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Medicina

Nervos à flor da pele

Para cientistas, o termo “ataque de nervos” esconde uma série de doenças psiquiátricas e estimula a automedicação

Em sentido horário, a partir da foto superior à esquerda, o escritor F. Scott Fitzgerald (1896-1940), a atriz Gene Tierney (1920-1991), o psicólogo e filósofo William James (1842-1910), e o cientista Isaac Newton (1643-1727) estão entre as pessoas famosas que tiveram “ataques de nervos”, ou algo do gênero, durante suas vidas | Universidade Princeton / Wikimedia Commons / Godfrey Kneller/Wikimedia Commons / Biblioteca do Congr
Em sentido horário, a partir da foto superior à esquerda, o escritor F. Scott Fitzgerald (1896-1940), a atriz Gene Tierney (1920-1991), o psicólogo e filósofo William James (1842-1910), e o cientista Isaac Newton (1643-1727) estão entre as pessoas famosas que tiveram “ataques de nervos”, ou algo do gênero, durante suas vidas (Foto: Universidade Princeton / Wikimedia Commons / Godfrey Kneller/Wikimedia Commons / Biblioteca do Congr)

Washington - Há algumas décadas, a medicina moderna fez muito frisson acer­­ca do termo "ataques de nervos", oferecendo então uma com­­bi­­nação de novos diagnósticos, no­­vos psicotrópicos e uma forte do­­se de desdém profissional.

O termo foi utilizado ao extremo, e chegou quase a perder o significado. Havia se tornado um diagnóstico pronto para uma era que se recusava a discutir abertamente o cansaço mental. Todavia, assim como um ví­­rus resistente, o termo também passou por mutações.

Nos últimos anos, psiquiatras em toda a Europa vêm diagnosticando o que eles chamam de "sín­­drome do esgotamento", com sinais que incluem a "exaustão vital". De acordo com uma pesquisa publicada ano passado, a síndrome pode ser classificada em três tipos: "frenética", "pouco desafiada" e "desgastada".

Esta é a mais nova nomenclatura para este tipo de colapso emocional – inimigo da humanidade por décadas – que surge esporadicamente como resultado de dificuldades mentais severas ou, mais comumente, a partir de pequenas situações do co­­tidiano.

No início do século 20, muitas pessoas falavam apenas em esgotamento nervoso, incluindo O Esgotamento Nervoso, coleção de contos elaborada por F. Scott Fitzgerald em 1936 que ilustra a crise nervosa do próprio autor. Antes disto, o termo mais utilizado era neurastenia, uma aflição nervosa amplamente diagnosticada e indefinida, restrita aos sintomas que o paciente quisesse inferir.

Mesmo assim, os historiadores médicos acreditam que, devido à enorme versatilidade e po­­der descritivo do termo, é muito difícil melhorar o termo "ataque de nervos".

Cunhado por volta do ano 1900, o termo atingiu seu auge de utilização durante a metade do século 20 e ainda hoje possui muita popularidade. Um estudo feito em 1996 revelou que 26% dos entrevistados relataram ter passado por uma "ataque de nervos severo", valor com­­parado ao índice de 19% obtido na mesma pesquisa realizada em 1957.

"Ataque de nervos é um termo antigo muito forte, como me­­lancolia e crise de nervos, que ainda não foi substituído, apesar de soar antiquado", diz o historiador Edward Shorter, coautor do livro Psiquiatria Endócrina: Resolvendo o Enigma da Me­­lan­­colia, escrito em parceria com Max Fink.

Imprecisão

Além de não ser considerado um diagnóstico psiquiátrico adequado, o termo sempre soou inexato para os médicos, que o consideram pseudocientífico e en­­ganador. Todavia, de acordo com alguns especialistas, estas são exatamente as qualidades que garantiram que ele ganhasse tan­­ta popularidade entre as pessoas.

"O termo possuía sanção mé­­dica suficiente para parecer útil, mas não dependia de sanção médica para ser utilizado", co­­menta Peter N. Stearns, historiador da Universidade George Ma­­son, localizada nos arredores de Washington, EUA.

Ataques de nervos já eram considerados passíveis de tratamento nas décadas de 1950 e 1960, visto que elas já buscavam naquela época auxílio médico. Hoje os psiquiatras dizem que, na maioria dos casos, os pacientes eram tratados como se tivessem passando por depressão se­­vera ou psicose, ilusões que normalmente sinalizam esquizofrenia.

O fato de o termo "ataque de nervos" ser tão vago impossibilitou precisar se existia entre os pacientes um problema psiquiátrico real. O paciente com tal diagnóstico poderia ter qualquer problema, de depressão a manias ou alcoolismo. Ele poderia ser a causa de um divórcio ou de uma crise conjugal.

A falta de informações mais precisas deixava pessoas que passam por aflições bem conhecidas – como a de­­pressão pós-parto – inteiramente no escuro, se perguntando se havia saída para seus problemas.

Entretanto, a mesma imprecisão permitiu ao narrador, e não ao profissional da saúde, a controlar o significado do termo. As pessoas podem estar à beira de um ataque de nervos; e era muito comum ter "algo parecido" com um ataque de nervos. O termo permitia às pessoas revelar o máximo (ou o mínimo) de detalhes sobre seu esgotamento, conforme lhes convinha. Ser vago preserva a privacidade.

Edward Shorter diz que o termo "nervoso" tem sido utilizado erroneamente como uma descrição resumida dos problemas mentais, implicando que a causa seria algo físico além do controle do paciente – algo que prejudicou os nervos, e não a mente. E um ataque é algo que acontece no cotidiano. É um problema temporário, não crônico.

O filósofo do século 19 Wil­­liam James repetidamente chamou a neurastenia, enfermidade pela qual sofria, de "americanite" – um efeito colateral do acelerado ritmo de vida americano. A mesma coisa acontece com o termo ataque de nervos: as causas são geralmente externas, e a recuperação é uma questão de melhor gerenciar as exigências impostas pela vida.

"As pessoas frequentemente aceitavam a noção de "ataque de nervos", pois era proposta como algo que podia ser resolvido sem a ajuda de profissionais", concluiu uma análise feita por Peter N. Stearns, Megan Barke e Re­­bec­­ca Fribush, publicada em 2000. A popularidade do termo, de acordo com eles, revelou "uma necessidade permanente de se manter distância de diagnósticos e tratamentos essencialmente clínicos".

O mesmo destino pode ou não estar esperando a "síndrome do esgotamento", que conta atualmente com o apoio de alguns médicos e pesquisadores. Toda­­via, serão precisos mais uns 30 anos para mudar outra generalização.

Tradução: Thiago Ferreira

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