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A revolta que tomou conta das ruas do Irã teve início em 28 de dezembro e rapidamente se transformou em um dos maiores movimentos de protestos contra o regime islâmico desde o assassinato de Mahsa Amini, que foi presa por não usar o hijab (véu) corretamente em 2022.
Ao contrário das manifestações anteriores, os protestos das últimas semanas surgiram relativamente de forma modesta em resposta à instabilidade econômica enfrentada no país, embora tenham evoluído para um movimento político contra a gestão dos aiatolás, que reagiu com repressão brutal.
Segundo relatório da agência de notícias da organização Human Rights Activists (HRANA), sediada nos EUA, até o momento foram efetuadas 18.137 prisões e milhares de mortes. Comparativamente, os grandes protestos de 2022 registraram pelo menos 476 mortes, segundo a organização Iran Human Rights (IHRNGO).
Uma cronologia dos protestos
Tudo começou em 28 de dezembro, quando comerciantes e setores econômicos foram às ruas impulsionados pelo colapso do rial, a moeda oficial do Irã, e pela alta inflação. Milhares de iranianos aderiram a essa nova onda de protestos que se espalhou por mais de cem cidades desde então.
Diversos vídeos de lojistas e comerciantes entoando cânticos no shopping Charsou Mall e marchando para a rua começaram a ser publicados nas redes sociais. As imagens foram verificadas pelo jornal The New York Times.
Com o crescimento dos protestos, estudantes universitários e iranianos de classes mais baixas economicamente, os principais afetados pela desvalorização da moeda nacional, se mobilizaram nas ruas nos dias seguintes. O Irã tem uma taxa de inflação anual superior a 42% e, durante 2025, a moeda iraniana perdeu 69% do seu valor em relação ao dólar.
Assim que percebeu a expansão das manifestações, o regime iraniano passou a responder com gás lacrimogênio, na tentativa de dispensar os primeiros grupos mobilizados. No entanto, a adesão apenas cresceu.
Três dias depois do início da revolta, as manifestações se espalharam dos mercados e universidades das principais cidades para cidades de todo o países ganharam um tom político. Um dos vídeos verificados pelo Times mostra manifestantes atirando objetos contra um prédio do governo na cidade de Fasa, no sul do país, em 31 de dezembro. Em seguida, eles sacudem os portões até que se abram.
Nos primeiros dias de 2026, foram registradas as primeiras mortes, indicando que os protestos estavam se tornando violentos. Apesar do tom inicialmente conciliatório do presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, no início de janeiro, reconhecendo as dificuldades financeiras vividas pelo país, o regime respondeu aos protestos com truculência.
O líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, também chegou a reconhecer as dificuldades enfrentadas pela população iraniana, mas responsabilizou "mercenários estrangeiros" e "vândalos" pelos problemas. Depois desse discurso da autoridade máxima do país, a violência parece ter aumentado.
Em 6 de janeiro, o príncipe herdeiro iraniano no exílio, Reza Pahlavi, convocou protestos dentro e fora do país.
Testemunhas em Teerã relataram à Agência EFE a existência de verdadeiras "zonas de guerra" e "batalhas campais" em várias partes da cidade, onde confrontos violentos eclodiram entre manifestantes e a polícia, especialmente nas noites de quinta e sexta-feira passada.
Na última segunda-feira, apoiadores do regime foram às ruas em defesa das autoridades, uma ação que o líder supremo do Irã saudou como "um aviso aos políticos americanos".
Trump ameaça intervir para proteger manifestantes no Irã
As grandes mobilizações ganharam novo fôlego após uma manifestação do presidente dos EUA, Donald Trump, ameaçando socorrer os manifestantes caso as autoridades iranianas atirassem contra eles.
O republicano disse nesta semana que recebeu o contato de líderes iranianos, na tentativa de negociação, uma porta que ele fechou nesta terça-feira (13). Trump também não descartou uma intervenção militar no país persa.
Na madrugada desta quarta-feira (14, horário local de Teerã), um avião pertencente à Marinha dos EUA sobrevoou uma área próxima à costa do Irã.
Regime suspende serviços de comunicação para tentar conter a revolta
A repressão aos protestos tem sido severa, e as autoridades restringiram o acesso à internet em todo o país, tornando impossível conectar-se a sites ou serviços de fora do Irã. O bloqueio de comunicações isolou a República Islâmica do resto do mundo nos últimos cinco dias e segue em vigor.
Os corte dos serviços atingiu ligações internacionais, mensagens de texto internamente e a internet.
Em resposta, Trump propôs o envio de satélites da Starlink, de Elon Musk, para o Irã, a fim de garantir o acesso contínuo ao serviços de rede.
A comunidade internacional reagiu com preocupação à dimensão dos protestos e à repressão. A União Europeia está considerando novas sanções contra o Irã, e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, expressou seu apoio aos manifestantes que exigem liberdade.
Primeira resposta: EUA anunciam tarifas para parceiros comerciais do Irã
O presidente Donald Trump anunciou no início desta semana que qualquer nação que "faça negócios" com o Irã será punida com uma tarifa de 25% imposta por Washington, marcando mais um passo na campanha para estrangular economicamente o regime de Teerã.
"Esta ordem é imediata e definitiva", disse Trump em uma publicação em sua conta oficial no Truth Social. Essa medida deve afetar os dois maiores adversários geopolíticos dos EUA atualmente, China e Rússia, mas também países considerados aliados de Washington, como Índia e Brasil – que, como as duas ditaduras citadas, integram os Brics ao lado do Irã.
Regime acelera julgamentos e execuções de manifestantes
O regime do Irã marcou para esta quarta-feira (14) a primeira execução de um manifestante que participou dos protestos iniciados no final de dezembro no país persa.
O chefe do Poder Judiciário do Irã, Gholam-Hossein Mohseni-Eje'i, prometeu acelerar os julgamentos de manifestantes envolvidos com a revolta nas ruas em meio à crescente preocupação internacional com a repressão brutal aplicada por agentes de segurança nas ruas.
Segundo Mohseni-Eje'i, pessoas consideradas lideranças dos protestos, chamados por ele de "os principais elementos", serão julgados publicamente.




