Um dos poucos elementos da evolução humana a respeito do qual quase todo mundo está de acordo é que andar com duas pernas foi o evento definidor da nossa linhagem, responsável por iniciar o longo caminho até o Homo sapiens moderno. Todo mundo, porém, ainda quebra a cabeça tentando entender como isso aconteceu. Pesquisadores dizem ter uma resposta surpreendente: foi nas árvores, e não no chão.
O trabalho coordenado pelos britânicos Susannah Thorpe, da Universidade de Birmingham, e Robin Crompton, da Universidade de Liverpool, está na edição desta semana da revista "Science". A grande pista seguida até as últimas conseqüências pela dupla é o comportamento dos orangotangos de Sumatra (Pongo abelii) na floresta tropical indonésia.
O bizarro é que, em algumas circunstâncias, os bichos caminham como bípedes, de forma incrivelmente semelhante à nossa. O que aliás é um bocado útil, já que esse tipo de movimentação - no qual as pernas, eretas, são auxiliadas pelos braços - permitem que os macacões naveguem em galhos relativamente finos, colhendo preciosos frutos e viajando com facilidade de árvore em árvore.
A idéia é que o ancestral remoto dos seres humanos teria sido uma criatura com essa mesma capacidade. Assim, tudo o que ele teria de fazer para andar como bípede no chão seria simplesmente descer e fazer alguns outros ajustes morfológicos ao longo do tempo. "Para isso, ele não precisaria nem mudar radicalmente a biomecânica de seu corpo nem deixar seu ambiente original", resumiu Robin Crompton em entrevista coletiva concedida em Londres.
Impasse duradouro
Não é a primeira vez que alguém propõe essa hipótese arborícola para resolver o enigma do nosso andar bípede, mas os dados reunidos por Thorpe e Crompton talvez sejam os mais completos e convincentes até agora. O problema que eles têm de resolver é o seguinte: todas as formas de explicar a evolução do bipedalismo humano propostas até agora são, em maior ou menor grau, furadas.
Todo tipo de explicação mirabolante já foi tentada, da necessidade das fêmeas de carregar os bebês no colo à idéia de que os humanos tiveram uma fase de "macaco aquático", na qual passavam boa parte do tempo dentro de rios e lagos e, por isso, precisavam ficar eretos para não se submergir.
A mais aceita, porém, costumava ser a de que teríamos virado bípedes quando a floresta tropical africana encolheu, dando lugar à savana. No novo ambiente aberto, deslocar-se com dois pés em vez de quatro patas seria uma forma de locomoção mais versátil e eficiente, inclusive impedindo o superaquecimento do corpo por causa do sol ardente da savana.
Tudo muito bonito, se não fosse por dois motivos. Número um: os primeiros ancestrais humanos parecem ter surgido em torno de 6 milhões de anos atrás, enquanto a savana africana só se expandiu a partir de 3 milhões de anos antes do presente. E esses ancestrais mais antigos viviam num ambiente florestal, e não aberto.
Número dois: a idéia de que os pré-humanos eram originalmente quadrúpedes que andavam sobre os nós dos dedos, como os chimpanzés, complica isso ainda mais, porque é quase impossível para um chimpanzé ou gorila ficar com suas pernas retas. "O tipo de quadrupedalismo dos chimpanzés ou gorilas basicamente retira as possibilidades de que ele se locomovam como bípedes" de forma sustentada, embora eles possam andar com duas pernas por períodos muito curtos. (O joelho deles fica sempre dobrado, repuxando e cansando-os muito.)
Enquanto isso, em Sumatra...
A pergunta da equipe era: será que o modelo para a origem do andar bípede está errado? Foi isso que os levou ao estudar em detalhe a biomecânica dos orangotangos no alto das árvores. A idéia é que, como habitantes arbóreos de florestas tropicais, os bichos se parecem muito mais com o jeitão original dos grandes macacos. Afinal, o grupo do homem e seus primos mais próximos parece ter surgido pouco antes de 20 milhões de anos atrás, numa época em que os ambientes mais abertos quase não existiam na África.
O que Thorpe e Crompton viram foi uma estratégia consistente do orangotango de Sumatra toda vez que o bicho se via deparado com galhos frágeis (menos de 4 cm de diâmetro) que ele precisava atravessar. O bicho se punha em posição ereta, com os joelhos retos debaixo do quadril - exatamente como nós. Seus dedos longos e flexíveis dos pés agarravam o galho fino, enquanto os braços agarravam um galho acima dele para mantê-lo firme. A estratégia permite alcançar frutas na ponta dos galhos ou passar de uma árvore para outra dentro da mata fechada.
O curioso é que alguns grandes macacos muito antigos, assim como os primeiros ancestrais do homem, apresentam tanto um tronco (e talvez membros) eretos, provavelmente facilitadores da postura bípede, quanto braços relativamente longos, que facilitariam a movimentação nas árvores. "Assim, os primeiros hominídeos simplesmente teriam se mudado do alto das árvores para o solo", propõe Crompton.
Uma série de mudanças climáticas, ainda insuficientes para criar grandes extensões de savana mas capazes de deixar a mata fechada um pouco mais "espaçada", poderia ter servido como combustível para isso. Em vez de navegar de topo em topo de árvore como os orangotangos, os primeiros ancestrais do homem teriam usado suas capacidades de bípede para simplesmente andar de árvore em árvore. Já os chimpanzés e gorilas teriam adotado uma estratégia diferente, adaptando seus membros para grandes escaladas verticais e, ao mesmo tempo, para andar no chão como quadrúpede quando a necessidade aparecia.
Esse processo complexo teria acontecido ao longo de milhões de anos, conforme a mata se abria e se fechava no ritmo das mudanças climáticas, entre 12 milhões e 7 milhões de anos atrás. Pode até ser que animais não diretamente relacionados à linhagem humana tenham adotado a mesma estratégia bípede, o que explicaria a dificuldade de saber se alguns fósseis muito antigos são realmente ancestrais do homem.



