
São Paulo - A ex-refém das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), Ingrid Betancourt, descartou ontem voltar à carreira política e disse que pretende lançar um livro de memórias para contar as experiências vividas nos seis anos em que esteve presa na selva.
"Eu ainda não tive tempo de pensar no que eu quero fazer, mas sei o que eu não quero. Eu não quero fazer parte da política colombiana. Ainda falta muito tempo para a política que eu sonho, com valores, venha a existir", disse Ingrid que afirmou ainda que "ficará fora de circuito por pelo menos seis meses para escrever um testemunho (livro de memórias)".
Ingrid Betancourt veio ontem ao Brasil para se encontrar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para agradecer o apoio recebido. Durante o encontro, Ingrid entregou a Lula um documento do presidente da França, Nicolas Sarkozy, para firmar o compromisso de toda a Europa em ajudar na libertação dos reféns das Farc. Atualmente, cerca de 700 reféns estão em poder dos seqüestradores.
Ingrid Betancourt, três americanos e 11 militares colombianos foram resgatados das Farc por tropas colombianas, no dia 2 de julho deste ano. O Exército da Colômbia realizou uma polêmica operação de resgate em que militares fingiram pertencer a um grupo humanitário que iria levar os reféns de helicóptero ao encontro do líder guerrilheiro Alfonso Cano.
Sobre a participação do presidente da Colômbia, Alvaro Uribe, na libertação, Ingrid disse ter "muita gratidão", mas questionou a problemática social do país. "Não há uma resposta social ao problema da juventude que vive nessas zonas (próximas às Farc). Eles precisam de uma oportunidade de trabalho digno e legal", disse a ex-refém, que cobrou do governo uma solução para o problema.
Esquerda
Sobre a opinião dos presidentes latino-americanos em relação às Farc, Ingrid defendeu que a "simpatia" de alguns governos se devia ao fato da base do movimento ser revolucionário. No entanto, a ex-refém disse que houve uma "reflexão de todos os presidentes de esquerda de que para chegar ao poder, eles não precisariam seqüestrar e matar".
"O momento muda quando as Farc decidem atuar no narcotráfico e usar o seqüestro como uma forma de luta. Nesse momento se fratura a relação da comunidade latina com as Farc", disse Ingrid.
A ex-refém agradeceu as cartas de brasileiros enviadas durante o seqüestro, do deputado Fernando Gabeira (PV-RJ) e do senador Eduardo Suplicy (PT-SP) por "nunca terem esquecido de mim". Ingrid disse que pretende passar o próximo Natal com a família em um sítio.



