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Os Estados Unidos preparam uma nova fase da ofensiva contra organizações criminosas na América Latina, com a possibilidade de ampliar para operações terrestres uma campanha que até agora se concentrou em ataques contra embarcações no Caribe e no Pacífico. A estratégia também pode atingir o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), classificados por Washington como organizações terroristas em junho deste ano.
O secretário de Guerra dos Estados Unidos, Pete Hegseth, anunciou na semana passada que os EUA já estão trabalhando com países da região para expandir a estratégia de combate aos grupos criminosos. A iniciativa dará continuidade às ações já em curso contra o crime na região, que incluem os ataques contra embarcações do narcotráfico no Caribe e no Pacífico.
Hegseth também afirmou que a Colômbia, agora sob o comando do presidente conservador Abelardo de la Espriella, já autorizou operações militares conjuntas com os Estados Unidos. O secretário de Guerra também admitiu a possibilidade de os EUA realizarem ações mais amplas contra o Exército de Libertação Nacional (ELN) e outras dissidências das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) que ainda atuam em território colombiano.
Ações terrestres não seriam algo inédito na atual ofensiva americana contra o crime na região. Em março deste ano, militares dos Estados Unidos afirmaram ter realizado operações letais por terra no Equador, com apoio das forças locais. Uma das operações incluiu um bombardeio contra um acampamento de narcotraficantes no nordeste do país, próximo à fronteira com a Colômbia. De acordo com o governo equatoriano, o acampamento era utilizado pelos Comandos de la Frontera, grupo criminoso colombiano formado por dissidentes das Farc, e tinha capacidade para abrigar cerca de 50 pessoas.
A operação realizada no Equador pode servir como um primeiro exemplo do tipo de ação que Washington pretende realizar nessa nova fase. Hegseth disse que pretende obter nessas operações terrestres o mesmo efeito das operações realizadas contra embarcações do narcotráfico no Caribe e no Pacífico, nas quais os americanos afirmam ter destruído mais de 60 embarcações e matado cerca de 220 indivíduos classificados pela Casa Branca como narcoterroristas.
Hegseth indicou também que, nesta nova fase, todas as organizações criminosas latino-americanas que foram classificadas pelos EUA como terroristas deverão se tornar “alvos legítimos” das forças americanas. Ele comparou esses grupos ao Estado Islâmico e à Al-Qaeda e afirmou que capacidades desenvolvidas pelos EUA durante décadas de combate ao terrorismo no Oriente Médio poderão ser empregadas contra redes criminosas no Hemisfério Ocidental.
Para Eduardo Galvão, especialista em risco político e professor do Ibmec Brasília, as ações anunciadas por Washington servem tanto para combater o narcotráfico quanto para ampliar a presença estratégica dos Estados Unidos na América Latina.
“Há uma guerra mais agressiva contra o crime organizado e há uma reconstrução da presença estratégica americana nas Américas”, afirmou Galvão.
O especialista considera que a mudança anunciada nesta semana está entre as maiores transformações da política antidrogas americana para a América Latina desde o Plano Colômbia, programa de cooperação lançado em 2000 que envolveu financiamento, inteligência, treinamento e equipamentos dos Estados Unidos para apoiar Bogotá no combate ao narcotráfico e a grupos armados.
Segundo Galvão, Washington passou agora de um modelo baseado principalmente na atuação da Agência Antidrogas dos Estados Unidos (DEA), inteligência, extradições e assistência militar para outro em que a fronteira entre apoio e participação direta começa a diminuir.
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EUA vão contar com mais países da América Latina em sua nova ofensiva
A chegada de Abelardo de la Espriella à Presidência da Colômbia acrescentou à estratégia americana um dos países mais importantes para o combate ao narcotráfico nas Américas.
Ao assumir o cargo, De la Espriella colocou a Colômbia na Coalizão Americana Contra os Cartéis, que faz parte do chamado Escudo das Américas, iniciativa criada por Trump para coordenar a atuação dos países das Américas contra organizações criminosas transnacionais. A Colômbia não participava da iniciativa durante o governo do esquerdista Gustavo Petro.
O país é considerado por diversas organizações como o maior produtor mundial de cocaína. Segundo relatório da ONU, o país possuía cerca de 261 mil hectares de plantações de coca em 2024. As Nações Unidas também apontam que o país é uma das principais rotas para o tráfico internacional de drogas.
Além da Colômbia, países como Argentina, Chile, Bolívia, Peru, Equador, El Salvador, Honduras, Panamá e Paraguai também integram a coalizão de Trump contra o crime. O governo Lula não colocou o Brasil na iniciativa.
Segundo o Departamento de Guerra americano, os países integrantes da coalizão já começaram a dividir responsabilidades e discutir quais organizações criminosas serão priorizadas nesta nova fase e quais funções cada parceiro poderá exercer.
