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Parceria

Estatal russa mira o Brasil enquanto Putin usa energia nuclear para ampliar influência global

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ditador russo, Vladimir Putin, em encontro em Moscou em maio de 2025 (Foto: MAXIM SHEMETOV/EFE/EPA)

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Enquanto busca ampliar sua influência global em meio às tensões com o Ocidente, a Rússia mira o Brasil como parceiro estratégico na área de energia nuclear. A ofensiva, liderada pela estatal Rosatom, combina interesses econômicos, tecnológicos e geopolíticos e reforça o uso da energia como ferramenta da política externa de Vladimir Putin.

Em uma reunião da Comissão Intergovernamental Russo-Brasileira de Comércio e Cooperação Econômica, Científica e Técnica, realizada na última semana de maio em Brasília, o ministro do Desenvolvimento Econômico da Rússia, Maxim Reshetnikov, afirmou que Moscou está de olho numa expansão da parceria em energia nuclear com o Brasil.

Reshetnikov falou especificamente das possibilidades de atuação da Rosatom, estatal russa do setor.

“Na área de energia nuclear, a Rosatom atende plenamente às necessidades das usinas nucleares brasileiras e fornece radioisótopos necessários para pesquisa científica e atendimento de saúde. Vemos perspectivas na área de construção de novas unidades de energia projetadas na Rússia, tanto de grande quanto de pequena capacidade”, afirmou o ministro, segundo a agência russa Interfax e o site Russia’s Pivot to Asia.

A parceria entre Brasil e Rússia na área nuclear já vem sendo aprofundada há alguns anos. No fim de 2022, a Tekhsnabexport (TENEX), subsidiária da Rosatom, firmou um contrato com a Indústrias Nucleares do Brasil (INB) para a prestação de serviços de enriquecimento de urânio destinados à produção de combustível para as usinas de Angra dos Reis até 2027. Além disso, outra subsidiária da Rosatom fornece ao Brasil produtos isotópicos utilizados na medicina nuclear.

Em relatório recente, o think tank americano Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla em inglês) afirmou que a Rússia está buscando parcerias em energia nuclear com países do chamado Sul Global que mantêm boas relações com Moscou, diante das portas que estão sendo fechadas no Ocidente.

Logo após o início da guerra na Ucrânia, em 2022, a Finlândia rompeu um contrato com a Rosatom para a construção da Usina Nuclear de Hanhikivi.

Em 2024, o Congresso dos Estados Unidos aprovou a Lei de Proibição das Importações de Urânio, com o objetivo de atingir as vendas russas nesse setor, embora siga fazendo compras na área devido a isenções que serão permitidas até o final de 2027.

O CSIS relatou que a Rússia tem pelo menos 20 unidades nucleares em construção em sete países: Bangladesh, China, Egito, Hungria, Índia, Irã e Turquia.

Em entrevista à Gazeta do Povo, o coronel da reserva do Exército brasileiro Marco Antonio de Freitas Coutinho, especialista em relações internacionais e mestre em ciência política internacional, disse que, assim como acontece com o petróleo e o gás natural, a força da Rússia no setor de energia nuclear inevitavelmente ganha dimensões geopolíticas.

A Rússia é considerada a principal potência global em tecnologias nucleares pacíficas, e o país também domina 44% da capacidade global de enriquecimento de urânio, essencial para o combustível das usinas nucleares de todo o planeta, inclusive das usinas dos EUA. Não é à toa que a Rússia é considerada uma superpotência energética em praticamente todas as matrizes: petróleo, gás, nuclear, eólica, das marés, hidrelétrica”, afirmou o especialista.

“Isso lhe confere um peso geopolítico relevante, e não é de surpreender que a Rússia sempre se utilizou dessa capacidade como ferramenta de sua política externa”, afirmou Coutinho.

Também à Gazeta do Povo, Sandro Teixeira Moita, professor do programa de pós-graduação em ciências militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), afirmou que, devido à busca por alternativas ao petróleo, com preços em alta devido às sucessivas crises no Oriente Médio e às sanções ao produto russo, o mercado de energia nuclear está em um momento de grande competição, “principalmente dos russos e dos franceses, que são os maiores produtores de reatores nucleares para fins pacíficos do mundo”.

“Um fruto da guerra na Ucrânia é justamente que a Rússia está buscando explorar ao máximo parcerias e trocas econômicas no Sul Global, justamente para lidar com o fato da perda do acesso aos mercados do G7”, disse o analista.

Especialista diz que Rússia pode estar de olho em tecnologia brasileira

Nesse cenário, qual pode ser o papel do Brasil? Marco Antonio de Freitas Coutinho afirmou que, para que o programa nuclear com fins pacíficos do Brasil evolua, o país precisa “avançar para conhecimentos negados, particularmente pelos EUA e por outros aliados da Otan”.

