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Novo alvo

EUA e China levam corrida por minerais críticos e terras raras para o fundo dos oceanos

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O presidente dos EUA, Donald Trump, e o ditador da China, Xi Jinping: EUA e China ampliam disputa por minerais críticos com projetos de exploração e processamento no fundo dos oceanos. (Foto: JIM LO SCALZO/EFE/EPA)

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A disputa entre Estados Unidos e China por minerais críticos chegou ao fundo dos oceanos. A milhares de metros de profundidade, principalmente no Oceano Pacífico, estão depósitos de níquel, cobalto, cobre, manganês e até terras raras, matérias-primas importantes para a indústria de defesa, baterias e equipamentos tecnológicos.

A mineração comercial em grande escala dessas regiões ainda não começou, mas Washington e Pequim já procuram identificar as áreas mais promissoras e desenvolver equipamentos capazes de retirar minerais em condições extremas.

Nos EUA, esse movimento ganhou impulso em abril do ano passado, quando o presidente Donald Trump assinou um decreto para acelerar a exploração mineral submarina e reduzir a dependência americana de fornecedores estrangeiros. O decreto colocou a disputa com a China entre as justificativas para a nova política.

Desde o decreto de Trump, Washington começou a transformar a estratégia em projetos concretos. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) passou a analisar novos pedidos de exploração e de recuperação comercial de minerais em águas profundas, enquanto outras áreas do governo começaram a avançar no mapeamento e na preparação de possíveis concessões de áreas para exploração no Pacífico. Ao mesmo tempo, os EUA ampliaram a cooperação no setor mineral com países como Japão e as Ilhas Cook.

Em 14 de setembro, o secretário do Interior dos EUA, Doug Burgum, disse durante uma reunião de ministros de Energia do G20, em Houston, Texas, que as primeiras licenças para mineração em águas profundas poderão ser emitidas pelo governo americano “dentro de meses”. Segundo ele, a medida faz parte da estratégia de ampliar e diversificar o acesso dos EUA e de seus aliados a minerais críticos.

A movimentação ocorre enquanto a China já ocupa uma posição dominante em diferentes etapas das cadeias globais de minerais críticos e mantém cinco contratos de exploração de recursos submarinos vinculados à Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA, na sigla em inglês), órgão internacional criado pela Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. Pequim também investe há anos em pesquisa de águas profundas e na capacidade de processar os minerais depois que são retirados da terra ou, futuramente, do oceano.

Bilhões de toneladas de minerais estão espalhadas pelo fundo do Pacífico

O interesse das potências na exploração dos minerais submarinos é explicado pelo tamanho dos recursos que podem estar escondidos em regiões oceânicas ainda pouco exploradas.

Uma das mais importantes é a zona Clarion-Clipperton, uma enorme área do Pacífico entre o Havaí e o México. O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) estima que a região contenha cerca de 21,1 bilhões de toneladas de nódulos polimetálicos espalhados pelo fundo do oceano. Esses nódulos concentram principalmente manganês, níquel, cobre e cobalto, metais usados em setores como baterias, energia e indústria. No caso de alguns deles, a quantidade estimada na região supera todas as reservas terrestres conhecidas atualmente no mundo.

Os nódulos são formações rochosas que crescem muito lentamente no fundo do oceano. Mas eles não são a única fonte de minerais encontrada nesta região. Há também crostas ricas em metais que se formam sobre montanhas submarinas, depósitos minerais próximos a fontes hidrotermais e áreas de lama no fundo do mar com altas concentrações de terras raras.

Trump colocou a China no centro da estratégia americana

Os Estados Unidos continuam dependentes do exterior para ter acesso a vários minerais e terras raras considerados essenciais para sua economia e segurança. Dados divulgados pelo USGS em fevereiro deste ano mostram que a China permanece entre os principais fornecedores de 14 dos 33 minerais críticos nos quais os EUA apresentam maior dependência de importações.

É essa vulnerabilidade que ajuda a explicar por que o governo Trump passou a procurar novas fontes também no fundo do oceano. A estratégia americana avança hoje em duas frentes: nas águas próximas a territórios dos próprios EUA no Pacífico e em áreas internacionais onde Washington utiliza sua própria legislação para autorizar a exploração.

Uma dessas frentes está na Samoa Americana, território dos EUA no Pacífico Sul. A NOAA iniciou neste ano o mapeamento de mais de 30 mil milhas náuticas quadradas de águas próximas ao arquipélago para estudar possíveis depósitos minerais.

