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Disputa sobre sanções coloca em dúvida capacidade de acordo entre Trump e Kim

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Presidente dos EUA, Donald Trump, e ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un, durante a cúpula de Hanói, no Vietnã. (Foto: )

Dois dias de retórica e troca de elogios entre o presidente dos EUA, Donald Trump, e ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un, não conseguiram preencher a lacuna em uma questão que atormenta os negociadores americanos há meses: o levantamento de sanções econômicas sobre o empobrecido Estado pária.

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Nesta quinta-feira (28), após antecipar o fim da cúpula de Hanói, Trump disse que a exigência da Coreia do Norte para o total alívio das sanções em troca da desnuclearização parcial foi o principal impedimento para se chegar a um acordo sobre o desmantelamento dos programas nucleares e balísticos de Pyongyang, peça central da política externa do presidente americano.

"Basicamente, eles queriam que as sanções fossem suspensas na íntegra e não poderíamos fazer isso", disse Trump a repórteres em uma coletiva de imprensa no Vietnã que encerrou a cúpula de dois dias. "Você sempre tem que estar preparado para andar."

A abrupta conclusão da cúpula sem um plano para as negociações expôs as vulnerabilidades de confiar no relacionamento pessoal de Trump e Kim para superar as disputas que vem sendo tratadas pelos negociadores dos dois países há oito meses, após a primeira cúpula, em Cingapura.

"Um bom relacionamento pessoal é bom, mas não é suficiente para criar uma ponte entre grandes lacunas ao longo de uma cúpula de alto nível", disse Daryl Kimball, diretor-executivo da Associação de Controle de Armas, com sede em Washington.

O colapso das negociações destinadas a resolver a maior ameaça à segurança na Ásia é uma decepção para o presidente Trump, que disse, ao lado de Kim, na quarta-feira, que esperava que a segunda cúpula fosse "igual ou maior que a primeira".

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O que ocorreu também levanta dúvidas sobre a capacidade de ambos em recuperar o ímpeto de uma negociação de alto risco que ainda não alcançou resultados sob a supervisão de diplomatas que trabalham nos bastidores. Na ausência de progresso na frente diplomática, analistas internacionais temem que as tensões possam aumentar na frente militar.

"Como Stephen Biegun e Kim Hyok Chol vão fechar uma lacuna que Donald Trump e Kim Jong-un não conseguiram?", questionou John Delury, especialista em Coreia na Universidade Yonsei, em Seul, referindo-se aos principais negociadores dos EUA e da Coreia do Norte.

Nos últimos meses, as negociações de nível diplomático mais baixo demoraram a progredir, uma vez que os diplomatas da Coreia do Norte não tinham a autoridade para fazer concessões, segundo pessoas familiarizadas com as negociações.

Divisão no governo Trump

Durante a coletiva de imprensa desta quinta-feira, o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, tentou soar otimista, dizendo que esperava que as equipes de negociação "se reunissem nos próximos dias e semanas para trabalhar. É um problema muito complexo".

A questão dividiu os principais conselheiros de Trump e os aliados mais próximos dos EUA, que tentaram pressionar o presidente em diferentes direções.

O conselheiro de segurança nacional John Bolton é um forte opositor das negociações, cético em relação a Biegun, o representante especial dos EUA para a Coreia do Norte, nomeado por Trump para negociar um acordo.

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Bolton e outros funcionários no Departamento do Tesouro e no Pentágono expressaram preocupação de que Biegun estivesse avançando rápido demais para um caminho que viabilizaria o afrouxamento das sanções ou uma declaração do fim da Guerra da Coreia, de acordo com pessoas familiarizadas com as discussões. Defensores do Biegun disseram que ele é um negociador pragmático e experiente, que permanece atento ao seu desafio e reconhece privadamente as grandes probabilidades de um bom resultado.

Repercussão no Japão e na Coreia do Sul

Fora dos Estados Unidos, autoridades japonesas expressaram ceticismo sobre as negociações, e espera-se que o presidente não negocie sanções para conseguir o fechamento da usina nuclear de Yongbyon, na Coreia do Norte, um complexo que abriga as instalações de enriquecimento de urânio do país, mas não abrange a totalidade das ogivas e inventário de mísseis do Norte.

Mas o outro aliado asiático dos EUA, o presidente sul-coreano Moon Jae-in, investiu uma enorme quantidade de seu prestígio pessoal no compromisso com a Coreia do Norte. Ele certamente ficará muito desapontado com o colapso das negociações.

O porta-voz da presidência, Kim Eui-keum, disse que é "lamentável" o fato de que Trump e Kim Jong-un não conseguiram chegar a um "acordo completo" nas negociações. Segundo ele, o governo tem esperança de que os dois lados continuem conversando, mas um assessor presidencial sul-coreano ofereceu uma avaliação mais franca dos eventos desta quinta-feira.

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"Fiquei perturbado", disse Kim Kwang-gil, especialista em sanções do Comitê Presidencial de Cooperação Econômica do Norte. "Muitas pessoas na Coreia do Sul que esperaram por esta cúpula, especialmente aquelas que previam a retomada do complexo econômico de Kaesong, ficaram de coração partido."

Moon havia falado em estabelecer ligações rodoviárias e ferroviárias com a Coreia do Norte como um primeiro passo em direção a uma integração econômica semelhante à que a Europa estabeleceu após a Segunda Guerra Mundial. Ele também está ansioso para reiniciar uma zona econômica conjunta em Kaesong, na Coreia do Norte, fechada em 2016 durante os testes nucleares e de mísseis da Coreia do Norte, bem como um projeto turístico conjunto no Monte Kumgang.

O lado positivo

Apesar de muitos especialistas se referirem ao colapso das negociações como um fracasso, alguns disseram que a cúpula poderia gerar mais progresso nos próximos dias.

"Acho que o fracasso foi a admissão que há necessidade de mais tempo e conversas em nível de trabalho para que se consiga um acordo", disse Scott Snyder, especialista em Coreia do Conselho de Relações Exteriores.

"Isso permite que os norte-coreanos saibam que a cúpula precisa ser acompanhada de um processo e que o fim das conversas em nível de trabalho, com foco exclusivo no nível dos líderes, não necessariamente produzirá resultados."

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