O analista disse que a parceria em energia nuclear com a Rússia já se tornou “um projeto do Estado brasileiro”, lembrando das tratativas na área que foram feitas por governos diferentes, como na visita do então presidente Jair Bolsonaro (PL) ao ditador russo, Vladimir Putin, em Moscou em 2022, e no encontro do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) com o primeiro-ministro da Rússia, Mikhail Mishustin, durante o Fórum Empresarial Brasil-Rússia realizado em Brasília, em fevereiro deste ano.

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Sandro Teixeira Moita apontou que outro motivo para o interesse da Rússia por expandir sua parceria nuclear com o Brasil pode ser a busca por acesso a tecnologias, já que as centrífugas brasileiras são famosas pela capacidade de enriquecer urânio de forma mais barata.

“Há interesse do mercado de supridores nucleares de entender como o Brasil desenvolveu essa tecnologia. E é uma coisa que a gente não abre. Então, essa aproximação russa também pode ser em busca de tentar entender esse know-how brasileiro de como fizeram uma centrífuga que, segundo algumas estimativas, enriquece urânio com um custo até 80% mais barato do que, por exemplo, as centrífugas americanas ou francesas”, afirmou o professor da Eceme.

“E foi isso que gerou a inspeção da Agência Internacional de Energia Atômica [AIEA] ao Brasil [de 2004 a 2006, quando foi feito um acordo]. Muita gente percebeu que a inspeção foi muito mais uma pressão americana e francesa para entender a tecnologia das centrífugas do que essencialmente olhar para o Brasil como um país pária na questão nuclear, o que nós não somos”, acrescentou.

Brasil pode sofrer sanções por parceria nuclear com a Rússia?

A dúvida é se uma eventual expansão da parceria com a Rússia, como manifestado por Moscou em maio, não pode deixar o Brasil na mira de medidas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que já visou as exportações de energia russas como forma de pressão geopolítica.

Irritado com a falta de negociações para encerrar a guerra na Ucrânia, Trump disse em julho passado que aplicaria tarifas de 100% sobre produtos importados da Rússia e taxas globais secundárias no mesmo patamar a nações que compram do país de Putin caso não fosse alcançado um acordo para interromper o conflito dentro de 50 dias.

A medida atingiria fortemente o Brasil, que aumentou suas importações de diesel e fertilizantes da Rússia nos últimos anos.

Trump posteriormente reduziu o prazo para 8 de agosto, mas as tarifas secundárias não foram impostas naquele dia porque foi marcada uma reunião entre o presidente americano e Putin no Alasca na semana seguinte. Mesmo após o encontro não ter resultado em nada, as tarifas secundárias globais não foram aplicadas.

A Índia acabou taxada por Trump em 25% por comprar petróleo russo – somando os 25% que já pagavam por “tarifas recíprocas”, as exportações indianas para os EUA ficaram sobretaxadas em 50%.

No início deste ano, Trump anunciou que a Índia concordou em parar de comprar petróleo russo e, em contrapartida, as tarifas americanas sobre produtos indianos foram reduzidas de 50% para 18%, com a eliminação dos 25% relativos às importações petrolíferas da Rússia e uma diminuição da “tarifa recíproca”.

Nesse sentido, Teixeira Moita afirmou que, “a depender de como for estruturada essa parceria” em energia nuclear com a Rússia, medidas contra o Brasil por parte dos EUA e outros países podem ser tomadas, como sanções.

“Isso pode gerar campanhas, inclusive duras, contra o Brasil, no sentido de questionar o que o Brasil quer com a questão nuclear, embora a gente tenha declaradamente já assinado acordos de que não vamos produzir armamento nuclear”, alertou o especialista.

Os analistas ouvidos pela Gazeta do Povo divergiram a respeito da possibilidade de a Rússia propor estender a parceria nuclear com o Brasil para fins militares, como armas e colaboração no projeto do submarino brasileiro de propulsão nuclear, que está sendo desenvolvido pela Marinha.

Teixeira Moita disse não ver um objetivo russo de uma cooperação nuclear na área militar, já que as delegações russas que têm vindo ao Brasil para discutir o tema têm sido formadas por tecnocratas e não por militares.

“E uma coisa que fica muito clara é que uma das poucas coisas em que as grandes potências concordam é que elas não querem proliferação nuclear. Então, eu acho que também não é do interesse dos russos que o Brasil prolifere, ou seja, adquira um armamento nuclear. O clube é pequeno, exclusivo, e quer continuar pequeno e fechado”, afirmou o professor da Eceme.

Por sua vez, Marco Antonio de Freitas Coutinho disse que os russos “sempre” buscam estender suas parcerias para fins militares.

“Mas esse tipo de acordo com a Rússia – me refiro ao nuclear – sempre passa pelo mais alto nível. Presidente para presidente. Se houver alguma contrapartida em termos de aquisições de armas, isso já foi ou está sendo negociado. Mas depende muito do interesse brasileiro”, afirmou.

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