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Israel quer existir em segurança e vive momento decisivo, diz ex-soldado das FDI

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Em entrevista, ex-soldado das FDI fala sobre rotina de guerra em Israel e objetivos no conflito contra o Irã. (Foto: ATEF SAFADI/EFE/EPA)

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A guerra em curso no Oriente Médio entrou em sua terceira semana. Em Israel, a sensação que predomina é a de que o país vive um momento decisivo em sua história.

Em entrevista à Gazeta do Povo, o brasileiro Gabriel Schorr, diretor da Exodus Israel, especialista em Oriente Médio e ex-soldado das Forças de Defesa israelenses (FDI), onde atuou por 23 anos, disse que o confronto em curso contra o Irã é visto por muitos cidadaõs de Israel como a etapa central de uma guerra que começou em 7 de outubro de 2023, com os ataques terroristas do Hamas.

“Existe hoje uma sensação muito clara de que tudo o que foi feito ao longo desses últimos dois anos - a guerra contra o Hamas na Faixa de Gaza e na Cisjordânia, o confronto contra o Hezbollah no Líbano e os ataques contra os houthis no Iêmen - só ganha um significado estratégico completo quando a fonte de financiamento, treinamento e inspiração ideológica desses movimentos terroristas, que é o Irã, é diretamente enfrentada e contida”, diz

De acordo com Schorr, muitos israelenses veem o enfraquecimento do Irã como um passo decisivo não apenas para reduzir a ameaça existencial contra Israel, mas também para abrir caminho a uma nova etapa no Oriente Médio. Segundo ele, há a percepção em Israel de que um revés imposto ao regime iraniano pode permitir que o país “vire uma página da história” e passe a buscar um novo futuro tanto na Faixa de Gaza quanto no Líbano, sem a influência desestabilizadora de Teerã, que financia grupos terroristas que atuam nesses dois locais: o Hezbollah e o Hamas, respectivamente.

Ataques contra a população civil de Israel e a rotina de guerra

Desde o ataque do Hamas, em outubro de 2023, a população de Israel passou a viver sob uma lógica de guerra quase permanente, com apenas pausas pontuais ao longo do período. Nesse sentido, a sociedade israelense já estava preparada para lidar com a quebra da rotina, seguir protocolos de segurança e reagir a ataques com mísseis e outras ameaças vindas do Irã e de grupos terroristas aliados do regime.

Contudo, como em todo conflito, Schorr relatou algumas mudanças profundas na rotina da população com a escalada da guerra contra o Irã, que já fechou escolas, restringiu deslocamentos e passou a organizar a vida civil em torno de sirenes, alertas de segurança e idas frequentes a abrigos de proteção contra mísseis.

As escolas foram fechadas pelo risco constante de ataques com mísseis balísticos e pelo uso, por parte do Irã, de ogivas de fragmentação, que espalham submunições no ar e ampliam o potencial de atingir áreas civis. O governo israelense tem denunciado os frequentes ataques de drones e mísseis do Irã contra áreas civis de Israel.

Com as escolas fechadas e as crianças em casa, o mercado de trabalho em Israel também foi afetado. Muitos pais passaram a ter dificuldade - e, em alguns casos, até impossibilidade - de manter a rotina normal de trabalho. Parte desse impacto vem sendo amenizado pelo home office, adotado por muitas pessoas com base na experiência acumulada desde a pandemia e também nos últimos anos de guerra.

Sistema de defesa, apoio dos EUA e disciplina civil

Israel opera hoje com uma estrutura de proteção em três camadas. A primeira envolve o Domo de Ferro, desenvolvido para interceptar morteiros e mísseis de curto alcance. Além disso, Schorr lembra que Israel ampliou essa rede de proteção com outros sistemas, como o Hetz, conhecido em inglês como Arrow, e o David’s Sling, ou Estilingue de Davi, voltados para interceptar mísseis balísticos e ameaças de maior alcance.

A segunda camada é a atuação dos Estados Unidos ao lado de Israel também na interceptação e neutralização de mísseis disparados pelo Irã. Já a terceira depende exclusivamente da disciplina da própria população de Israel e do sistema de alerta coordenado pelo Comando da Frente Interna, setor do Exército israelense responsável pela defesa civil.

“Cada vez que um míssil iraniano é disparado, um alerta soa em todos os celulares de Israel - independentemente de a pessoa ser judia, cristã, muçulmana, drusa ou de qualquer outra comunidade - avisando que uma ameaça pode estar a caminho”, relata

Quando os sistemas conseguem estimar melhor a região de possível impacto, as sirenes passam a tocar apenas nas áreas sob risco e a população tem entre 10 segundos e cerca de um minuto e meio para chegar a um abrigo ou quarto seguro, a depender da localização.

O objetivo de Trump no conflito

Na avaliação de Schorr, o presidente norte-americano Donald Trump não busca apenas destruir capacidades militares do Irã - como ele vem afirmando - mas também impedir o avanço de uma articulação geopolítica mais ampla liderada por regimes adversários do Ocidente.

“Eu diria até que o objetivo [de Trump na guerra em curso] é evitar uma ordem mundial potencialmente desastrosa que vinha sendo desenhada pelo que muitos chamam de ‘eixo do mal’ - Irã, Rússia e China - ao longo dos últimos 10 ou 20 anos.”

