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Diretor escala o tempo como protagonista

Coltrane envelheceu em tempo real nos 12 anos em que "Boyhood" foi filmado | IFC Films
Coltrane envelheceu em tempo real nos 12 anos em que "Boyhood" foi filmado (Foto: IFC Films)
A família do filme hoje: a partir da esq., Patricia Arquette, Lorelei Linklater, Coltrane e Hawke |

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A família do filme hoje: a partir da esq., Patricia Arquette, Lorelei Linklater, Coltrane e Hawke

Há vinte anos, Ethan Hawke, com um cavanhaque desgrenhado e trajando um surrado suéter vermelho, trabalhou pela primeira vez com Richard Linklater no cenário de "Antes do Amanhecer", fazendo o papel de um romântico compulsivo que dá uma cantada ousada numa desconhecida em um trem. Durante as duas décadas seguintes, esse romantismo descuidado continuou a dar vida às carreiras excêntricas dos amigos. No total, os dois, ambos naturais do Texas, fizeram juntos oito filmes imprevisíveis. Agora vem a aposta mais audaciosa deles até hoje, "Boyhood", tão formalmente ousado que não tem precedentes (o filme será lançado mundialmente no final do ano).

"Boyhood" foi recebido com ótimas críticas e com lágrimas nos festivais de cinema. Quando estreou no BAMcinemaFest em junho, A. O. Scott do jornal The New York Times o chamou de "um dos filmes mais extraordinários de 2014, aliás, do século 21 até agora". Porém, a promoção inicial de Linklater não foi nem de perto tão bem recebida. Para dramatizar o desenvolvimento de um jovem texano dos seis aos 18 anos, da primeira série a sua chegada a faculdade, Linklater propôs uma gravação de 12 anos.

Linklater filmava as cenas conforme os atores fazendo o papel do garoto e da sua família envelheciam em tempo real. Para os pais divorciados, ele escolheu Hawke e Patricia Arquette; para a irmã mais velha, escolheu sua filha Lorelei. E para o papel do menino, Mason, que estaria na tela em todas as cenas, o diretor apostou em um desconhecido de sete anos, Ellar Coltrane, descoberto em uma audição no Texas. Embora os cineastas utilizem o poder de um astro para comprar a liberdade do risco criativo, Linklater não tinha ninguém de renome. Coltrane, filho de músicos, seria o seu astro durante 12 anos – independentemente do quanto ele mudasse.

Em vez de proteger a sua aposta com uma narrativa dinâmica, o diretor não prometeu reviravoltas no enredo. "As pessoas perguntavam, ‘Então, o que acontece?’", disse Linklater. "E eu tinha de dizer, ‘Não muito’".

Hawke contou que Linklater nunca minimizou os riscos nas reuniões comerciais: "Um financiador dizia, ‘Isso é fascinante, mas o que fará com que esse filme seja incrível?’ Rick respondia: ‘Oh, ele pode não ser. Teremos de esperar e ver’". A maioria dos filmes de amadurecimento é repleta de sexo e de crises como mortes, overdoses e crimes, mas em "Boyhood", Hawke contou, "o acontecimento é o não acontecimento". O garoto apenas cresce.

Certamente, a narrativa poderia ter tomado outro rumo. Conforme Arquette coloca: "Mason poderia ter sido viciado aos 16, e talvez passado alguns anos na prisão". "Mas, não, não existe nenhuma reviravolta no terceiro ato", ela disse. "Nem vemos quando ele perde a virgindade". Para Linklater, o filme é um "um tipo de escultura do fluxo do tempo", o que não é exatamente um gênero financiável em Hollywood. E ele se arriscou em sua concepção.

"Convenhamos, arriscamos tudo no efeito cumulativo da identificação, na ideia de que nos importaríamos com essa família e ficaríamos envolvidos com eles, não porque o cãozinho deles morreu, ou por causa de algo falso de um enredo", declarou. "Os executivos perguntavam: ‘Por que devemos nos importar com esse cara? Vamos lhe dar um defeito’. Não. Gostamos dele porque o conhecemos. Por que gostamos de nossos amigos? Porque os conhecemos".

Linklater enfrentou as perguntas óbvias sobre os perigos inerentes do filme. Fechar contratos era quase impossível, porque os atores não podiam ficar presos a um contrato por mais de sete anos; e se o jovem ator não conseguisse lidar com isso? E se um dos membros do elenco desistisse, ou pior, morresse? "Eu diria que, ‘A probabilidade de morte de qualquer uma das cinco pessoas principais, os quatro atores e eu, era realmente baixa’", declarou Linklater, que convenceu a IFC Films a disponibilizar 200 mil dólares anualmente durante 12 anos antes de investir o seu próprio dinheiro conforme os custos foram aumentando com o tempo. "Eu nunca enxerguei ‘Boyhood’ como um risco", Linklater disse. "Era uma ideia divertida para desenvolver, com a confiança de que daria certo".

No final, Linklater não poderia ter previsto como o filme terminaria. Coltrane permanece em quase todas as cenas, e o filme foi literalmente construído ao seu redor. "O projeto era mesclar o filme com Coltrane", Linklater revelou. "Eu sabia que Ellar cresceria. Só não sabia como, ou o que exatamente ele seria, mas sabia que ele seria alguém. E tive a confiança que, adicionalmente, eu lidaria com qualquer realidade que surgisse".

Dito isso, ele reconhece que escolher o ator errado poderia ser desastroso. "De fato eu acertei na loteria", Linklater afirmou. Coltrane passou muito tempo observando o que chamou de sua "outra família" – Linklater, Hawke e Arquette – enquanto pensava no tipo de homem que ele queria se tornar. E declarou, "Tendo a ser muito cínico, e algo que estou tentando aprender com tudo isso é a lição valiosa de simplesmente experimentar tudo".

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