
Numa tarde recente, uma equipe dava os toques finais num par de pássaros monumentais que haviam sido pendurados na nave da Catedral de St. John the Divine, no bairro de Morningside Heights, em Manhattan. Enquanto essas fênix pairavam a seis metros de altura, lâmpadas iluminavam penas feitas de pás, coroas feitas de capacetes de segurança e cabeças criadas com britadeiras.
No meio de tudo aquilo estava Xu Bing, o mundialmente aclamado artista chinês. Quando questionado sobre o posicionamento dos pássaros de frente para as trabalhadas portas de bronze, como se prontos para alçar voo , ele respondeu, através de um intérprete, "Se eles estivessem voltados para a igreja", referindo-se ao altar, "a montagem pareceria religiosa demais".
Todas as dinastias chinesas possuíram suas fênix. Representando sorte, unidade, força e prosperidade, esses pássaros mitológicos costumam ser criaturas benevolentes e gentis. Mas este par, construído com ferramentas de construção, reflete a face mais sombria da China hoje.
"Elas trazem incontáveis cicatrizes", explicou Xu, "pois passaram por grandes privações, mas mantiveram o respeito próprio. No geral, a fênix expressa esperanças e sonhos não realizados".
Artista conceitual de 59 anos que recebeu a chamada bolsa gênio da MacArthur Foundation, em 1999, Xu viu em primeira mão as muitas transformações da China. Durante a Revolução Cultural, seu pai, um professor da Universidade de Pequim, foi banido de seu cargo, e Xu foi enviado para o interior do país. Treze anos depois, mudou-se para os Estados Unidos, finalmente se estabelecendo em Nova York.
Em 2008, voltou ao seu país para se tornar vice-presidente da Academia Central de Belas Artes de Pequim, principal escola de arte da China.
O projeto das fênix começou em 2008, quando lhe pediram que criasse uma escultura para o prédio do Centro Financeiro Mundial, projetado pelo arquiteto Cesar Pelli em Pequim.
"Quando visitei o local da construção pela primeira vez, tive uma sensação de choque", contou Xu. "Era difícil acreditar que, com toda a tecnologia moderna disponível, o prédio ainda era construído com métodos rudimentares". As péssimas condições de trabalho dos operários migrantes "me fizeram estremecer", disse.
Xu teve uma reação tão violenta ao que viu que decidiu fazer as fênix surgindo de escombros e ferramentas de operários que obteve no local da construção.
Isso foi logo antes da crise financeira. Foi também quando o governo proibiu a circulação de caminhões e as construções, para garantir um ar mais limpo durante as Olimpíadas de Pequim.
Os construtores do edifício, temendo que as aves carregassem uma mensagem contra o desperdício, perguntaram a Xu se elas poderiam ser enfeitadas. Ele se recusou, e as fênix foram rejeitadas.
Xu seguiu em frente com os pássaros, que medem 27 metros e 30 metros de comprimento. Eles foram expostos duas vezes na China.
Judith Goldman, escritora e curadora independente, viu as fênix em Pequim. Ela decidiu que as esculturas deveriam ser expostas nos Estados Unidos e contatou a catedral, onde elas ficarão em exposição por cerca de um ano.
"Essa instalação linda e até sagrada possui poderes de transformação", afirmou o reverendo dr. James A. Kowalski, decano da St. John the Divine. "Isso não é apenas uma crítica às condições de trabalho na China. É também sobre um assunto que afeta a todos nós. É sobre o pagamento justo e salários humanos para todas as pessoas".