Em setembro, uma missão americana encontrou nódulos a cerca de 5,5 quilômetros de profundidade em uma das áreas pesquisadas na região. Em alguns trechos, as formações cobriam grande parte do fundo do oceano.

A descoberta tem ajudado o governo americano a estimar a quantidade de minerais disponível na região e avaliar se uma futura exploração comercial poderia ser economicamente viável. O governo também já começou a preparar possíveis concessões para exploração tanto próximas da Samoa Americana quanto das Ilhas Marianas do Norte, outro território insular dos EUA.

A outra frente está justamente na zona Clarion-Clipperton. A TMC USA, subsidiária americana da The Metals Company, pediu ao governo dos EUA em abril do ano passado, dias após Trump lançar seu decreto, autorização para explorar e retirar comercialmente nódulos de áreas da região. A NOAA ainda está analisando o pedido, que pode resultar na primeira autorização americana para exploração comercial de minerais no fundo do mar.

China chega à disputa com domínio sobre o processamento

Enquanto os EUA buscam no fundo do oceano novas fontes de minerais críticos para reduzir sua dependência externa, a China entra nessa disputa com uma vantagem já consolidada em terra. O país domina parte significativa da produção mundial de vários desses minerais e, principalmente, do processamento necessário para transformá-los em insumos usados pela indústria.

Segundo levantamento do USGS sobre a indústria mineral chinesa, a China respondeu em 2024 por 71% da mineração mundial de terras raras e 87% do processamento desses elementos.

Pequim também se movimenta há anos para garantir acesso aos minerais do fundo do oceano. Os cinco contratos de exploração vinculados à ISA que Pequim possui dão acesso a áreas destinadas à pesquisa dos três principais tipos de depósitos minerais abrangidos pelo sistema internacional: nódulos polimetálicos, sulfetos polimetálicos e crostas ricas em cobalto.

Três desses contratos estão nas mãos da estatal China Ocean Mineral Resources Research and Development Association. Os outros pertencem às estatais China Minmetals e Beijing Pioneer Hi-Tech. Segundo levantamento do Serviço de Pesquisa do Congresso americano, nenhum outro país participante da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar possui tantos contratos de exploração vinculados à ISA quanto Pequim. Os EUA não ratificaram a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar e seguem uma legislação americana própria para autorizar suas empresas neste setor.

Essa presença no fundo do oceano se soma ao domínio chinês sobre outra etapa fundamental da cadeia de minerais críticos: o processamento. Retirar os minerais do mar não seria suficiente para que eles pudessem ser usados pela indústria. O material ainda precisa passar por diferentes etapas de separação e processamento, área na qual a China construiu uma ampla capacidade nas últimas décadas.

Uma análise do think tank RAND Corporation sobre a competição por esses recursos submarinos destacou justamente essa vantagem chinesa. Pesquisadores da instituição observaram que uma parcela importante do valor dos minerais é adicionada durante o processamento e que a posição chinesa nessa etapa poderia continuar dando vantagem a Pequim no setor.

Para os EUA, portanto, encontrar e retirar minerais do fundo do Pacífico resolve apenas parte do problema. Para reduzir de fato a dependência da China, Washington também precisaria, segundo analistas, desenvolver capacidade para processar o material depois que ele chegar à superfície.

“De nada adianta toda a mineração do mundo se não tivermos capacidade de processamento”, afirmou Tom LaTourrette, cientista físico sênior da RAND Corporation, em entrevista publicada em setembro pela Bloomberg. Segundo ele, o processamento é uma parte fundamental de qualquer esforço para abrir novas fontes de minerais, especialmente no caso da mineração submarina.

No decreto assinado em abril do ano passado, o governo Trump determinou que os departamentos de Defesa e Energia dos EUA revisassem as regras para estimular o processamento de minerais submarinos dentro do país e estudassem o uso de subsídios, empréstimos, compras governamentais e da Lei de Produção de Defesa para financiar novos projetos neste setor.

Japão já retira terras raras a 6 mil metros de profundidade no oceano

A disputa pelo “ouro” do fundo do mar não está restrita aos EUA e à China. O Japão confirmou em fevereiro que conseguiu retirar do fundo do Pacífico lama rica em terras raras a aproximadamente 6 mil metros de profundidade, perto da ilha de Minamitorishima, dentro da zona econômica exclusiva japonesa.

A região é estudada há anos. Uma pesquisa publicada em 2018 na revista Scientific Reports estimou que uma área de aproximadamente 2,5 mil quilômetros quadrados da região poderia conter mais de 16 milhões de toneladas de óxidos de terras raras.

