Um jornalista do diário paraguaio que chamou o Brasil de imperialista em editorial publicado no domingo (20) foi ainda mais duro nas críticas ao país de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em entrevista ao G1, Ramón Casco, editor de economia do "ABC Color", disse que a "injustiça" do governo brasileiro em relação à usina de Itaipu pode levar à violência na fronteira entre os dois países.
"O povo paraguaio está começando a perceber a gravidade da situação e isso pode acabar gerando violência, como aconteceu em 1966, quando foi assinado o Tratado de Itaipu", disse Casco, em entrevista por telefone na tarde desta segunda-feira (21).
"Assim como os Estados Unidos, o Brasil adota uma atitude imperialista em relação a países mais fracos, como Paraguai e Bolívia", afirmou.
O "ABC Color" é o jornal de maior circulação no Paraguai, com cerca de 40 mil exemplares diários. O editorial crítico de ontem foi publicado justamente no dia em que Lula começou sua viagem ao Paraguai.
Ramón explica por que considera o Brasil imperialista. "Se analisamos os fatos, fica claro que o Brasil é o grande beneficiário de Itaipu. Hoje ele contrata 95% da energia gerada. Só que, segundo o Tratado de Itaipu, 50% da energia é paraguaia. E o Paraguai recebe muito pouco pelo excedente. Por isso é natural que um povo mais fraco veja esse tipo de atitude de um país muito mais poderoso, e cujos governos se caracterizaram no passado por ser expansionista, como uma atitude imperialista", diz o jornalista.
Ramón foi o jornalista escolhido pelo diretor do jornal, Aldo Zuccolillo, para falar sobre o assunto com a imprensa internacional. O Tratado de Itaipu, assinado há 34 anos quando os dois países estavam sob regimes militares, estabelece que a energia que um dos dois não utilizar deve ser cedida ao outro a um preço subsidiado, e proíbe a venda a terceiros. O Paraguai tem 50% da usina e direito a metade dos 90 bilhões de quilowatts-hora produzidos pela hidroelétrica anualmente.
No entanto, o país utiliza atualmente apenas 7 bilhões de quilowatts/hora para satisfazer 95% de seu consumo. Os outros 38 bilhões são cedidos ao Brasil, que paga cerca de US$ 42 por cada 1.000 quilowatts cedidos.
"Mas esse valor é irrisório e está muito abaixo do preço de mercado", argumenta o jornalista. "O preço pela energia cedida não chega a US$ 100 milhões. Só que pelos cálculos do mercado, o valor por essa quantidade de energia é de US$ 2 bilhões."
Ramón questiona até o próprio tratado. Ele afirma que o texto não proíbe a venda da energia excedente a terceiros países e diz que tudo vem sendo feito "na base da interpretação".
"O tratado estabelece que uma das partes tem direito a pedir ao outro a parte da energia que não se usa. Acontece que ninguém falou que o Paraguai é que tem de ceder sua energia. Isso é uma interpretação que as autoridades fazem. Por que não podemos vender nossa parte por mais dinheiro?", questiona.
Nesta segunda-feira (21), o "ABC Color" disse que as autoridades paraguaias não terão coragem de advertir o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que está em visita oficial ao país, "sobre o crescente ressentimento contra o Brasil que está cada vez mais presente em amplos setores da sociedade paraguaia por causa dos abusos e das injustiças cometidas pelo governo brasileiro na usina binacional de Itaipu".
"Os povos jamais esquecem as injustiças às quais os submetem as nações mais poderosas. Um exemplo recente que o presidente Lula conhece muito bem é o caso da Bolívia: um país pobre e indefeso que graças à coragem e ao patriotismo de seus atuais dirigentes conseguiu multiplicar o preço irrisório que o Brasil e Argentina pagavam por seu principal recurso, o gás natural", acrescenta o editorial.
Outro lado
Os setores paraguaios que pressionam a renegociação do tratado que deu origem à hidrelétrica de Itaipu terão que esperar até 2023, advertiu nesta segunda-feira o executivo João Bonifácio Cabral Júnior, diretor financeiro do lado brasileiro.
"As bases financeiras do tratado e a possibilidade de que o Paraguai possa vender sua energia para terceiros apenas poderão ser discutidas após 2023, quando a empresa concluir o pagamento de sua dívida", disse Cabral à agência de notícias Efe. O diretor qualificou como "injustas" e "infundadas" as críticas de que diferentes setores paraguaios, inclusive do governo, fizeram ao tratado constitutivo de Itaipu e às supostas desvantagens para o Paraguai.
"Esse valor está dentro do preço do mercado. O argumento de que o Paraguai receberia mais se vendesse a outros é infundado", disse à Efe Margarete Groff, outra diretora financeira de Itaipu. "Nos últimos leilões em São Paulo, a energia comparável à qual Itaipu gera foi vendida a entre R$ 90 e R$ 130 por 1.000 quilowatts/hora. É um preço comparável ao de Itaipu se for levado em conta que o dólar é vendido hoje a dois reais, mas antes valia mais".
Cabral atribuiu algumas das críticas vindas do Paraguai "ao jogo político nesse país", onde as eleições presidenciais se aproximam.
Sobre o editorial publicado no domingo pelo jornal "ABC Color", que chamou ao Brasil de "imperialista" e "explorador", o executivo qualificou as críticas de "injustas" e "inadequadas".
"O tratado foi altamente vantajoso para os dois países indiscriminadamente", acrescentou.



