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O projeto original era um ode ao capitalismo. Nos anos 1950, era para ser shopping center de luxo em Caracas. O consumidor poderia até mesmo dirigir seu carro até a porta das lojas, ao melhor estilo drive-thru. Eram rampas em espiral levando a 300 lojas. Sob a sombra do chavismo, o sonho de concreto virou um pesadelo: bem-vindo a El Helicoide.
Em 1984, o local virou a sede da Dirección de los Servicios de Inteligencia y Prevención (Direção dos Serviços de Inteligência e de Prevenção, DISIP), primeiro serviço de inteligência do país. Com a chegada de Chávez ao poder, no fim dos anos 1990, o ambiente foi sendo transformado: os antigos espaços reservados para lojas viraram celas. As salas, centros de repressão e da tortura do regime ditatorial.
Com a captura do ditador Nicolás Maduro na madrugada deste sábado (3), uma nova dúvida paira sobre as rampas sombrias dessa estrutura.
Qual será o futuro do El Helicoide?
Por hora, os detentos, claro, permanecem. A incerteza sobre o destino dos presos políticos que lá permanecem é agonizante. Mas, olhando para a frente, será que o prédio retomará sua vocação original de um shopping capitalista? Ou deverá ser preservado como um solene "Museu da Memória", um monumento eterno para que as gerações futuras jamais esqueçam os crimes cometidos em nome da revolução bolivariana?
A história do edifício é, em si, uma metáfora da própria Venezuela. Iniciado durante o governo do general Marcos Pérez Jiménez, a obra parou após sua queda em 1958. Ficou abandonada. Tomada por sem tetos. Até que o Estado decidiu, nos anos 80, instalar ali suas agências de segurança.
Com a ascensão de Hugo Chávez ao poder, em 1999, e depois com Nicolás Maduro, em 2013, ano após ano o regime chavista foi literalmente jogando em celas de 12x12 criminosos comuns, suspeitos de “traição” e adversários políticos.
Quem esteve em Helicoide
Nas últimas décadas, as celas improvisadas do Helicoide receberam hóspedes forçados como María Oropeza, membro da equipe de campanha da líder da oposição venezuelana, María Corina Machado, vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2025. Opereza foi sequestrada pelo regime em agosto de 2025 e mantida sem comunicação por meses.
Alfredo Díaz, ex-governador do estado de Nova Esparta, morreu sob custódia chavista em dezembro de 2025. Acusado de “terrorismo”, aparentemente, teve atendimento médico negado. Oficialmente, morreu de infarte.
Rocío San Miguel é outra “hóspede” conhecida. Advogada e defensora dos direitos humanos, detida em 2024, acusada de conspiração.
Por lá também passaram Rosmit Mantilla, o primeiro deputado abertamente gay da Venezuela, preso em 2014. Outro exemplo é Roberto Marrero, chefe de gabinete de Juan Guaidó em 2019, outro opositor de Maduro que chegou a ser reconhecido presidente interino por vários países.
Além deles, lá estão e passaram estudantes, militares dissidentes e cidadãos comuns que amargaram dias e noites literalmente nas entranhas de uma espiral de ódio.

Como é o inferno chamado Helicoide
Relatos compilados pela jornalista venezuelana Sebastiana Barraez e investigações internacionais, como a produção de um documentário da BBC, parecem uma descrição do Inferno de Dante. Os jornalistas que por lá passaram viram e ouviram de presos: Helicoide não tem celas adequadas, ventilação ou saneamento.
Escritórios, banheiros e depósitos viraram calabouços. Existem lugares com nomes que parecem piadas de mau gosto, como “O Aquário”. Outro, aparentemente o pior, é o setor conhecido como “Guantánamo”: um depósito de 12 metros sem luz, sem água e sem banheiro. Ali, segundo relatos, o regime chegava a amontoar 50 pessoas simultaneamente. O cheiro é descrito como insuportável, com presos forçados a urinar em garrafas plásticas e defecar em sacolas.
Diretos desumanos e tortura institucionalizada
A farsa do “tratamento humano” era somente para visitas internacionais. Maduro mandou “limpar” o centro de tortura antes de visita da comissária para os direitos humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), Michelle Bachelet, em 2019.
Mas sem os ilustres visitantes por perto, os métodos de interrogatório do Sebin buscavam confissões a todo custo, lembrando memórias das antigas ditaduras sul-americanas.
Denúncias não faltam: uso sistemático de choques elétricos aplicados em partes sensíveis do corpo, como testículos e estômago; sacos plásticos cobrindo cabeças (até mesmo com sacos contendo fezes humanas; espancamentos brutais; "crucificação" com pessoas penduradas pelos pulsos; tortura psicológica, como simulações de execução com guardas rindo do desespero alheio.
A infâmia do Helicoide ultrapassou as fronteiras da denúncia jornalística e virou tema de estudo e documentário. A produção "El Helicoide: The Shopping Mall That Became a Torture Prison" (BBC News) é um exemplo. A obra detalha como esse ícone da modernidade venezuelana se tornou o símbolo de sua ruína.
Ao assistirmos à derrocada de Nicolás Maduro, o Helicoide permanece lá, estático, como uma cicatriz de concreto na capital venezuelana. Pelo menos até ganhar um novo destino, menos sombrio.
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