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Amazon testa os limites de seus funcionários

Gigante do varejo testa os limites de seus executivos

Funcionários da Amazon na hora do almoço, com laptops na mão. Muitos dizem que têm que estar disponíveis constantemente. | Ruth Fremson/The New York Times
Funcionários da Amazon na hora do almoço, com laptops na mão. Muitos dizem que têm que estar disponíveis constantemente. (Foto: Ruth Fremson/The New York Times)

Toda segunda, pela manhã, os novatos fazem fila para receber orientações que vão ajudá-los no ambiente de trabalho peculiar da Amazon.

Segundo funcionários, eles ouvem que têm que esquecer os “maus hábitos” aprendidos em outros empregos e que, quando “dão de cara na parede” por causa do ritmo intenso, a solução é uma só: “subir a parede”. Eles são estimulados a trabalhar até muito tarde (chegam e-mails depois da meia-noite, seguidos de torpedos questionando a falta de resposta) e devem manter padrões que a companhia reconhece como “irracionalmente altos”.

A empresa, fundada e administrada por Jeff Bezos, está conduzindo um experimento pouco divulgado para saber qual o limite de seus executivos.

“Quando seu objetivo é chegar à Lua, a natureza do trabalho é realmente puxada. Nem todo mundo está preparado para isso”, afirma Susan Harker, principal recrutadora da Amazon.

Como Bo Olson. Ele durou menos de dois anos no departamento de marketing e lembra de ter visto muita gente chorando. “Você sai da sala de reuniões e vê um homem adulto cobrindo o rosto”, disse.

Pode parecer que a Amazon está na contramão da tendência de criar um ambiente de trabalho mais gentil e políticas mais humanas, como a generosa licença maternidade do Netflix. No entanto, segundo os especialistas, ainda hoje a competitividade feroz continua sendo a condição que melhor define o mundo do alto escalão de executivos.

Graças em parte a essa habilidade de extrair o máximo de seus empregados, a Amazon está mais forte do que nunca. Com 929 mil metros quadrados, sua sede aposta na habilidade de milhares de novos funcionários em vender qualquer coisa a qualquer um em qualquer lugar.

Há pouco tempo, a Amazon superou o Walmart como a maior empresa varejista dos EUA, avaliada em US$ 250 bilhões, segundo a Forbes. Bezos, que também é dono do jornal “The Washington Post”, é a quinta pessoa mais rica do planeta.

Milhões de norte-americanos conhecem a Amazon como clientes, mas a vida dentro de seus escritórios é um grande mistério. Até aqueles que ocupam cargos mais baixos assinam um contrato de confidencialidade abrangente. A empresa autorizou apenas alguns dos executivos mais antigos a falar conosco, recusando-se a dar acesso ao próprio Bezos e/ou quaisquer dos membros do alto escalão.

Apesar disso, mais de cem pessoas, entre ex-funcionários e empregados atuais, descreveram como tentam (ou tentaram) conciliar o aspecto às vezes punitivo do ambiente de trabalho com o que muitos descrevem como “um ritmo empolgante de criação”.

De acordo com pessoas que trabalharam na Amazon em seus primórdios, Bezos estava decidido, praticamente desde o momento em que criou a empresa, em 1994, a resistir às forças que, em sua opinião, minavam negócios com o tempo: burocracia, esbanjo nos gastos e falta de rigor.

Ao contrário de empresas cujas filosofias não passam de um punhado de chavões vagos, a Amazon tem regras que fazem parte de seu ritual diário. A diretriz de 14 passos reúne um império de funcionários de elite (graças ao princípio número 5: “Contrate e desenvolva os melhores”) que se livraram das forças que os impediam de dar o melhor de si.

Embora o prédio da Amazon pareça ser semelhante aos de outros gigantes da tecnologia — com escritórios que aceitam cachorros e uma mão de obra que pende para homens jovens —, a empresa é considerada um caso à parte.

Ainda que seu pacote de benefícios seja considerado competitivo, se espera “frugalidade” (número 9) dos funcionários. Isso inclui de mesas de escritório praticamente vazias a celulares e despesas relacionadas ao trabalho pagas do próprio bolso. O foco é na “obsessão com o cliente” (número 1), com palavras como “missão” para descrever a entrega ultrarrápida de Cocoa Krispies [cereal matinal] ou “paus de selfie”.

