
Ouça este conteúdo
As Forças Armadas da Venezuela devem ser um dos principais fatores de definição do rumo da transição política do país após a captura do ditador Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, por forças dos Estados Unidos.
Horas após a operação americana realizada no sábado (3), o ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, confirmou que as Forças Armadas reconheceram Delcy Rodríguez, então vice de Maduro, como nova chefe do Executivo interino. A declaração consolidou o alinhamento institucional do Exército venezuelano ao núcleo do chavismo remanescente, mesmo após a retirada de Maduro do poder. Sob essa bênção, Delcy foi empossada oficialmente nesta segunda-feira (5) como ditadora interina da Venezuela.
A oposição venezuelana até tentou neste final de semana pressionar os militares para que apoiassem uma transição democrática. O líder opositor Edmundo González Urrutia publicou um vídeo nas redes sociais onde reivindicou publicamente sua legitimidade como presidente eleito e pediu que os militares venezuelanas reconhecessem o mandato concedido a ele nas eleições de 28 de julho de 2024, fraudadas por Maduro.
Na mensagem, González Urrutia afirmou que a lealdade das Forças Armadas venezuelanas deve ser “com a Constituição, com o povo e com a República”, não com o chavismo. Apesar do apelo, os militares não deram sinal público de adesão à reivindicação da oposição.
À Gazeta do Povo, Eduardo Galvão, professor de Políticas Públicas do Ibmec, afirmou que “as Forças Armadas sempre foram o verdadeiro eixo de sustentação do regime” chavista e que, com a queda do ditador Maduro, a questão central passou a ser a redefinição dessa lealdade. O professor lembrou que a captura de Maduro pelos EUA "não significa, automaticamente, o colapso do chavismo”.
"Em mais de vinte anos analisando regimes sob estresse, aprendi que remover o líder é apenas o primeiro ato, não o desfecho. Regimes autoritários longevos tendem a sobreviver à queda de uma figura central porque o poder real costuma estar distribuído em redes, e não concentrado em um único nome", disse.
De acordo com Galvão, o comportamento das Forças Armadas em cenários de ruptura, como o da Venezuela, tende a seguir um cálculo pragmático.
“Militares negociam quando percebem que o custo de sustentar o status quo supera o custo de uma transição controlada”, afirmou. Esse cálculo, segundo o professor, envolve “garantias, preservação de posições, proteção patrimonial e segurança pessoal”.
Para Galvão, se houver sinais claros, neste caso por parte da oposição, de redução de riscos, os militares venezuelanos podem até considerar apoiar uma transição democrática pactuada. Caso contrário, alertou, "se o ambiente" apoiado pelos opositores "for de punição indiscriminada e incerteza, a tendência é o fechamento e a resistência”, ou seja, a manutenção do apoio militar ao atual arranjo de poder chavista.
Em análise à emissora DW, o cientista político Víctor Mijares afirmou que a tendência é que as Forças Armadas venezuelanas se “alinhem ao polo de poder que apresente maior capacidade de se manter”, ou seja, ao grupo que demonstre maior controle institucional, capacidade de governar e chances reais de se sustentar no poder no novo cenário político. Neste momento, o grupo político que demonstra mais força internamente é o próprio chavismo.
À AFP, o ex-oficial venezuelano Williams Cancino disse que a atual cúpula militar da Venezuela "é totalmente leal ao regime” chavista, indicação de que, apesar da queda de Maduro, o chavismo pode estar longe de perder o controle efetivo da Venezuela.
VEJA TAMBÉM:







