explorada para alimentar conflitos, um pacto entre diferentes religiões é a refutação mais eloquente dessa exploração. Claro, um documento não é suficiente: será a prática cotidiana — nas cidades, nas escolas, entre os jovens — que mostrará se esse primeiro passo se torna uma jornada. Mas a direção é a certa, e começando na Itália pode se tornar um modelo em outros lugares.

©2026 Catholic News Agency. Publicado com permissão. Original em inglês: Religious freedom under growing threat worldwide, experts warn at Catholic gathering in Italy https://www.ewtnnews.com/world/europe/religious-freedom-under-growing-threat-worldwide-experts-warn-at-catholic-gathering-in-italy

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