
A Biblioteca Augusto Pinochet Ugarte, situada no belo gramado da Academia Militar, dá as boas-vindas aos visitantes com um retrato a óleo do próprio ditador. A pintura do general, cujo governo matou e/ou fez sumir mais de três mil pessoas e torturou outras 40 mil, fica sobre o balcão. Ali se encontram livros de sua coleção pessoal, parte da qual ele doou à academia antes de renunciar em 1990, depois de 17 anos no poder.
A descoberta de que usou dinheiro público para montar uma das maiores e mais valiosas coleções de livros é particularmente chocante.
"Pinochet era atormentado por um complexo de inferioridade atroz, com o qual tentava lidar colecionando livros", diz Cristóbal Peña, cujo livro, "La Secreta Vida Literária de Augusto Pinochet", explora a evolução da biblioteca do ditador, que incluía 50 mil exemplares e foi avaliada em US$3 milhões.
O general encontrava suas preciosidades graças a uma pequena rede de livreiros no centro velho de Santiago ou pedia a funcionários das embaixadas no exterior que encontrasse raridades e incluía o gasto nas despesas discricionárias. A biblioteca talvez jamais fosse descoberta se não fossem as investigações sobre suas contas bancárias secretas, nas quais se acredita haver mais de US$20 milhões. Ele foi acusado de apropriação indébita e evasão fiscal, além de enfrentar uma batalha judicial por abuso de poder antes de sua morte, em 2006, aos 91 anos.
A biblioteca a princípio não foi notada porque seu conteúdo estava espalhado entre várias casas, uma fundação criada em sua honra e a Academia Militar. "Tive o privilégio de conhecer o General Augusto Pinochet a fundo e apreciar suas qualidades como um homem honrado", afirma Roberto Mardones, diretor da Fundação Presidente Pinochet, ONG que recebeu uma parte da biblioteca.
Pinochet tinha muitas obras da era napoleônica, incluindo uma edição de 1841, no francês original, de "Études Sur Napoléon", de Marie Élie Guillaume de Baudus, e outros títulos traduzidos para o espanhol. Ele adquiriu também tomos coloniais raros, mas quase nenhuma poesia ou ficção.
Embora a descoberta tenha levado muita gente a alegar que o ditador era uma figura mais complexa do que se acreditava, há quem afirme que a existência de uma coleção de livros não é motivo para que se reavalie sua capacidade intelectual, inclusive questionando a leitura de todas as obras que possuía.
"Pinochet era intelectualmente medíocre, mas muito astuto, geralmente escondendo os olhos por trás dos óculos escuros", conta Heraldo Muñoz, funcionário da ONU que fazia parte do governo de Salvador Allende antes do golpe de 1973. Apesar de possuir uma cópia autografada do livro escrito pelo general, "Geopolítica de Chile", não era seu fã e revela Pinochet era capaz dos erros mais estapafúrdios. "Na primeira edição, ele confundiu o estado de Washington com Washington, a capital dos EUA", conta.
Pascale Bonnefoy contribuiu para a reportagem