Para Galvão, os países participantes da iniciativa devem trabalhar na oferta de inteligência, treinamento e apoio logístico, bem como na oferta de acesso territorial, capacidade naval ou aérea e até autorizar operações militares conjuntas.
Hegseth disse que o Equador e a Colômbia já toparam realizar operações conjuntas. O Paraguai, por sua vez, aprofundou sua relação de defesa com Washington no ano passado por meio do Acordo sobre o Estatuto das Forças (Sofa), que estabelece condições para a presença temporária de militares e civis americanos no país durante atividades de cooperação. A Argentina, sob Javier Milei, também se alinhou à política de combate às organizações criminosas, classificando diversos grupos como terroristas, seguindo o enquadramento adotado pelos Estados Unidos.
Segundo Galvão, a existência da coalizão permite que Washington apresente eventuais ofensivas por terra como uma ação coordenada por governos do continente contra uma ameaça comum, e não como uma intervenção unilateral dos Estados Unidos na América Latina.
Caso os países participantes consigam apresentar resultados, acrescenta, a iniciativa também poderá aumentar a pressão sobre governos que decidiram permanecer fora da coalizão.
Nova estratégia pode ter impactos no Brasil e atingir PCC e CV
Segundo os analistas consultados pela reportagem, embora o Brasil não participe da coalizão contra o crime liderada pelos Estados Unidos, o enquadramento do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas coloca as duas facções diretamente no alcance da nova estratégia americana e, por consequência, pode gerar impactos e aumentar a pressão sobre o próprio Brasil.
As duas facções mantêm fornecedores, rotas, operadores e alianças criminosas em países vizinhos que ampliaram sua cooperação em segurança com Washington. Isso abre espaço para que os Estados Unidos atuem contra estruturas ligadas ao PCC e ao Comando Vermelho sem precisar realizar operações dentro do Brasil.
Segundo Galvão, uma estrutura logística no Paraguai, um operador instalado na Bolívia ou outros integrantes das redes das facções localizados em países parceiros dos EUA podem ficar mais expostos a prisões, sanções, ações de inteligência e operações conjuntas.
“Para PCC e CV, fronteiras nacionais sempre foram oportunidades. Com a nova estratégia americana, elas podem começar a se transformar também em vulnerabilidades”, afirmou.
A possibilidade de uma eventual operação militar americana dentro do Brasil contra esses grupos não é totalmente descartada pelos analistas, embora seja considerada pouco provável. “Eu classificaria uma operação militar unilateral dos Estados Unidos dentro do Brasil como um evento de baixa probabilidade”, afirmou Galvão. Segundo ele, sem a concordância de Brasília, uma ação desse tipo teria elevado custo diplomático e jurídico.
Por sua vez, Fernando Villena Del Carpio, doutor em Direito e professor do curso de Relações Internacionais da Universidade Positivo (UP), lembra que eventuais operações realizadas pelos EUA em países vizinhos, sobretudo em áreas de fronteiras extensas e de difícil controle, podem se aproximar ou até ultrapassar o território brasileiro. Para o professor, uma ação desse tipo poderia gerar uma crise diplomática e de segurança entre os governos Trump e Lula.
Ambos os analistas apontam que a nova estratégia dos EUA também pode aumentar a pressão política sobre o Brasil. Galvão avalia que, à medida que países vizinhos aprofundem sua cooperação com Washington, Brasília pode ficar mais isolada nessa área de segurança e ser mais cobrada por resultados no combate ao PCC e ao Comando Vermelho.
Del Carpio faz avaliação semelhante e afirma que a pressão por mais medidas contra o crime pode vir agora não apenas dos Estados Unidos, mas também de outros governos da região.
“A pergunta seria: se todo mundo está participando dessa operação, por que o Brasil não faz junto?”, afirmou.
Classificação de organizações criminosas como terroristas abriu caminho para nova fase
A nova fase da estratégia contra o crime nas Américas foi precedida por uma mudança na forma como Washington passou a tratar cartéis e organizações criminosas. Logo no início do segundo mandato, em janeiro de 2025, Trump assinou uma ordem executiva que abriu caminho para classificar diversos grupos criminosos como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs) e Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGTs).
Nos meses seguintes, organizações como o Cartel de Sinaloa, o Cartel de Jalisco Nova Geração (CJNG), o Cartel do Golfo, a MS-13, o Tren de Aragua e o chamado Cartel de Los Soles foram classificados como terroristas.
Segundo Fernando Villena Del Carpio, a classificação dos grupos criminosos como terroristas ampliou o alcance da estratégia americana ao permitir que Washington trate como ameaça organizações que atuam em outros países, mesmo quando os governos locais não adotam o mesmo enquadramento.
Na prática, o enquadramento abriu caminho para uma participação cada vez maior das Forças Armadas americanas na estratégia de combate ao crime transnacional, levando aos ataques contra embarcações, à captura do ditador Nicolás Maduro na Venezuela, a operações conjuntas com países aliados e, agora, à preparação de uma campanha mais ampla em terra.







