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Em um evento dos Brics pouco antes da cúpula dos líderes do bloco em 2024, realizada na Rússia, o ditador russo, Vladimir Putin, disse que os PIBs somados dos países integrantes do grupo já superavam os do G7, o colegiado das economias mais desenvolvidas do mundo, composto por Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido.
Na ocasião, o líder do Kremlin afirmou que a participação no PIB global do G7 e dos países dos Brics era de 45,5% e 16,7% em 1992, respectivamente, em Paridade do Poder de Compra (PPC). “E agora? Em 2023, nossa associação detém uma participação de 37,4% no PIB global, enquanto o Grupo dos Sete tem 29,3%. E a diferença está aumentando. E vai aumentar mais, é inevitável”, disse ele.
“Os países que compõem nossa associação são, na verdade, os motores do crescimento econômico global. E é nos Brics que o principal aumento do PIB global será gerado em um futuro próximo”, projetou o ditador russo.
Rússia e China foram os principais incentivadores para que os Brics concordassem com a entrada de seis novos membros durante a cúpula de agosto de 2023, em Joanesburgo, na África do Sul, a maior expansão do bloco desde a sua criação.
Egito, Etiópia, Emirados Árabes Unidos e Irã ingressaram formalmente em janeiro de 2024 nos Brics, grupo que já era integrado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul e que seria expandido novamente em 2025, com a entrada da Indonésia.
Porém, Argentina e Arábia Saudita, também aprovadas na leva de 2023, não ingressaram no bloco: o primeiro país porque o presidente Javier Milei, que tomou posse em dezembro daquele ano, cancelou a adesão argentina; o segundo, principal aliado dos EUA no Golfo Pérsico e adversário do Irã, ainda não oficializou sua entrada.
Se os Brics já tinham divergências internas, como as disputas fronteiriças entre China e Índia, as diferenças foram exacerbadas com a expansão que entrou em vigor em 2024.
No último dia 15, os ministros das Relações Exteriores dos Brics concluíram a cúpula de chanceleres do bloco em Nova Délhi, na Índia, sem chegar a uma posição comum sobre a guerra no Irã.
O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, havia pedido para que os Brics condenassem os Estados Unidos e Israel pela guerra contra os iranianos iniciada em 28 de fevereiro, atualmente em um tenso cessar-fogo. O Irã também acusou os Emirados Árabes de ajudar na “agressão” contra o regime persa.
Depois, Aragchi disse que um membro dos Brics “bloqueou” uma declaração conjunta sobre a guerra no Oriente Médio devido à sua “relação especial” com Israel e os Estados Unidos, numa clara referência aos Emirados Árabes.
Em abril, o governo dos Emirados Árabes afirmou que o Irã deve pagar pelos danos causados pelos ataques do regime de Teerã a países do Golfo Pérsico durante a guerra contra Estados Unidos e Israel. Teerã alega que apenas visou bases americanas nesses países.
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Os Emirados Árabes interceptaram mísseis e drones iranianos durante a guerra e este mês o jornal americano Wall Street Journal relatou que o país árabe teria realizado operações militares contra o Irã no início de abril.
Barragem gera disputa entre outros dois novatos nos Brics
Outro impasse ocorre entre Egito e Etiópia, também novatos nos Brics. Os dois países travam há vários anos uma disputa diplomática (que esteve perto de descambar para a guerra em alguns momentos) devido a uma grande barragem etíope que foi construída no rio Nilo Azul, com os egípcios manifestando preocupações a respeito da sua segurança hídrica.
O Nilo Azul é um dos dois principais afluentes do Nilo e fornece cerca de 85% da água que alimenta o rio durante a estação chuvosa, gerando no Cairo preocupações de que a Etiópia possa restringir o fluxo de água para o rio principal em momentos de seca prolongada.
As hostilidades foram renovadas no último dia 16, quando, segundo informações dos jornais The National e Daily News Egypt, especializados em notícias sobre Oriente Médio e norte da África, o ministro das Relações Exteriores egípcio, Badr Abdelatty, e o ministro dos Transportes, Kamel al-Wazir, se encontraram com o ditador da Eritreia, Isaias Afwerki.
Os dois países africanos assinaram um acordo de cooperação em transporte marítimo para uma linha de navegação conectando seus portos e o Cairo declarou que a segurança do Mar Vermelho deve permanecer sob a “responsabilidade exclusiva” dos seus países litorâneos.
Foi uma clara provocação à Etiópia, país que perdeu seu litoral com a independência da Eritreia, em 1993. Os etíopes buscam um acordo com a região separatista da Somalilândia para terem acesso ao mar, o que é rejeitado pelo Egito, que alega que um compromisso nesse sentido violaria a soberania da Somália.
Mir Mostafizur Rahaman, colunista do Financial Express, jornal de negócios indiano em inglês, disse em artigo recente que as divisões manifestadas na reunião dos ministros das Relações Exteriores do bloco em Nova Délhi expuseram “com uma clareza incomum” como os Brics estão distantes da “visão romântica” de uma aliança antiocidental “disciplinada”, já que “os interesses nacionais prevaleceram sobre a solidariedade do bloco” durante o encontro.
“O principal problema do bloco é simples: opor-se à hegemonia ocidental é mais fácil do que construir uma alternativa coerente. Queixas compartilhadas não geram automaticamente uma estratégia compartilhada”, disse Rahaman, acrescentando que os Brics continuarão “realizando cúpulas, expandindo parcerias e exigindo reformas na governança global”.
“Mas, a menos que consigam conciliar as ambições conflitantes de seus membros e articular uma agenda coletiva coerente, sua influência poderá diminuir gradualmente”, afirmou o colunista.
Cleiton Vinícius Pegoraro de Araújo, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, disse à Gazeta do Povo que as divergências entre os novatos dos Brics são “movimentos normais” dentro de alinhamentos regionais e geopolíticos e que o bloco tem perfil mais econômico que político, mas questionou a capacidade de Rússia e China de elevá-lo ao papel de antagonista.
“Não acho que Vladimir Putin consiga alterar a formação dos Brics para fazer frente ao G7, não vejo que a Rússia tenha esse poder todo frente aos demais países [do bloco] para fazer essa transformação”, disse Araújo.
Murilo Borsio Bataglia, pró-reitor de internacionalização da Estácio Brasília, afirmou à Gazeta do Povo que as disputas entre Irã e Emirados Árabes e entre Egito e Etiópia “evidenciam os desafios de um bloco cada vez mais diverso”, cuja expansão, embora tenha ampliado o peso econômico e geopolítico dos Brics, “também aumentou a heterogeneidade de interesses”, o que “reduz sua capacidade de atuação política coordenada”.
“Como os Brics funcionam por consenso e não constituem uma aliança militar ou política formal, diferenças regionais e estratégicas podem dificultar a adoção de posições conjuntas em temas sensíveis, como conflitos armados e segurança internacional”, destacou o especialista.
Nesse sentido, os Brics “ainda não apresentam o mesmo grau de convergência política e institucional do G7”. “Assim, tendem a atuar mais como um polo alternativo de influência global do que como um substituto direto do grupo das economias desenvolvidas”, disse Bataglia.






