Um relatório confidencial de monitores da ONU acusa soldados quenianos das forças de paz da União Africana na Somália de facilitar exportações ilegais de carvão vegetal a partir da cidade portuária de Kismayu, um negócio que gera milhões de dólares por ano para militantes islâmicos que buscam derrubar o governo.
A fracassada proibição da venda do carvão somali destacada no relatório mostra as dificuldades de cortar a fonte de financiamento dos militantes do grupo Al Shabaab e de assegurar o cumprimento das sanções da Organização das Nações Unidas.
O Exército queniano negou as alegações do último relatório anual da ONU sobre ao comitê de sanções do Conselho de Segurança sobre Somália e Eritreia. O relatório foi feito antes dos conflitos em Kismayu.
Conflito
Naquela batalha, militantes rivais lutaram pelo controle da cidade portuária estratégica, depois que Ahmed Madobe, líder da milícia Ras Kamboni e um ex-senhor da guerra islâmico, se tornou líder da região Jubaland, que inclui Kismayu, em maio.
A situação continua tensa, embora o governo de Mogadíscio, que inicialmente se opôs a Madobe, tem deixado que ele permaneça como líder interino.
Kismayu é um prêmio lucrativo para líderes de clãs, com receitas generosas das exportações de carvão vegetal, taxas portuárias e impostos sobre armas e outras importações ilegais.
Proibição
O Conselho de Segurança proibiu a exportação de carvão da Somália em fevereiro do ano passado para cortar uma das principais fontes de renda da Al Shabaab, que vem lutando pelo controle da Somália há anos e que aplica uma versão rigorosa da lei islâmica Sharia nas áreas que ocupa.
Forças quenianas da Missão da União Africana para a Somália (Amisom), que tem um mandato do Conselho de Segurança da ONU e recebe financiamento da União Europeia e dos Estados Unidos, ajudaram o governo somali a retomar o controle de Kismayu quando os militantes ligados à Al Qaeda fugiram em setembro do ano passado.
Mais tarde, a União Africana pediu imediatamente para que o Conselho de Segurança suspendesse a proibição para a exportação de carvão vegetal pelo menos temporariamente.
O Quênia apoiou a ideia, argumentando que a irritação dos comerciantes de carvão de Kismayu poderia ameaçar a segurança de suas tropas. O Grupo de Monitoramento, que informa sobre o cumprimento de sanções na Somália e Eritreia, contestou a análise do governo queniano.
"O argumento de que um grupo de comerciantes de carvão constituía uma ameaça maior para a Força de Defesa do Quênia do que o grupo Al Shabaab, que acabara de ser retirada de Kismayu, foi difícil de engolir", disse o grupo em um anexo do relatório anual, que foi visto pela Reuters.
"Ao invés, era muito mais provável que a exportação de carvão vegetal poderia exacerbar as tensões de clãs e os interesses nos recursos, levando a uma condição maior de conflito", afirmou o grupo no relatório, que contém quase 500 páginas com todos seus anexos.
"E isso é precisamente o que aconteceu na sequência".



