
A Grécia, que fez uma das maiores contribuições ao mundo moderno ao inventar a demokratia no ano 507 antes de Cristo, mergulhou nos extremos de direita e de esquerda. O país está sem governo, paralisado por uma crise econômica profunda, que provocou também uma crise política e moral. E este é apenas mais um capítulo de uma tragédia grega que começou com um país que gastou mais do que tinha e foi castigado pelos mercados por ter mentido sobre a real situação de suas contas.
Para tentar tirar o país do buraco e evitar que todos os 17 países da zona do euro acabassem tragados pelos gregos , a União Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional impuseram reformas e condições duras, em troca de redução de dívida e dinheiro. Mas no último pacote de fevereiro, que exigia a demissão de 15 mil funcionários públicos, os gregos nas ruas viraram a mesa. O governo de coalizão caiu. Uma eleição parlamentar foi convocada para o último dia 6. Resultado: os dois maiores partidos políticos gregos o conservador Nova Democracia e o socialista Pasok foram massacrados. O primeiro obteve apenas 18,8% de votos, e o segundo, meros 13,18%. Triunfaram os extremos. Um partido radical de esquerda que rejeita todos os acordos com a União Europeia e credores o Syriza se tornou a segunda força política do país. Já a extrema-direita neonazista do Aurora Dourada conquistou quase 7% dos votos.
À deriva
Com os mercados e a Europa agora ameaçando deixar o país afundar sozinho, caso não cumpra as exigências, a Grécia virou um navio à deriva: em uma semana, três tentativas de formar um governo de coalizão fracassaram e uma nova eleição poderá ser convocada dentro de um mês. E enquanto a classe política se desentende sobre o que fazer ficar ou sair do euro, seguir ou não os acordos com a Europa , gregos que tinham pouco e agora perderam tudo, como a cozinheira Mirsini Demertzi, se radicalizam.
"Prefiro a ditadura! Democracia querem os grandes, para proveito próprio. A Grécia vai falir", diz Mirsini, 44 anos, desempregada desde 2008.
A cozinheira, que votou no Syriza, estava no pátio de uma instituição pública no centro de Atenas, à procura de um filho de 28 anos viciado em drogas: ali, distribui-se todos os dias comida aos pobres. E com a crise, a fila da comida não pára de aumentar, para o desespero de Georges Apostolopoulos, que comanda a instituição.
"Estou com mais medo do futuro a cada dia. Se a Grécia sair da zona do euro, vai ser destruída, não quero nem pensar nisso", afirma.
Um frequentador da fila da comida grátis, Argyros Alexandros, 74 anos, não tem mais vergonha de comer, nem mostrar a sopa de galinha. Há quatro anos, ele era dono de duas lojas de roupas italianas em Atenas: tinha dois carros e um casamento. Hoje só sobrou o cachorro.
"Eu trocava de carro a cada dois anos Eu ia duas vezes por mês a Milão Eu tinha seis empregados Eu tinha um casamento. E agora?", lamenta.
Extremismo
Não longe dali, no escritório de um advogado, um homem de 65 anos, com os braços musculosos de um jovem de 30, descreve o que ele acha ser a Grécia ideal. Trata-se de Yannis Vouldis, um dos 21 extremistas do partido neonazista Aurora Dourada eleitos no dia 6 de maio para entrar pela primeira vez na História grega no Parlamento. Este veterinário aposentado defende a colocação de minas nas fronteiras da Grécia para impedir a entrada de imigrantes.
"Não é um problema difícil de resolver: fechamos as fronteiras. E os que estiverem dentro da Grécia, serão obrigados a partir. Quando se tem de 300 a 500 pessoas clandestinas entrando por dia no país, tem que fechar."
Ele também sugere que os imigrantes que estão dentro da Grécia sejam levados para ilhas desertas do país, até a expulsão. Não vai dar a impressão à Europa que são campos de concentração nazistas?
"Nos lixamos para a Europa. A Europa nos transformou em lixo", diz.



