
A morte de Alfonso Cano, considerado o número 1 das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), no início deste mês, reacendeu o questionamento em relação à sobrevivência da guerrilha. O grupo rebelde surgiu nos anos 1960 com ideais marxistas e propostas de mudanças políticas. Ao longo dos anos, as Farc seguem utilizando métodos radicais como sequestros e assassinatos e cada vez mais têm se distanciado do propósito inicial, tornando-se uma organização que luta pela mera subsistência com a associação ao narcotráfico.
Os rumos que os revolucionários colombianos tomaram também levam a refletir sobre o papel político que as guerrilhas tiveram na América Latina e o que representam hoje. A Revolução Cubana, em 1959, e a Revolução Sandinista na Nicarágua, 20 anos depois, foram resultado de lutas armadas empreendidas por forças revolucionárias. Para os especialistas entrevistados pela Gazeta do Povo, no século 21 esse tipo de movimento perdeu o sentido e já não tem força para promover revoluções.
Hector Luis Saint-Pierre, filósofo e coordenador do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança (Gedes) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), explica que o que diferencia o delinquente do guerrilheiro não são nem os armamentos, nem as táticas, que muitas vezes são os mesmos. "O que distingue uma coisa da outra é o íntimo compromisso político que os guerrilheiros devem ter. Durante as ditaduras, a posição das guerrilhas apresentava uma alternativa ao fechamento de todos os outros canais." Para o pesquisador, a lógica interna das Farc hoje já não corresponde politicamente ao que seria uma guerrilha porque o que prevalece é a lógica econômica ser financiada pelos narcotraficantes.
"As guerrilhas foram muito importantes no combate a ditaduras, mas há um consenso até na própria esquerda de que elas não têm mais razão de ser", diz Luis Fernando Ayerbe, coordenador do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp). Ele argumenta que os próprios governantes de países como Brasil, Bolívia, Venezuela e Equador, que já tiveram ligação ou simpatia por movimentos revolucionários, hoje defendem que a luta armada não é mais aceitável.
A presidente Dilma Rousseff e o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, reeleito na semana passada, por exemplo, foram guerrilheiros antes de chegarem ao poder. Mas Saint-Pierre avalia que o caminho é bem mais complexo para os integrantes das Farc abandonarem a luta armada e concorrerem a cargos eletivos. "No caso da Colômbia, já houve a tentativa de integrantes de grupos armados participarem de eleições. Eles começaram a ser eleitos, mas foram todos foram massacrados". A tentativa frustrada nos anos 1980, quando diversos guerrilheiros que entraram na política foram assassinados por grupos para-militares, teria minado a confiança da guerrilha em tomar o poder pelas vias legais. Além disso, os analistas reconhecem que a própria população da Colômbia não confia mais na guerrilha.
Futuro
O colombiano Jesús Izquierdo, professor de Sociologia na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), diz que é muito complicado fazer previsões sobre o futuro das Farc porque a organização já chegou a ser praticamente eliminada nos anos 1970 e resistiu. "Restaram menos de 300 combatentes, mas eles conseguiram se articular de novo".
Quanto ao florescimento ou ascensão de novas guerrilhas na América Latina, Izquierdo considera que, além de não haver a mão de ferro de ditaduras como no passado, hoje aqueles que ainda se importam com causas de interesse coletivo se sensibilizam com a desnutrição ou com problemas ambientais e se associam a organizações não governamentais. "As pessoas sonhadoras, com sensibilidade social não vão mais ter a ideia de formar um exército", diz.
Saint-Pierre considera que também houve uma mudança cultural, refletida nas mobilizações feitas pela internet e que resultaram em protestos em diversas partes do mundo. "Não se justifica mais a reação armada, há canais de comunicação. Violência é a ultima instância".
Desafio SocialFim das Farc traria novos problemas
Uma hipotética rendição das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) faz parte dos anseios de muitos colombianos. A notícia é esperada tanto pelos que vivem nas vilas do interior dominadas pelas guerrilhas, quanto pelos que têm familiares sequestrados, assim como por cidadãos do país que não se conformam com o impasse entre as Farc, o Exército e grupos paramilitares que produzem atos violentos de todos os lados. Mas, para os especialistas, o fim das Farc também significaria o início de novos problemas no país.
O sociólogo Jesús Izquierdo explica que algumas comunidades colombianas se incorporaram às guerrilhas como estratégia de sobrevivência. Radicado no Brasil há 12 anos, Izquierdo nasceu em Pasto, no sul da Colômbia, região que se tornou extremamente violenta nos últimos anos devido à presença do grupo armado.
Nos estudos que fez em seu país, o sociólogo encontrou situações como a de um adolescente de 16 anos que entrou para as Farc aos 12. "Ele era o mais velho dos quatro filhos de uma lavadeira. Na lógica dele, indo embora de casa sobraria mais comida para os outros", conta o pesquisador.
Hector Luis Saint-Pierre, filósofo da Universidade Estadual Paulista (Unesp) alerta para o grande problema social que será o fim da guerrilha, que é maciçamente formada por homens analfabetos, que nunca tiveram outra profissão na vida. "O que vão fazer aqueles que estão na guerrilha desde os 13 anos se abandonarem luta armada? A profissão deles é fazer a guerra."
Longe de ser uma justificativa para a continuidade das Farc, o desafio social parece ainda não ter solução. Saint-Pierre descarta alternativas como a reforma agrária, pois eles facilmente se envolveriam no plantio de coca e seriam explorados pelos nacotraficantes.



