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O mundo estará de olho na eleição presidencial brasileira, cujo primeiro turno será realizado no domingo (4), e três países em especial observam de perto essa disputa: os Estados Unidos e a China, as duas maiores economias do mundo, e a Argentina, vizinha do Brasil e que tem o segundo maior PIB da América do Sul.
O interesse desses países e de outras nações no pleito brasileiro, entretanto, não fica restrito a questões econômicas e também está relacionado a outros pontos estratégicos, como geopolítica e segurança, destacam especialistas.
Segundo a plataforma Observatório de Complexidade Econômica (OEC, na sigla em inglês), China, Estados Unidos e Argentina são os três principais destinos das exportações brasileiras, enquanto ocupam o top 4 das importações feitas pelo Brasil – com chineses e americanos nas duas primeiras posições e argentinos ficando atrás destes países e da Alemanha.
Em entrevista à Gazeta do Povo, Allan Gallo, professor de direito e economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, pesquisador do Centro Mackenzie de Liberdade Econômica (MackLiber) e do Núcleo de Estudos sobre China (NECH) da instituição, disse que a eleição do próximo fim de semana não é um plebiscito entre Pequim e Washington, devido à diferença nas relações do Brasil com as duas grandes potências mundiais.
“A relação [do Brasil com a China] resiste bem às mudanças de governo. Sobreviveu a [Jair] Bolsonaro, sobrevive a [Luiz Inácio] Lula [da Silva] e provavelmente sobreviverá aos próximos presidentes. [Existe um] ‘Reino do Meio’, onde os governos brasileiros podem divergir em quase tudo, mas soja, minério e petróleo continuam sendo vendidos para quem paga”, disse Gallo.
“Por incrível que pareça, o perfil do capital chinês no Brasil é conservador. O objetivo é preservar os ativos já instalados, garantir previsibilidade regulatória e evitar que o Brasil simplesmente importe os regimes de restrição tecnológica desenhados pelos americanos”, afirmou o analista.
Já o interesse americano no Brasil é mais político e menos sustentado pela relação econômica, afirmou Gallo.
O analista destacou que, com as tarifas impostas pelo governo Donald Trump desde 2025, os EUA responderam por apenas 9,4% das exportações brasileiras no primeiro semestre deste ano, a menor participação desde 1997.
“Ao pressionar o Brasil para conter a aproximação com a China, Washington acabou ajudando a empurrar o comércio brasileiro ainda mais na direção do Oriente”, disse Gallo.
“Eu diria que, no momento, talvez o principal interesse americano no Brasil esteja debaixo da terra, tendo em vista que possuímos cerca de 21 milhões de toneladas em reservas de terras raras. Ter a reserva, porém, não adianta de muita coisa, porque temos pouca capacidade de processamento e refino, justamente as etapas que dão maior valor estratégico a esses minerais. Por isso, viramos alvo do interesse de Estados Unidos, China e União Europeia”, afirmou o analista.
Nessa questão, a gestão Trump projeta que um governo mais próximo provavelmente facilitaria acordos com Washington. “Um governo de continuidade tenderia a cobrar mais contrapartidas como investimentos, transferência de tecnologia e processamento dos minerais no próprio Brasil”, projetou Gallo.
China, EUA e Argentina se manifestaram sobre eleição brasileira
Provas do interesse dos três países foram declarações recentes dos seus governos. Em julho, o ditador chinês, Xi Jinping, deu vazão às acusações do PT de tentativa de Trump de interferir na eleição brasileira, ao dizer em telefonema com Lula que Pequim “apoia o Brasil na defesa de sua soberania e independência, na oposição a interferências externas e na contribuição para a manutenção da paz e da estabilidade regionais e mundiais”, segundo a agência de notícias estatal Xinhua.
Em entrevista na última quarta-feira (23) à CNN Brasil, a porta-voz do Departamento de Estado americano, Amanda Roberson, negou que os Estados Unidos estejam tentando interferir na eleição brasileira.
“Estamos vendo as notícias, claro que estamos acompanhando as eleições, claro que queremos saber o resultado, mas acreditamos que, como o Brasil é um país soberano e independente, queremos ver eleições livres e transparentes e vamos ver com os brasileiros o resultado”, afirmou.
Na semana passada, durante a Assembleia Geral da ONU, em Nova York, o presidente argentino, Javier Milei, que discursou em julho na convenção do PL em São Paulo que confirmou a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, fez novo aceno ao aliado.
“Tenho esperança de que o Brasil consiga quebrar esse curso socialista decadente que tomou nos últimos tempos, possa abraçar as ideias da liberdade e fazer parte do grupo de países livres”, disse o presidente argentino a jornalistas.
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Allan Gallo afirmou à Gazeta do Povo que a relação da Argentina com o Brasil é de “dependência econômica e atrito político”.
“Milei é próximo de Trump e da direita brasileira, enquanto a relação com Lula é péssima. Ainda assim, a integração econômica cresceu”, disse o analista.
