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Brasil e Argentina chegaram nesta semana ao momento mais delicado da relação bilateral com o rebaixamento diplomático promovido pelo governo Lula (PT). A decisão altera a forma como Brasília e Buenos Aires passarão a se relacionar e também expõe a estratégia de Javier Milei de ampliar sua influência regional.
A crise entre os vizinhos começou com a visita de Milei ao Brasil, onde endossou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República. O comportamento adotado pelo líder argentino desde então tem sido de confronto direto a Lula.
A Casa Rosada já deixou explícito que não tomará medidas de retaliação diplomática pela decisão unilateral do Itamaraty, ao mesmo tempo em que enfatizou que não pedirá desculpas pelas declarações do presidente por enquadrá-las em falas de cunho político e, por isso, passíveis de divergências.
Para o chanceler brasileiro, Mauro Vieira, as críticas direcionadas ao petista foram feitas "de forma agressiva" e "como nunca visto antes". A decisão de reduzir as relações entre os países será mantida, segundo o ministro, até que a diplomacia argentina dê "explicações satisfatórias" sobre os episódios.
Analistas da área de Relações Internacionais ouvidos pela Gazeta do Povo destrincham como a atitude de Milei pode alavancar sua liderança perante a direita regional. Por outro lado, apontam as limitações dessa estratégia externa do líder argentino, especialmente em relação às eleições brasileiras.
Para Márcio Coimbra, CEO da Casa Política e ex-diretor da Apex-Brasil, os ataques reiterados de Milei a Lula obedecem a uma estratégia deliberada de consolidação política que extrapola a mera fricção verbal, o que torna o presidente brasileiro o "antagonista perfeito" para a projeção da direita libertária argentina.
Em sua avaliação, o governo argentino assumiu o risco dos custos institucionais de curto prazo, como a reação do Itamaraty nesta terça-feira, porque os ganhos de imagem perante a sua base conservadora e aliados internacionais superam os prejuízos operacionais.
"Essa postura alinha-se perfeitamente aos interesses de Donald Trump, permitindo a Milei sinalizar lealdade irrestrita a Washington enquanto contrasta a cooperação argentina com o que a Casa Branca percebe como a inflexibilidade e o viés ideológico de Brasília", afirma.
Para o professor de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) João Alfredo Lopes Nyegray, um ponto prioritário na estratégia argentina é reforçar sua identidade como antagonista do chamado “ciclo progressista” da região. Segundo o analista, Lula ocupa um lugar central nessa narrativa porque simboliza justamente o projeto político que Milei afirma combater desde sua campanha presidencial.
Além da questão ideológica, o governante da Casa Rosada estaria aproveitando um desgaste internacional do governo brasileiro, com as recentes tensões diplomáticas com os EUA e pelo aumento da polarização doméstica, para explorar uma percepção de fragilidade política do presidente brasileiro e estimular a ideia de que a Argentina estaria ocupando um espaço de protagonismo regional anteriormente exercido pelo Brasil. "O cálculo parece ser que um Lula pressionado interna e externamente teria menos espaço para responder de maneira contundente", aponta Nyegray.
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Na visão dos internacionalistas consultados, apesar da relação político-diplomática enfrentar seu momento mais crítico na história recente, uma escalada rumo ao colapso total da relação bilateral tende a ser contida pela densidade das trocas comerciais e pela integração econômica entre os países.
Coimbra avalia que a ampliação do conflito para o campo de sanções tarifárias ou do bloqueio de acordos no âmbito do Mercosul cobraria um preço proibitivo para ambos os países, atingindo em cheio os setores industriais que dependem das cadeias produtivas regionais.
"Na ausência de pragmatismo por parte de Brasília e diante da disposição de Milei em usar a confrontação internacional para inflamar sua militância, a histórica aliança estratégica entre Brasil e Argentina permanecerá refém da partidarização e privada de qualquer agenda de desenvolvimento conjunto", afirma.
Nyegray recorda que o Brasil é um dos principais destinos das exportações industriais argentinas, especialmente automóveis, autopeças e manufaturas. Hoje, não existe nenhum outro mercado capaz de substituir rapidamente esse fluxo comercial e, portanto, Milei está assumindo um risco calculado: acredita que Brasília evitará transformar uma crise política em uma crise econômica justamente porque isso também prejudicaria empresas brasileiras.
Impacto nas eleições brasileiras deve ser limitado
Ao mesmo tempo em que a crise entre Brasil e Argentina pode turbinar a candidatura de Flávio Bolsonaro ao oferecer um palanque internacional de forte apelo para a sua base eleitoral consolidada, a exploração política do embate com o principal parceiro do Mercosul traz limitações estratégicas para a expansão do apoio ao candidato de direita, avalia Coimbra.
Segundo o analista, apesar do apoio de Milei fortalecer o discurso dos Bolsonaro, pode haver prejuízo com o eleitorado de centro e dos setores produtivos pragmáticos. "O esvaziamento da representação em Buenos Aires e o congelamento institucional preocupam o empresariado industrial e o agronegócio exportador, que dependem da integração econômica e temem que desentendimentos de palanque prejudiquem o comércio bilateral", explica.
Os dois países movimentaram US$ 13,75 bilhões em importações e exportações no primeiro semestre de 2026, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento Indústria, Comércio e Serviços.
Dessa forma, conclui Coimbra, embora a estridência de Milei energize os eleitores da direita, ela cria resistências entre os eleitores independentes, fatia que será decisiva no pleito de outubro, que tendem a priorizar a estabilidade econômica, a previsibilidade e o pragmatismo internacional em detrimento do confronto ideológico.