De todas as políticas gerenciais de Bezos, talvez a que mais se diferencie seja sua crença de que a harmonia é supervalorizada. Os empregados da Amazon são instruídos a “discordar e se engajar” (número 13) — e partir para cima das ideias dos colegas com feedbacks no mínimo dolorosos.“Sem dúvida seria muito mais fácil e socialmente coesivo o engajamento sem debate, mas isso poderia levar à tomada de decisões erradas”, afirma Tony Galbato, vice-presidente de RH.

Segundo alguns funcionários, o melhor da Amazon é oferecer um ambiente que valoriza o risco e reforça as ideias por meio de um verdadeiro teste de estresse. E até os novatos podem fazer grandes contribuições.

Stephenie Landry, executiva de operações, teve uma ideia para possibilitar a entrega de produtos a clientes urbanos em até uma hora. “O cliente, além de encontrar a boneca da Elsa [do filme “Frozen”], que já estava esgotada na cidade de Nova York, a recebia em casa em 23 minutos. Estamos tentando representar para o cliente a solução de uma necessidade prática. Nesse aspecto, a coisa toda é futurista e mágica”, explica ela, que foi autorizada pela empresa a falar.

Conforme os recém-chegados vão se acostumando com o novo ambiente, também eles se sentem deslumbrados, lisonjeados e intimidados com a imensa responsabilidade que a empresa coloca sobre seus ombros.

Muitos veteranos dizem que a cultura da empresa estimula a pessoa a destruir os limites entre a vida pessoal/profissional e a tentar impressionar uma corporação com um apetite insaciável: maratona de teleconferências no domingo de Páscoa, broncas dos chefes por não acessar à internet nas férias e horas e horas trabalhadas em casa, à noite e nos fins de semana.

Em 2013, Elizabeth Willet entrou na Amazon para gerenciar os vendedores de produtos para a casa. Depois que teve um filho, ela fez um trato com o chefe para estar no escritório todos os dias das sete da manhã às quatro e meia da tarde, pegar a criança e voltar ao laptop mais tarde.

No entanto, ela começou a ser criticada por sair muito cedo por meio da Anytime Feedback Tool, ferramenta interna que permite aos funcionários enviar críticas ou elogios aos colegas para a gerência.

Uma vez que os membros das equipes são avaliados, e os piores eliminados no fim do ano, é de interesse geral sempre se superar. Muitos confessaram fazer pactos para desestruturar uma determinada pessoa ou elogiar uns aos outros.

Várias mulheres atribuem a desigualdade entre sexos na Amazon — não há uma única diretora na empresa — ao sistema de competição e eliminação.

Como a moça que teve câncer de tireoide e recebeu uma avaliação baixa ao voltar do tratamento. Ela conta que seu gerente justificou a situação explicando que os colegas haviam dado duro enquanto ela esteve fora.

Ou a mulher que sofreu um aborto espontâneo de gêmeos e teve que fazer uma viagem de negócios um dia depois da cirurgia. “Desculpa, mas o trabalho ainda está aí e precisa ser feito”, disse-lhe então seu chefe.

Outra, que teve câncer de mama, entrou para o “plano de melhora de desempenho” — código para “você corre o risco de ser despedido(a)” — porque as “dificuldades de sua vida pessoal” tinham interferido em suas metas de trabalho.

Uma ex-gerente de RH disse que teve que fazer o mesmo com uma mulher que tinha acabado de voltar de uma cirurgia grave e outra que tinha dado à luz um natimorto.

Em carta aberta aos funcionários após a publicação deste artigo no “The New York Times”, Bezos disse que a empresa não vai tolerar “práticas de gestão insensíveis”. Ele escreve: “Não reconheço essa Amazon e realmente espero que vocês também não”.

Segundo pesquisa feita em 2013 pela PayScale, empresa de análise de salários, a permanência do empregado médio na companhia é de um ano, uma das mais curtas da Fortune 500. A administração afirma que o prazo é breve porque a contratação é maciça.

“O padrão de rotatividade da Amazon é claro e consistente devido ao número desproporcional de candidatos que disputam as vagas”, afirma Nimrod Hoofien, diretor de engenharia do Facebook e veterano da Amazon, em post recente.

Muitos empregados antigos e atuais garantem que essa rotatividade não é culpa do sistema, mas, sim, resultado de uma conclusão lógica: apesar de muitos funcionários serem admitidos, muitos acabam desistindo da empresa, deixando espaço para mais contratações.

“A Amazon consegue identificar e reter os melhores que passam pela empresa. É como garimpar ouro”, diz Vijay Ravindran, que trabalhou ali por sete anos, sendo os dois últimos na supervisão da tecnologia de saída.

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