
Das estepes patagônicas cobertas de névoa, às densas florestas de faias, tiros podem ser ouvidos por meses a fio.
Caçadores percorrem este arquipélago na ponta da América do Sul em suas picapes em busca de sua presa: o guanaco.
O ser humano já caçou o guanaco, parente selvagem da lhama, até sua quase extinção em grandes trechos do continente. Embora a caça ao animal aqui seja legal, o abate de manadas vem provocando um acirrado debate sobre a frágil recuperação de uma espécie nativa e a influência de poderosos interesses de pecuários e madeireiros, que alegam que o crescente número de guanacos estaria competindo com ovelhas por pastos e alimentação nas florestas comerciais de madeira.
"Estamos testemunhando uma grotesca subordinação a empresários que veem uma criatura de beleza e resistência notáveis como um simples incômodo", afirmou Valeria Muñoz, ativista de direitos animais em Punta Arenas, a capital regional. "É um retorno à mentalidade do século XIX, onde a exploração madeireira e criação triunfam sobre todo o resto".
Os pecuaristas com autorização para a caça julgam-se vítimas de políticas que expandiram as manadas de guanacos nas últimas décadas. Até os anos 70, estimava-se que apenas alguns milhares de guanacos permaneciam na maior ilha da Terra do Fogo, uma área maior do que a Bélgica.
Uma ofensiva da ditadura do General Augusto Pinochet contra a posse de armas de fogo (e por extensão a caça) abriu caminho para os esforços de conservação do guanaco; o número de guanacos na parte chilena da Terra do Fogo cresceu para cerca de 150 mil, segundo o Serviço Agrícola e Pecuário do Chile. As autoridades permitiram a caça de até 4.125 guanacos este ano.
"Além de competir por comida com nossas ovelhas, hoje existem tantos guanacos na Terra do Fogo que eles representam um risco para os motoristas", explicou Eduardo Tafra, fazendeiro que prepara carne de guanaco em Cerro Sombrero, um posto avançado nas planícies.
Já chegou a haver 50 milhões de guanacos na América do Sul. Conforme os rebanhos não nativos se expandiram na Patagônia, o número de guanacos despencou, atingindo o nível atual de apenas 500 mil, declarou Cristóbal Briceño, da Universidade do Chile.
Embora o guanaco não esteja ameaçado de extinção em escala continental, é provável que desapareça de várias regiões que formam sua área de distribuição histórica, segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza.
Eles são herbívoros que comem de tudo desde cactos até liquens e fungos. As autoridades chilenas argumentam que o abate é necessário para manter uma população "sustentável" que não afete negativamente a economia regional. Os nativos da região não gostam de comer guanaco, então a maior parte da carne do animal é exportada para a Europa.
"Caçar esses animais é uma aberração que reflete as nossas prioridades distorcidas", disse Enrique Couve, presidente da câmara de turismo da Terra do Fogo.
"O guanaco é um tesouro da Patagônia, e quem tem a sorte de vê-lo fica encantado", afirmou ele. "E aqui estamos nós, vendo-o ser morto como se fosse algum tipo de praga".



