
Reykjavik, Islândia - Eis algumas coisas que estão vendendo bastante na capital da Islândia com a chegada do Natal deste ano: carne de cavalo, roupas usadas e DVDs de segunda mão do filme A noviça rebelde. Ser econômico é o novo mantra na Islândia, país situado numa ilha vulcânica, pouco abaixo do Círculo Polar Ártico, que agora está economicamente congelado com a elevação do desemprego, a alta dos preços e um sistema bancário paralisado.
"Antes, você não pensava sobre o que estava comprando, mas fomos acordados", disse Holmfridur Kristinsdottir, que vende acepipes como peixe seco e pedaços de tubarão fermentado no mercado de pulgas de Reykjavik. "Agora, quando compramos cerveja, compramos cerveja islandesa. É mais barato."
Este é um Natal difícil na Islândia, um país que cultiva suas tradições natalinas. Luzes multicoloridas piscam em casas e árvores durante 19 horas por dia, na escuridão do mês de dezembro. Em breve, as crianças colocarão seus sapatos nas janelas para os 13 Yule Lads figuras do folclore islandês que são o equivalente local do Papai Noel , que deixa presentes para as crianças boas e batatas para as que não se comportaram direito.
Mas, em meio a rituais reconfortantes, os 320 mil habitantes da Islândia enfrentam uma invernal rajada em sua economia, depois de uma década de rápido crescimento que fez a ilha nórdica registrar um dos maiores níveis per capita de veículos utilitários esportivos Range Rover. Agora, a austeridade está no ar.
Em sua tradicional barraca de alimentos do lado portuário do mercado de pulgas, Siggi Gardarsson vê o aumento das vendas de carne de cavalo, um artigo que custa a metade do preço da carne de vaca. Maria Oskarsdottir está vendendo bem seus chapéus e luvas tricotados à mão. Já Olaf Olafsson diz que suas vendas de roupas militares registra o melhor mês da história. "Algumas pessoas mais velhas dizem que isso acontece durante recessões. As vendas sobem", disse Olafsson. "Nós temos roupas similares às das grandes lojas, mas pela metade do preço". Assim como o corte nos gastos, os islandeses estão retornando para prazeres simples. Uma barraca de DVDs de segunda mão do mercado informa grandes vendas do clássico A noviça rebelde.
O vendedor de livros Runar Birgisson disse que as vendas em sua barraca dobraram desde que os principais bancos comerciais do país quebraram, no início de outubro. "Na Islândia, os livros não são artigo de luxo", disse ele. "Eles são muito importantes para nossa alma. Por seis meses do ano é muito escuro e frio aqui. É muito reconfortante ler um livro."
A Islândia foi fundada por vikings mais de mil anos atrás e os islandeses são muito orgulhosos de sua tolerância a pragas, à fome e a erupções vulcânicas que mataram metade da população de uma vez só. Embora os islandeses tenham fundado o primeiro Parlamento do mundo, o Althingi, no século 10, o país ficou sob domínio dinamarquês por séculos e tornou-se independente apenas em 1944.
A Islândia era tão dependente de uma única indústria a pesca do bacalhau que por três vezes entre 1958 e 1976 o país quase foi à guerra contra a Grã-Bretanha por causa de direitos de pesca. Nos anos 1980, a inflação anual chegou a 85%.
A história deve ter predisposto os islandeses a aproveitar o melhor dos bons tempos enquanto eles durarem. A desregulamentação e o aumento da atividade dos mercados de ações produziram uma década de expansão econômica alimentada por dívidas, na qual empreendedores islandeses compraram empresas ao redor do mundo. Muitos islandeses juntaram-se à farra de empréstimo e gastos, tomando dinheiro facilmente para gastar com casas, viagens e carros.
Agora que a moeda local, a coroa islandesa, perdeu valor o preço dos produtos importados sofreram forte alta, muitas empresas estão na iminência da falência, centenas de pessoas estão perdendo suas casas toda semana e o governo está buscando ajuda externa de US$ 10 bilhões.
E os islandeses estão cortando os gastos e voltando-se para a tradição. "As pessoas estão se tornando mais realistas", disse Thorbjorn Broddason, sociólogo da Universidade da Islândia. "Nos últimos anos, o dinheiro vinha sendo o rei na Islândia. As pessoas de sucesso eram aquelas que estavam ganhando muito dinheiro. Você podia dar um passeio e perguntar-se: Por que eu não tenho um SUV preto? O que há de errado comigo? Eu acho que haverá mudanças drásticas. As pessoas vão voltar a valorizar a lealdade e a moderação."
Na medida em que as longas noites do inverno deixam o país no escuro, muitos islandeses estão se voltando para a família e para coisas mais simples. Em tempos difíceis, "é importante manter nossas raízes e manter todos juntos como família, de maneira que ninguém seja deixado sozinho", disse a funcionária pública Anna Johannsdottir.
Numa noite dessas, Johannsdottir reuniu em sua casa o marido, os três filhos e outros membros da família para fazer laufabraud, um bolo de Natal frito em gordura quente. A receita é uma lembrança de tempos difíceis, quando o trigo era escasso. "Nós somos uma nação especialmente nova, uma nova democracia", disse Johannsdottir. "Mas tradição é uma coisa que mantém a família unida."



