
Depois que seis estudantes morreram afogados durante um ritual de passagem suspeito, surge um debate apaixonado sobre o valor desses rituais nas universidades portuguesas. Para alguns, eles ajudam a criar/reforçar laços de camaradagem e, para outros, estão ficando cada vez mais perigosos.
Desde que um corredor descobriu o corpo de Pedro Negrão, de 24 anos, no dia 26 de dezembro, na Praia do Meco, ao sul de Lisboa, a polícia ainda não conseguiu definir com precisão as circunstâncias que cercam as mortes. O rapaz tinha dito aos pais que ia se encontrar com colegas em uma casa alugada para terminar os preparativos de um trote, conhecido como "praxes", da Universidade Lusófona, fundada em 1989.
O único sobrevivente do tal encontro, o estudante João Gouveia, desde então está em tratamento psicológico e não deu ainda sua versão dos acontecimentos. Ninguém foi indiciado, disse Vítor Parente Ribeiro, advogado que representa as famílias das seis vítimas. "Acho que a universidade precisa esclarecer por que os jovens foram para a praia", diz ele.
A porta-voz da Lusófona, Eugénia Vicente, por e-mail, afirmou que "até o momento não há evidências da ligação entre qualquer atividade conduzida pela universidade e a tragédia que tirou a vida de seis dos nossos alunos."
Na universidade pública mais antiga do país, fundada em 1290 em Coimbra, a 180 km da capital, o trote tem uma tradição forte, e é o seu legado que organizações muito mais novas tentam imitar.
"Muitas das nossas universidades, principalmente as particulares, têm um ensino de baixa qualidade, então as pessoas tentam desesperadamente recriar aquela ideia de que estudar é algo especial", explica José Miguel Caldas de Almeida, professor e ex-diretor da Faculdade de Medicina da Universidade Nova, que é federal. E acrescenta: "O que testemunhei durante o tempo que fiquei na diretoria foi mais violento do que qualquer trote que vi no Exército na África, quando servi como médico militar durante as guerras das colônias".
De acordo com Pedro Lourtie, ex-Secretário de Estado para educação universitária, cerca de 70 por cento dos portugueses entre 18 e 24 anos frequentam algum curso superior, comparado com nove por cento em 1974.
Para Diana Antunes, que está estudando Música em Lisboa depois de ter se formado na cidade de Aveiro, não participar do ritual faz da pessoa um pária. Quando ainda estudava em Aveiro, ela conta ter sofrido muita pressão por ter se recusado a tomar parte de um trote que simulava uma relação sexual e outro, no qual tinha que lamber iogurte do colo de um rapaz. Sua mãe reclamou para a administração, mas nada foi feito.
Frederico Campos, líder das "praxes" da Faculdade de Direito, afirma que nenhuma das atividades do grupo são arriscadas. "Geralmente os calouros têm que jogar futebol com a perna amarrada a de outra pessoa, por exemplo, ou ter que andar pela cidade com os olhos vendados seguindo as dicas dos outros alunos", ele afirma.
O Ministro da Educação de Portugal já começou a discutir com as universidades para encontrar uma forma de lidar com o trote, mas Paula Teixeira da Cruz, Ministra da Justiça, diz que a proibição não é a solução.
Os pais de Pedro explicam que querem apenas estabelecer a responsabilidade legal pela morte do filho. Sua mãe, Maria Fátima Negrão, diz: "Queremos descobrir a verdade, mas não acabar com as praxes porque elas fazem a alegria de muitos alunos, inclusive a do meu filho, Pedro".



