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declaração

Em Frankfurt, Liao Yiwu chama Mo Yan de "canalha" a serviço do regime chinês

Escritor chinês atacou duramente o compatriota vencedor do Prêmio Nobel de Literatura 2012, anunciado nesta semana

O escritor chinês Liao Yiwu, tido como o poeta do massacre Tianamen por ter premeditado o fato em um poema escrito um dia antes, atacou nesta sexta-feira duramente o Prêmio Nobel de Literatura 2012, seu compatriota Mo Yan, qualificado como "canalha" e intelectual do regime.

"Mo Yan há poucos meses organizou um ato com 100 escritores no qual cada um deles transcreveu um texto de Mao como mostra de fidelidade ao regime. Isso já nos dá uma ideia do personagem em questão. Trata-se de um canalha", afirmou Liao em visita à Feira do Livro de Frankfurt.

No próximo domingo, o próprio Liao receberá o Prêmio da Paz dos Livreiros Alemães por sua denúncia permanente contra a opressão na China, um fato que lhe rendeu quatro anos na prisão e, posteriormente, o forçou a buscar exílio em Berlim.

Nesse sentido, Liao Yiwu representa uma concepção abertamente política da literatura e se considera como o extremo oposto de Mo Yan.

"Há muitos parâmetros em que pode classificar um escritor. Mas, a China é uma ditadura e, em uma ditadura, um escritor não pode deixar de lado a moral", completou Liao.

O escritor dissidente soube que Mo Yan recebeu o Nobel de Literatura quando já estava no trem que o levaria de Berlim a Frankfurt, o que o fez lembrar de outra situação similar quando, na primeira vez que esteve na Alemanha e no mesmo trajeto ferroviário, soube do Prêmio Nobel da Paz dado a Liu Xiaobo em 2010.

"Nessa outra vez, eu e meus amigos ficamos muito contentes, era um prêmio que fortalecia aqueles que lutam pela justiça na China e nos fazia acreditar que havia um sistema de valores universal", declarou Liao.

"A situação é parecida, mas Mo Yan é visto por todos os que lutam contra a opressão na China como um intelectual do regime. O prêmio agora nos faz pensar que o sistema de valores do Ocidente é muito difuso", acrescentou.

Na china, o Nobel de Literatura 2012, por sua vez, respondeu hoje que se seus críticos tivessem lido seus livros teriam visto que os mesmos foram escritos "sob uma grande pressão" e, por isso, foi exposto a "grandes riscos".

Em relação a Liu Xiaobo, que cumpre uma condenação de 11 anos de prisão, Mo Yan afirmou que espera que o mesmo alcance sua liberdade "o mais cedo possível".

A história de Liao como intelectual incômodo começou no dia 3 de junho de 1989, quando, um dia antes dos incidentes de Tianamen, escreveu seu poema "Massacre", o qual previa o que ia acontecer.

"Nessa época eu era um poeta e, politicamente, um anarquista. Ao ver que os tanques seguiam em direção a Pequim, fiquei tão irritado que tive que expressar", rememorou hoje o chamado "poeta do massacre".

Por causa deste mesmo poema, Liao passou quatro anos preso e também passou por uma série de adversidades, as quais foram relatadas em outro livro. No entanto, os serviços de segurança do regime expropriaram seus manuscritos em duas ocasiões e, por isso, o livro teve que ser escrito três vezes.

"Tirei força para escrever o livro três vezes dos medos que tinha. A prisão é uma experiência que transforma as pessoas em animais e, somente através desta escritura, eu poderia me libertar disso", apontou o escritor.

Após deixar a prisão, Liao, que também é músico, percorreu a China e buscou o contato com pessoas muito mais marginalizadas. Desta experiência, o escritor tirou vários livros de entrevistas que, segundo ele, reflete uma "China invisível" que pouco tem a ver com a China oficial.

Essa outra China e a lembrança do massacre de Tianamen são os dois eixos das preocupações de Liao.

"O massacre está vivo na lembrança de muitos. Em 2012, um pai de família se suicidou para protestar porque não tinha conseguido fazer justiça pela morte de seu filho", revelou Liao.

No entanto, não existe uma discussão pública na China pelo tema. "Até 1989, sonhávamos com a democracia. Mas, desde o massacre, muitos não fazem outra coisa a não ser pensar em dinheiro", acrescentou o escritor.

Atualmente, o escritor chinês não espera muito da política e diz que, independente do sistema vigente, todo intelectual deve manter uma posição distante, mas continua confiando em seus leitores e na sociedade civil.

"Acredito em um sistema de valores que é universal e, por isso, meus livros seguirão vivos", declarou Liao, que ressaltou que não pensa em visitar as editoras chinesas que estão na Feira de Frankfurt. "Os que estão aqui não me interessam. São os representantes da cultura oficial do regime", finalizou.

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