“Uma vitória da oposição aproximaria os governos e reforçaria a pressão por um Mercosul mais flexível. Uma vitória governista manteria o atrito, mas a aritmética pesa mais que a afinidade porque Brasil e Argentina concentram cerca de 90% do PIB do bloco. O Mercosul continua dependendo dos dois, mesmo quando seus presidentes preferem fingir que não”, afirmou Gallo.
Nesse sentido, a União Europeia também acompanha a eleição brasileira com interesse, já que este ano implementou um acordo com o Mercosul que ainda é juridicamente vulnerável.
“Mais de 80% das exportações brasileiras à Europa passaram a ter tarifa zero, mas o texto segue sob contestação no Tribunal de Justiça da UE. Nesse cenário, qualquer recuo ambiental em Brasília alimenta diretamente os críticos do acordo. O próximo governo poderá discutir as condições europeias, mas ignorar vai ser difícil”, disse Gallo.
Analista cita Escudo das Américas, Cuba e Malvinas como fatores de atenção
Em entrevista à Gazeta do Povo, João Alfredo Lopes Nyegray, professor dos cursos de negócios internacionais e relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), afirmou que a eleição brasileira também interessa a Trump do ponto de vista dos seus planos de segurança nas Américas.
“O Brasil é importante tanto para a América Latina quanto para qualquer iniciativa que envolva todas as Américas, pelo seu peso regional e pela atuação transnacional de facções como o PCC [Primeiro Comando da Capital] e o Comando Vermelho [CV]. O governo Lula não aderiu ao Escudo das Américas e rejeita essa abordagem de Washington, que considera militarizada”, disse Nyegray.
“Em contraste, a vitória de um candidato disposto a aderir a essa coalizão poderia ampliar a cooperação em termos de inteligência, sanções e operações de segurança. Digo isso porque vimos a entrada de Colômbia e Peru na iniciativa após mudanças de governo nesses países”, lembrou o analista, em referência aos novos presidentes Abelardo de la Espriella e Keiko Fujimori, respectivamente.
Paralelamente à Assembleia Geral da ONU, na semana passada, 14 países da América Latina e do Caribe, integrantes do Escudo das Américas, seguiram os Estados Unidos e anunciaram a designação de 24 organizações criminosas, incluindo as brasileiras PCC e CV, como grupos terroristas e a aplicação de sanções contra elas: Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago.
Alguns destes países, como Argentina e Paraguai, já consideravam PCC e CV grupos terroristas, medida que o governo Lula refuta.
O presidente brasileiro ficou isolado no seu discurso na ONU, ao recusar a abordagem militar para enfrentar o crime organizado nas Américas, enquanto outros presidentes do continente defenderam esse enfoque nos seus pronunciamentos.
Nyegray disse que há também um interesse de Trump que vai além do narcotráfico: afastar influências externas que considera hostis ao hemisfério, base da Doutrina Donroe, uma atualização da Doutrina Monroe do século XIX.
“Por isso, é razoável inferir que Washington prefira um governo brasileiro mais receptivo à sua estratégia regional e menos resistente a pressões sobre relações com a China”, explicou.
Dessa forma, a questão de Cuba, alvo de pressões econômicas e sanções intensificadas de Trump desde o início do ano, é outro fator de interesse na eleição brasileira para o presidente americano. Nyegray afirmou que o regime castrista representa um teste decisivo para a Doutrina Donroe, por ser um adversário declarado próximo ao território americano desde a Revolução Cubana (1959) e a Crise dos Mísseis (1962) e representar um ponto de apoio de competidores externos (China e Rússia) no Hemisfério Ocidental.
“Um eventual novo ocupante ou a manutenção do atual no Palácio do Planalto pode ter peso no que tange à questão de Cuba”, explicou.
“Historicamente, o governo Lula e o PT de forma geral sempre demonstraram leniência em relação a Cuba. As críticas do partido sobre direitos humanos sempre se destinaram aos seus adversários. O presidente Lula chegou a falar absurdos, que a Venezuela padecia de ‘excesso de democracia’, e sobre Cuba também. No governo Dilma [Rousseff], houve a implementação do programa Mais Médicos, em que parcela expressiva da remuneração dos profissionais cubanos sem comprovação de qualificação retornava ao regime”, lembrou Nyegray.
Na questão de outras disputas na região, o analista afirmou que a Milei também interessa um presidente brasileiro mais incisivo na reivindicação argentina pelas Ilhas Malvinas, controladas pelo Reino Unido.
“Um presidente brasileiro alinhado a Milei poderia dar maior visibilidade a essa causa na OEA [Organização dos Estados Americanos] e em outros fóruns internacionais”, disse Nyegray.
“Contudo, não vejo algo muito além disso: embora Milei seja próximo de Donald Trump, o Reino Unido é um aliado central dos EUA, e a Argentina já conta com o apoio histórico do Brasil sobre as Malvinas. A mudança principal poderia ser alguém mais disposto a falar mais sobre o assunto e coordenar pressões com a Argentina pela posse das ilhas e sobre a exploração de petróleo na região”, projetou.






