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Refugiados indígenas venezuelanos em um abrigo temporário em Pacaraima, em fevereiro de 2018 | MAURO PIMENTEL/AFP
Refugiados indígenas venezuelanos em um abrigo temporário em Pacaraima, em fevereiro de 2018| Foto: MAURO PIMENTEL/AFP

Ao chegar ao Brasil três meses atrás, o pescador da etnia warao José Gregorio Andrade, 34, trabalhou em bicos e pediu dinheiro nas ruas de Belém até coletar quantia suficiente para voltar à Venezuela. De lá, trouxe nove familiares, incluindo os pais, a irmã e o cunhado. 

Desde então, diz, economiza para buscar mais 25 parentes. "Todos querem vir. Não tem mais comida na Venezuela", explica Andrade, que está em Altamira, a 815 km de Belém, junto com cerca de 30 familiares. 

Há três semanas na cidade, o grupo decidiu se arriscar no interior do Pará porque o abrigo na capital estava lotado, o que gerou conflitos internos. 

Dois bebês waraos morreram em Belém entre sexta-feira (24) e sábado (25). Uma delas foi diagnosticada com sarampo. Ao todo, cinco waraos morreram na capital paraense em pouco mais de um ano.

Não é o único caso de superlotação. Os abrigos específicos para waraos estão com problemas de falta de vagas em Pacaraima (RR), na fronteira com a Venezuela, em Boa Vista e em Manaus.

Em Pacaraima, onde o abrigo tem capacidade para 400 pessoas, a falta de espaço obrigou um grupo de 19 waraos recém-chegados (dez deles crianças) a dormir na rua neste fim de semana, segundo a Defensoria Pública da União.

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Em Manaus, 22 waraos dormiram na rodoviária, também neste fim de semana, por falta de espaço nos dois abrigos municipais exclusivos para a etnia, onde havia 273 pessoas na semana passada, também de acordo com a DPU. É a primeira vez que um grupo foi obrigado a ficar na rua por falta de vaga na cidade.

Em Altamira, os waraos também passam por dificuldades. A casa, cedida pela prefeitura, é pequena para abrigar todos – parte dorme na varanda e sob lonas armadas no quintal.  Além disso, dizem não conseguir ajuda necessária para comer e conseguir dinheiro.   

Mudança de estratégia

No início da imigração ao Brasil, os waraos  juntavam dinheiro para levar comida, roupas e medicamentos aos parentes na região do Delta Amacuro, a cerca de 800 km da fronteira como Brasil. De lá, traziam artesanato, feito de fibra de buriti, para vender nas ruas.

O esquema, no entanto, passou a ser abandonado pelos waraos após seguidas apreensões de artesanato por parte do Exército, em barreira montada perto da fronteira.

Há dois meses no Brasil, o pescador Eloy Moya, 35, afirma que "todos querem vir". O cunhado de Andrade, disse que sua comunidade vive em uma área alagada, onde não têm como plantar, e o dinheiro obtido com o peixe passou a ser insuficiente para comprar outros alimentos.

Em Altamira, os waraos passam o dia pedindo dinheiro nas ruas. Além da casa cedida pela prefeitura, eles têm recebido assistência da Igreja Católica. 

A busca por melhores condições de vida levou um grupo a se deslocar até Jacareacanga, na distante divisa com o Amazonas, para se arriscar no garimpo. Há também waraos em Santarém (PA).

"Queremos trabalhar. Se não tiver trabalho, teremos de ir para outra cidade", diz Andrade, que citou Belém ou Maranhão como opções do grupo.

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Os waraos no Brasil

A etnia warao tem cerca de 49 mil pessoas, segundo o censo venezuelano de 2011. Desses, 1.100 se encontravam no Brasil em março, segundo levantamento do Ministério Público Federal em Roraima, Amazonas e Manaus.

Trata-se de uma pequena fração dos cerca de 127 mil venezuelanos que entraram no Brasil nos últimos anos, dois quais mais da metade já deixou ou país.

"Não faz sentido falarmos de uma 'invasão warao'", diz a antropóloga Marlise Rosa, que prepara tese de doutorado sobre a etnia na UFRJ. "Mesmo sendo um número pequeno, contudo, o despreparo e o desconhecimento por parte dos governos estaduais e municipais com relação às especificidades socioculturais do grupo faz com que o caos se instaure a cada novo deslocamento empreendido por eles", afirma.

Rosa defende a criação de um protocolo padrão para receber os waraos, com informações sobre a etnia, a crise na Venezuela e os motivos para a migração, além de orientações sobre documentação, atendimento à saúde, ações de acolhimento e alimentação.

"Seria uma forma também de promover o intercâmbio de experiências bem-sucedidas entre as cidades que já atendem essa população há algum tempo, e aquelas cuja chegada dos indígenas é recente", afirma.

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