Rio de Janeiro A Cúpula do Mercosul chegou ao fim ontem sem a inclusão da Bolívia e com ao menos um sinal claro: existem assimetrias e divergências entre os países-membros, que provocaram críticas entre os presidentes que participaram do encontro.
A Bolívia, de Evo Morales, ganhou um grupo de trabalho para decidir, nos próximos meses, sobre a adesão do país ao bloco econômico.
Os negociadores tentam acomodar as exigências do país, que diz que só entra para o Mercosul se houver tarifas de comércio mais baixas. Já o Equador preferiu não pedir a adesão plena.
O encontro no Rio de Janeiro contou com a presença de 11 países sul-americanos. A única exceção ficou por conta do Peru. Em documento, os países pedem a consolidação democrática e o respeito aos direitos humanos.
Críticas
Apesar de um discurso em prol da "generosidade" dos maiores sócios e do "despojamento de interesses pessoais e nacionais", o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu críticas dos colegas da Bolívia e do Uruguai.
O cocaleiro Evo Morales (Bolívia) afirmou em discurso que o país não vai mais vender gás subvencionado para o Brasil e que apesar do discurso de solidariedade de Lula as assimetrias estão longe do fim.
O presidente uruguaio, Tabaré Vázquez, argumentou na mesma linha de Morales e disse que o país não quer apenas generosidade, mas justiça no tratamento dos sócios menores. "O Uruguai pede justiça no tratamento dos países do Mercosul".
O presidente Néstor Kirchner (Argentina), que recebeu críticas veladas de Lula, afirmou que o principal responsável pelas assimetrias é o fato da agenda do Mercosul não estar concluída. Ele defendeu a criação de um Banco do Sul e de um Gasoduto do Sul.
Para o chanceler brasileiro, Celso Amorim, as divergências no encontro não inviabilizam o Mercosul. "Não há divergência no essencial. É saudável, é parte da democracia (haver divergência). A homogeneidade só existe nos cemitérios", disse. "Não vejo incompatibilidade, eu vejo diferenças."
Chávez
Uma das vedetes do encontro, o presidente venezuelano, Hugo Chávez, brincou, fez frases de efeito e foi o principal chefe de Estado a aparecer. "O capitalismo é o caminho da perdição do planeta", foi uma de suas declarações ontem.
Chávez também defendeu que os governos da região ampliem a participação do poder do Estado na economia e sigam o exemplo do programa de "recuperação da propriedade nacional" que vai implementar em seu país. Alheio aos apelos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que lhe pedia para restringir seu discurso a 13 minutos, Chávez conseguiu dominar os debates entre os líderes do bloco e expor seu ideário do "Socialismo do Século 21".
Durante a cúpula, o Banco do Sul, organismo para financiar investimentos na região, dividiu opiniões. Para Kirchner, ele é fundamental para o bloco. O ministro da Fazenda brasileiro, Guido Mantega, já considera melhor idéia a utilização dos bancos de fomento que já existem: BNDES, Banco de La Nación e Banco de Desenvolvimento da Venezuela.
Foram dados também os passos iniciais para o Gasoduto do Sul. O ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, anunciou que o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) decidiu autorizar o aporte de US$ 200 milhões para a Corporação Andina de Fomento).