Em março, Washington e Tóquio assinaram um memorando para ampliar a cooperação no desenvolvimento desses minerais submarinos. O acordo prevê troca de tecnologia, aproximação entre empresas e pesquisadores e colaboração relacionada ao projeto de Minamitorishima.

A Índia também está na disputa. O país mantém atualmente três contratos de exploração com a ISA no Oceano Índico e já colocou blocos com nódulos e crostas polimetálicas próximos da ilha Great Nicobar em seu programa de concessões minerais offshore.

Pequenos países do Pacífico entram no centro da disputa entre EUA e China por minerais

A busca por novas áreas aumentou a importância estratégica de países insulares que controlam enormes zonas econômicas exclusivas no Pacífico. As Ilhas Cook se tornaram um desses exemplos.

Em fevereiro do ano passado, o governo do arquipélago assinou com a China uma parceria para cooperação em minerais submarinos, incluindo pesquisa, capacitação e estudos sobre desenvolvimento dos recursos. Meses depois, em agosto, as Ilhas Cook anunciaram também uma cooperação com os Estados Unidos para pesquisa científica, mapeamento e eventual desenvolvimento dos minerais existentes em suas águas.

Uma análise publicada em setembro por Kathryn Paik, pesquisadora sênior especializada no Indo-Pacífico, e John Augé, pesquisador de questões estratégicas do Pacífico, para o think tank Center for Strategic and International Studies (CSIS), descreveu a região do Pacífico como o ponto central da disputa pela mineração submarina. Para os autores, a aproximação com países insulares da região passou a envolver exploração de oportunidades econômicas, influência diplomática, segurança das cadeias de abastecimento e competição estratégica entre as potências.

Muitos dos depósitos considerados promissores para a exploração submarina estão próximos ou dentro de zonas marítimas controladas por esses pequenos países insulares, que possuem populações reduzidas, mas enormes territórios oceânicos. Isso colocou países como as Ilhas Cook em uma posição estratégica na corrida pelos minerais submarinos e ajuda a explicar por que Washington passou a buscar acordos com esses governos como parte da estratégia lançada por Trump para reduzir a dependência dos EUA da China.

EUA tentam avançar enquanto regras internacionais seguem travadas

A ISA ainda não autorizou a extração comercial nas áreas internacionais sob sua administração. Os contratos existentes permitem neste momento apenas pesquisa e exploração, enquanto as regras para uma futura mineração, reunidas no chamado Código de Mineração da ISA, continuam em negociação.

Essa demora pode abrir espaço para os EUA avançarem mais rapidamente no setor. O país não ratificou a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar e utiliza uma legislação de 1980 para autorizar empresas americanas a explorar minerais em águas profundas. Foi justamente esse sistema que Trump determinou acelerar com o decreto assinado em abril de 2025.

Enquanto os países vinculados à ISA, como a China (que já possui contratos para exploração), ainda aguardam a conclusão da formulação das regras internacionais para iniciar a mineração comercial nessas áreas, Washington tenta usar sua própria legislação da década de 80 para avançar na área sem esperar tais regras. Em análise publicada pelo CSIS, Paik e Augé apontaram que essa estratégia dos EUA pode acelerar o desenvolvimento de uma indústria que até agora permanece concentrada apenas na fase de exploração.

Contudo, a pesquisadora do think tank Atlantic Council Elisabeth Braw, especializada em geopolítica e segurança internacional, apontou que empresas autorizadas pelos EUA a operar em águas internacionais podem enfrentar incertezas jurídicas e dificuldades para conseguir parceiros e seguros caso atuem fora do sistema da ISA.

Também existem dúvidas sobre custo, tecnologia e impacto ambiental da medida. Operar equipamentos a 4 mil, 5 mil ou 6 mil metros de profundidade no mar exige sistemas e equipamentos capazes de suportar enorme pressão, transportar grandes volumes de material até a superfície e funcionar continuamente em regiões remotas.

Stephen Hall, oceanógrafo e ex-diretor-executivo da Society for Underwater Technology, organização internacional que reúne especialistas e empresas das áreas de tecnologia submarina, afirmou à Braw que grandes seguradoras especializadas nesse tipo de equipamento dificilmente aceitariam assumir o risco da exploração comercial submarina neste momento.

“Quando se trata de seguradoras, é improvável que qualquer um dos grandes nomes conhecidos por assegurar equipamentos para águas profundas esteja disposto a cobri-los”, disse. “A mineração é fácil. A parte difícil é levar os nódulos que você extraiu do fundo do mar até a superfície”, afirmou Hall.

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