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Haiti

Miséria corrói a esperança

Porto Príncipe (AE) – O Haiti e o pequeno Clarence Utyle vivem lutas distintas percorrendo caminhos comuns. Primeira nação independente de escravos do mundo e hoje um arremedo de país, o Haiti realiza no mês que vem eleições gerais para dar o primeiro passo na retomada da democracia e sair de uma grave crise institucional. Aos 4 anos, o frágil menino sofre de uma anomalia visível na sua nudez que é só parte de um drama. Ele é miseravelmente pobre, vivendo na mais violenta favela haitiana e sem que ninguém, nem mesmo sua mãe, possa curar sua doença ou matar sua fome. Nos dois casos, sobreviver já é uma vitória.

Crianças pobres são comuns no Haiti. Pertencem a famílias que se sustentam com menos de um dólar por dia e vivem o presente, nunca o futuro. Monita Sezar, mãe de Clarence, não tem acesso a posto de saúde e não imagina quando terá condição de pagar uma escola para o filho. Por enquanto, o menino vagueia pelas ruas de Cité Soleil, a violenta favela de mais de 300 mil habitantes.

Cité Soleil é hoje o problema e a solução. Evidencia algumas das maiores dificuldades do Haiti que vai às urnas dividido, em fins de novembro. Em 6 de julho, a Minustah – a força de paz das Nações Unidas – fez uma operação de guerra na favela. Ordenada pelo embaixador chileno Juan Gabriel Valdés, chefe da missão da ONU, e tendo à frente o general brasileiro Augusto Heleno Ribeiro Pereira, a ação envolveu mais de 400 soldados e 40 veículos pesados e deixou dezenas de civis mortos, entre eles Emannuel Dread Wilmé, influente líder de gangues armadas. O mais inesperado: muitos moradores passaram a odiar a Minustah.

"Não podíamos tolerar que um grupo de 50 indivíduos continuasse espalhando o pânico em Porto Príncipe e destruindo a possibilidade de tranqüilidade para o país", disse Valdés. A saída foi adotar a tática militar do "encapsulamento". À operação de guerra, seguiram-se ações para isolar Cité Soleil e, sobretudo, os partidários do Lavallas, movimento contrário à Minustah. Sem Wilmé, as gangues parecem ter se desmobilizado e perdido força.

A Minustah é vista como invasora pelos rebeldes do país. E os antes idolatrados soldados brasileiros já não são mais unanimidade. Por ora, as diversas tentativas dos militares de agradar ao povo com partidas de futebol, projetos sociais e ações humanitárias surtem algum efeito. Mas os haitianos já dão sinais de que querem muito mais que isso.

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