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Artista procura o futuro no passado

“Não consigo pensar em nada atual de que realmente gostaria de participar”, disse Lana Del Rey | KURT ISWARIENKO PARA THE NEW YORK TIMES
“Não consigo pensar em nada atual de que realmente gostaria de participar”, disse Lana Del Rey (Foto: KURT ISWARIENKO PARA THE NEW YORK TIMES)

Antes de começar uma turnê internacional algum tempo atrás, a compositora Lana Del Rey consultou um vidente. Ela foi instruída a escrever suas quatro perguntas com antecedência e a dormir pensando nelas. Como Del Rey contou durante entrevista, a primeira questão da lista era: "Eu tenho lugar neste mundo?". Provavelmente não é o tipo de pergunta que cantores de música pop que vendem milhões fariam a si mesmo quando as carreiras estão em clara ascensão. Neste ano, Del Rey foi convidada para cantar uma versão assustadora de "Once Upon a Dream" para "Malévola", filme da Disney, e se apresentou em Versalhes na festa pré-casamento de Kanye West e Kim Kardashian.

Porém, dúvidas, arrependimentos, desejos obsessivos e impulsos autodestrutivos costumam estar no centro das músicas e videoclipes de Del Rey. Desde seu surgimento por uma gravadora importante com a música "Video Games" em 2011 e o álbum "Born to Die", em 2012, Del Rey produziu reações apaixonadamente opostas. Ela enfrentou acusações de falta de autenticidade, amadorismo, antifeminismo e de tudo não passar de um golpe comercial. Entretanto, também reuniu, em grande medida graças ao YouTube, um público adorador em âmbito mundial.

Sem sombra de dúvida, "Ultraviolence" vai agitar mais as polêmicas, mas uma coisa que o álbum deve eliminar de imediato é a noção de que Del Rey somente está correndo atrás de sucessos. O disco vai mais fundo em sua noção de tempo em câmera lenta. O álbum se move com elegância entre a dor de cotovelo e o humor maroto, às vezes na mesma música. A música em "Ultraviolence" a afasta ainda mais do que acontece nas principais tendências do mundo pop atual. Del Rey, de 28 anos, tomou um caminho contrário, melódico e melancólico. Boa parte de sua música tem sido luxuriante e lenta, invocando trilhas sonoras vintage e ecos das décadas de 1950 e 60.

Numa referência a uma época menos computadorizada, várias faixas de "Ultraviolence" foram criadas ao redor de Del Rey e uma banda de sete integrantes gravando ao mesmo tempo. Em geral, as músicas flutuam numa neblina psicodélica que ela descreveu como "narco-swing". Dan Auerbach, guitarrista do Black Keys, produziu e tocou no disco.

Auerbach se sentiu atraído por suas músicas porque "elas pareciam velhas e novas ao mesmo tempo". Del Rey cita livremente inspirações como Frank Sinatra, Bob Dylan, Cat Power, Nirvana e Eminem, mas nenhuma delas surgiu neste século. "Pense no que está acontecendo agora?", ela indagou. "Onde vou buscar minha inspiração? Não consegui pensar em nada de hoje em dia de que realmente gostaria de participar".

Como Lizzy Grant – nascida Elizabeth Woolridge Grant – ela trabalhou como compositora desde a adolescência, e se mudou para a cidade de Nova York perseguindo "um sonho dylanesco de uma comunidade de compositores", mas não a encontrou.

Del Rey descreve seu estilo de compor de forma simples. "Eu quero uma de duas coisas. Ou dizer exatamente como foi ou projetar uma visão do futuro do jeito que espero que ele seja. Ou estou documentando ou sonhando".

As reações iradas a "Born to Die" deixou cicatrizes. "Aprendi que qualquer coisa que eu fizesse provocaria uma reação oposta", ela afirmou dando de ombros. "Eu já sei o que esperar, então não tem problema em explorar a ironia e o amargor".

Uma crítica recorrente é a de que suas músicas sobre ser dominada pelo amor eram antifeministas em sua passividade. Ela responde afirmando que compôs sobre sentimentos pessoais, sem tentar estabelecer uma doutrina. "Para mim, a verdadeira feminista é a mulher que faz exatamente o que quer." Ela também foi acusada por videoclipes que terminam com sua morte: afogada, caindo, estrangulada. O clipe de "Born to Die" acaba com ela nos braços do namorado, corpo inerte e coberto de sangue. Ela reconhece que os vídeos têm "explorado formas de morrer". "Adoro a ideia de que tudo vai terminar. É só um alívio. Tenho medo de morrer, mas quero morrer".

Diante de um Shrine lotado com o público em pé, ouviram-se gritos agudos quando ela entrou no palco, e as vozes se elevaram para acompanhá-la. A plateia era devotada, dividindo cada palavra, às vezes perto de abafá-la. No palco, Del Rey ficou parada e cantou, dançando; quando fez a única coreografia ensaiada, um único requebrar do quadril em "Body Electric", a casa veio abaixo. A adoração, no entanto, não pôs fim à solidão de suas canções. "Sim, vivo um momento diferente do que há quatro anos, mas de certa forma ainda sou a mesma. Ainda estou na periferia".

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