
Há muitos anos, sob a copa de uma árvore frondosa que fica no meio desse povoado, o chefe da aldeia resolve as diferenças entre moradores com sermões, conselhos e um ou outro castigo ocasional.
Segundo a polícia, isso foi o que aconteceu aqui este mês: um jovem se esgueirou para dentro de uma cabana durante a noite e agarrou Suguna Devi, filha casada do chefe da vila, antes que ela pudesse gritar, acordar a aldeia toda e ele, fugir.
No dia seguinte, os moradores esperaram para ver a punição que o chefe imporia ao agressor até que, no meio da tarde, eles viram o marido de Suguna arrastando a irmã de treze anos do jovem criminoso para fora da casa da família da menina, rumo à floresta, onde a estuprou.
"Minha mulher chorou muito, mas ninguém estava nem aí", conta o pai, Munna Pasi, de 62 anos. "Minha filha só dizia: Por favor, me salvem, mas ninguém fez nada. Todo mundo ficou cego e surdo quando ele começou a levar minha menina".
O caso é mais um na série de barbáries que vêm ocorrendo em vilarejos remotos na Índia, distantes das delegacias, onde as formas de justiça tradicional ainda imperam.
As autoridades prenderam Ghosal Pasi, de 45 anos, chefe da vila, suspeito de ter ordenado a brutalidade, e o genro, Nakabandi Pasi, suspeito de cometer o estupro.
O irmão da menina, Harendra Pasi, está detido, suspeito de agressão a Suguna Devi que não faz nada a não ser chorar, largada na rede. Com lágrimas correndo pelas faces ela diz que, se pelo menos o pai fosse solto, certamente não distribuiria mais punições a ninguém.
Mas há quem diga que é bobagem esperar o fim desse tipo de justiça primitiva.
"Essa é a prática que o pessoal usa para resolver disputas e problemas", conta Vinod Vishwakarma, chefe do conselho que delibera no território que inclui a aldeia. Recentemente houve outros casos de abuso sexual imposto como punição: em janeiro, quando uma mulher na Bengala Ocidental foi flagrada com um homem casado, o líder da comunidade a enviou para uma cabana onde foi estuprada repetidas vezes por cerca de quinze homens, conta a polícia. No mesmo mês, na província paquistanesa de Punjab, um conselho de castas ordenou o estupro de uma mulher de 45 anos depois que o irmão dela foi acusado do mesmo crime.
Os moradores de Swang Gulgulia Dhoura, membros da casta de intocáveis dalit que tradicionalmente ganham dinheiro só com esmolas, vivem praticamente isolados do resto da sociedade. Quando o voluntário humanitário Anant Das começou a estimular as crianças locais a frequentarem a escola, ficou chocado ao perceber que ninguém sabia quando eram os feriados nacionais e que a maioria não conseguiu identificar o primeiro-ministro Jawaharlal Nehru. "Ninguém conhece essas pessoas. Elas não têm estudo, nem são tratadas como seres humanos", disse Das.
A vítima, uma menina magrinha com o cabelo preso em um longo rabo de cavalo, apenas abria e fechava as mãos enquanto os adultos discutiam o que tinha acontecido a ela. Munna Pasi, seu pai, explicou que o filho, Harendra, tinha consumido um tipo de cerveja de arroz e entrou de fininho, seminu, na casa de Suguna Devi, onde tentou molestá-la.
Na manhã seguinte, bem cedinho, Pasi conta ter procurado o chefe para fazer um acordo, mas, como não obteve resposta, foi para o trabalho, na mina de carvão.
A polícia conta que, enquanto ele estava fora, o líder então deu o seu veredito.
Sunita Devi, vizinha da família, diz que ouviu os gritos da menina, sim, mas não fez nada porque "não sabia se ele ia estuprá-la". Quarenta e cinco minutos depois a pequena voltou para a casa dos pais, mancando, e ainda teve que caminhar uma hora para chegar à delegacia mais próxima.
Em entrevistas, os parentes do chefe da aldeia negam que ele tenha ordenado a agressão ou tenha visto a menina ser arrastada sem fazer nada.
A administração do distrito colocou dois guardas armados na porta da cabana da vítima e vários políticos passaram por ali pra oferecer pequenas quantias em dinheiro e sacos de alimentos. Munna Pasi, o rosto enrugado sério, disse que os familiares do chefe o assediam constantemente, pedindo que retire as acusações.
"Quando foi com a minha família e a minha filha, ninguém fez nada para ajudar. Por que é que eu vou ter pena de alguém?", disse ele.
Contribuiu Hari Kumar



