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Igreja Católica deve ser como “hospital de campanha após a batalha”, diz papa

Sumo pontífice concede uma entrevista longa para publicação jesuíta da Itália em que fala sobre sua visão do ministério

Papa Francisco disse à publicação italiana que a estrutura moral da igreja católica pode “cair como um castelo de cartas” se não equilibrar suas regras | Stefano Rellandini/Reuters
Papa Francisco disse à publicação italiana que a estrutura moral da igreja católica pode “cair como um castelo de cartas” se não equilibrar suas regras (Foto: Stefano Rellandini/Reuters)

O papa Francisco falou à revista jesuíta La Civiltà Cattolica, da Itália, depois de seis meses de papado.

Leia a íntegra da entrevista

Na entrevista, publicada ontem simultaneamente em jornais jesuítas de 16 países, o sumo pontífice disse que a estrutura moral da Igreja Católica pode "cair como um castelo de cartas" se não equilibrar suas regras sobre aborto, gays e contracepção com a necessidade maior de torná-la um lugar misericordioso e mais acolhedor para todos.

O papa amplia os comentários inovadores sobre gays e reconhece alguns de seus próprios erros. Ele falou sobre compositores (Mozart), artistas (Caravaggio), autores (Dostoiévski) e filmes preferidos (A Estrada, de Federico Fellini). E disse que reza quando está no consultório do dentista.

Mas sua opinião sobre o que a Igreja deve ser destaca-se no conteúdo da entrevista, sobretudo porque contrasta com muitas das prioridades dos pontífices João Paulo II e Bento XVI, para quem a doutrina era suprema, uma orientação que guiou a seleção de uma geração de bispos e cardeais em todo o mundo.

Francisco disse que o ensino dogmático e moral da Igreja não são equivalentes. "O ministério pastoral da Igreja não pode ser obcecado com a transmissão de uma série incoerente de doutrinas a serem impostas insistentemente", disse. "Temos de encontrar um novo equilíbrio, caso contrário até mesmo o edifício moral da Igreja deve cair como um castelo de cartas, perdendo a frescura e a fragrância do Evangelho."

Em vez disso, afirmou, a Igreja Católica deve ser como "um hospital de campanha após a batalha", cuidando das feridas de seus fiéis e saindo para encontrar os que foram machucados, excluídos ou que se afastaram.

Feridas

"É inútil perguntar a uma pessoa seriamente ferida se ela tem colesterol alto ou seu nível de açúcar no sangue", disse Francisco. "Você tem de cuidar de suas feridas, depois podemos falar sobre o restante."

"Algumas vezes a Igreja se fecha em pequenas coisas, em regras mesquinhas", lamentou ele. "A coisa mais importante é a primeira proclamação: Jesus Cristo nos salvou e os ministros da Igreja devem se ministros da misericórdia, acima de tudo."

Francisco dá "choque de autenticidade"

Agência O Globo

O papa Francisco está, na avaliação de especialistas ouvidos pela reportagem, promovendo a necessidade de a instituição ter uma conduta pastoral diferenciada.

"Ele está dando um choque de autenticidade à Igreja ao falar que o amor à pessoa é o que deve vir em primeiro lugar. Ele sempre foi adepto de uma teologia mais culturalista, comunitária, e isso inclui aceitar o outro como ele é. É como se o papa colocasse pingos nos is, algo que seus antecessores viram que era preciso fazer, mas não conseguiram", diz Francisco Borba, diretor do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

Para Borba, a atitude do papa pode doer em alguns fiéis, apesar de ser "extremamente positiva para se chegar ao cerne da fé".

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