
Li Haihua, nascido em uma família pobre de agricultores, levou décadas para se tornar uma das maiores autoridades nessa cidade de um milhão de habitantes, mas sua derrocada não levou mais de alguns segundos.
Ex-vice-prefeito, Li foi subindo no Departamento de Agricultura até se tornar presidente do Congresso do Povo na cidade, supervisionando o governo local. E a posição no Comitê do Partido Comunista de Xiaogan só consolidou seu poder.
Apesar disso, de acordo com a polícia, em um dia de julho passado, por volta das nove horas, ele pulou da janela de seu escritório na sede do governo, no 11« andar.
Com sua morte, Li, de 56 anos, engrossou a lista, cada vez mais longa, de autoridades chinesas que cometeram suicídio tendência que alguns pesquisadores suspeitam estar ligada à campanha anticorrupção posta em prática em 2013 pelo presidente Xi Jinping, a mais rígida das últimas décadas. Segundo a imprensa local, já são cerca de trinta os políticos que se mataram este ano.
Isso equivale a uma média de 6,9 suicídios para cada cem mil oficiais/ano, trinta por cento mais alta que a média total nas áreas urbanas do país, como indica um trabalho de Paul Yip e sua equipe para o Centro de Pesquisa e Prevenção de Suicídios da Universidade de Hong Kong.
Em outro caso recente, um ex-vice-secretário do Partido Comunista de Hohhot, capital da região da Mongólia Interior, cortou os pulsos em seu escritório.
"Muitos deles têm vários tipos de problemas com corrupção e o risco de ser investigado está sempre presente", diz Qi Xingfa, pesquisador da Universidade Normal do Leste da China em Xangai, que estuda o fenômeno. "Eles lêem a respeito de um caso no jornal pela manhã e, à tarde, ficam sabendo que a pessoa foi presa. É realmente assustador e o pessoal já não sabe se vai sobreviver até o fim do dia".
No caso de Li, os investigadores de Hubei na capital da província, Wuhan, vinham analisando suas finanças desde fevereiro, se concentrando principalmente nos acordos imobiliários e de agronegócios; alguns envolviam até seu irmão mais novo, que trabalhava em uma grande empresa alimentícia.
E tinham planejado prendê-lo em uma reunião na manhã em que se suicidou. A polícia disse que ele deixou um bilhete no qual revelava sofrer problemas de saúde, mas Pan Zefu, jornalista de The Paper, uma nova publicação on-line especializada em corrupção, revelou que antigos colegas contaram que ele também pediu ao Partido Comunista que o perdoasse e protegesse sua família.
Cerca de 32 políticos do alto escalão foram investigados ou punidos em toda a China no primeiro semestre do ano, conta Wang Xiaoling, diretor da agência anticorrupção na cidade de Guangzhou em agosto, mas o total pode chegar a milhares.
A punição geralmente significa ser preso e talvez coisa pior: a vergonha.
"A atitude ainda é de tolerância com quem confessa e austeridade com quem nega", explica Liao Ran, coordenador do programa para o Leste da Ásia da Transparency International, ONG situada em Berlim. A tortura não é incomum, dizem ex-políticos e ativistas, embora a maioria confesse muito antes de ela ocorrer.
O medo da punição e da desgraça pode explicar apenas em parte esse alto índice. Para os pesquisadores, em muitos casos os políticos acabam se matando para proteger a mulher, os filhos e os pais, na esperança que eles sobrevivam com dignidade e não percam a fortuna.
"Fiquei com pena dele. Sem dúvida, esses políticos têm problemas. São corruptos, mas esse é um problema herdado. Além do mais, há muita gente por trás deles, fazendo pressão para levar alguma vantagem também," diz Pi Xin.
Outros são menos razoáveis.
"Li Haihua mereceu morrer. Ele era corrupto", diz Liu Dong, um homem de trinta e poucos anos.