Para Schorr, o regime iraniano tem papel direto na disseminação de armas e tecnologias militares usadas por diferentes atores em conflitos e redes violentas em várias partes do mundo, inclusive na América Latina. Na visão do ex-soldado, o avanço do fundamentalismo islâmico radical, somado à influência digital e informacional crescente da China, contribuiu nos últimos anos para um ambiente internacional mais instável e marcado pela desinformação.

“Acredito que Donald Trump tem consciência dessa dimensão estratégica. Por isso, a urgência não seria apenas destruir capacidades militares [do Irã na guerra em curso], mas também abrir espaço para que a população iraniana possa viver como uma sociedade normal, sem medo de se manifestar e ser brutalmente reprimida, e ao mesmo tempo evitar que o sistema internacional caminhe para um rumo muito mais difícil de conter no futuro”, analisa.

Mudança de regime pode exigir tropas em campo e ida da população às ruas

Schorr disse não compartilhar da avaliação de analistas que descartam o cenário de envio de tropas americanas ao Irã em uma eventual tentativa de mudança de regime. Na visão dele, uma operação desse tipo pode acabar exigindo presença militar em solo, seja para proteger o Estreito de Ormuz e garantir a passagem de navios petroleiros, seja para isolar áreas ao redor de instalações nucleares e permitir inspeções diretas e a retirada de materiais sensíveis.

Ele não descarta a necessidade de participação de forças internacionais em uma eventual fase de estabilização e apoio à reorganização política do Irã. Ao mesmo tempo, ponderou que uma mudança de regime no país persa não dependeria apenas de pressão externa. A própria população iraniana terá papel decisivo nesse processo, já que nos últimos anos voltou às ruas em grandes manifestações contra o regime dos aiatolás.

Capacidade militar do Irã foi abalada, mas guerra pode se prolongar

Os ataques de Israel e dos Estados Unidos atingiram de forma significativa a capacidade militar e balística do regime iraniano, sobretudo no que diz respeito à sua habilidade de lançar ofensivas massivas e imediatas contra Israel.

"Nos primeiros dias, o Irã lançava em média de 40 a 50 mísseis balísticos por dia contra o território israelense”. Já nos dias mais recentes, analisa ele, esse número caiu “para algo entre três e seis por dia”, o que indicaria um enfraquecimento relevante da capacidade ofensiva iraniana.

Mas, mesmo com danos importantes à sua infraestrutura militar, o regime islâmico ainda pode prolongar o conflito. De acordo com Schorr, a maior parte dos alvos atingidos até agora por Israel e Estados Unidos está concentrada no oeste do Irã, região mais próxima de Israel e do Golfo Pérsico. Na avaliação dele, a porção oriental do território iraniano ainda pode abrigar instalações militares e plataformas de lançamento de mísseis.

Irã usa Ormuz para pressionar o Ocidente, e Hezbollah segue como ameaça

O regime iraniano está utilizando o Estreito de Ormuz, rota estratégica por onde passa 20% do petróleo mundial, como uma forma de pressionar a comunidade internacional. Teerã tem ameaçado navios que passam pelo local e instalado minas sob as águas.

Na avaliação de Schorr, ao ameaçar o Estreito de Ormuz, Teerã tenta elevar o custo econômico da guerra para forçar uma reação externa em favor de um encerramento mais rápido do conflito.

Sobre as ameaças representadas pelo chamado “eixo de resistência” do Irã no Oriente Médio, Schorr afirmou que o Hezbollah continua sendo o principal risco regional para Israel neste momento.

“O Hezbollah é um problema que precisa ser enfrentado desde a raiz. Neutralizar essa organização é também um passo necessário para que o Líbano possa voltar a ser um país mais estável e para eliminar de fato a capacidade do Hezbollah, é fundamental cortar a influência que o Irã exerce sobre esse movimento armado", aponta.

Região ainda vive incerteza

Na avaliação de Schorr, a guerra contra o Irã tende a deixar Israel mais forte e mais seguro no longo prazo, ainda que o impacto regional mais amplo permaneça em aberto. O país deve terminar este conflito com uma percepção mais clara das ameaças que enfrenta, com ajustes importantes no sistema de defesa e no modo de operação de suas Forças Armadas, além de reforçar alianças estratégicas, sobretudo com os Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, Schorr pondera que ainda é cedo para afirmar que a guerra produzirá mais estabilidade no Oriente Médio como um todo. Na visão dele, há um risco real de que uma eventual queda do regime iraniano não seja seguida por uma transição organizada, abrindo espaço para fragmentação, disputas internas e um novo foco de caos regional.

Apesar dos riscos, Schorr diz ver espaço para rearranjos diplomáticos importantes no Oriente Médio depois desta guerra. Países como Líbano, Síria e até os próprios territórios palestinos poderiam buscar um futuro diferente, com mais estabilidade, desenvolvimento e até formas de cooperação com Israel. Como exemplo de que esse tipo de rearranjo é possível, ele citou os acordos de paz com Egito e Jordânia e também as novas formas de cooperação surgidas nos últimos anos com Emirados Árabes Unidos e outros países árabes.

“Israel não aspira ser um país maior, nem dominar outros povos”

Em mensagem ao público brasileiro, Schorr afirmou que, para entender o que Israel enfrenta neste momento, é preciso ter em mente que o país não está em guerra para expandir território ou dominar outros povos, mas para garantir a própria sobrevivência.

“Israel não aspira ser um país maior, nem dominar outros povos. Da mesma forma, o povo judeu não busca ser mais importante do que ninguém no cenário internacional. O objetivo central de Israel é simplesmente continuar existindo em segurança”, conclui.

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