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População pensa na cidade, não no Estado

Os moradores de Hong Kong se veem como asiáticos ou cidadãos do mundo antes de se considerarem chineses | Ed Jones/Agence France-Presse — Getty Images
Os moradores de Hong Kong se veem como asiáticos ou cidadãos do mundo antes de se considerarem chineses (Foto: Ed Jones/Agence France-Presse — Getty Images)

Se há uma frase que define os protestos que tomaram conta de Hong Kong, aparecendo em cartazes e camisetas, certamente é: "O povo de Hong Kong".

"Eu não diria que rejeito minha identidade chinesa porque nunca me senti chinesa. As gerações mais novas não se veem como chinesas", diz Yeung Hoi-kiu, de vinte anos. Mais de 90 por centro da população de Hong Kong é etnicamente chinesa, mas se perguntar a alguém como se considera, certamente responderá dizendo honconguês primeiro – talvez asiático ou cidadão do mundo – mas nunca chinês.

O Partido Comunista Chinês vem brigando com a questão da identidade desde que a Grã-Bretanha devolveu o controle dessa capital mundial das finanças, mas o que os protestos liderados por estudantes mostram é que os esforços de Pequim saíram pela culatra.

O conflito serviu para reforçar a identidade de Hong Kong, já fortalecida nos últimos anos pelo que muitos viram como ataques cada vez mais intensos da China contra seus valores políticos, culturais e o bem-estar econômico. Muitos daqueles que sentiram orgulho ao verem o fim de 156 anos do regime colonial britânico, em 1997, com a devolução de Hong Kong à China, hoje dizem que preferem se identificar com a cidade e não com o país a que pertencem.

"Não queremos nos associar com a China comunista; ela destruiu a cultura do país", diz Euler Cheung, de 38 anos, na barraca principal montada para o protesto, em Mong Kok.

A centelha que deu origem à Revolução dos Guarda-Chuvas é política: os manifestantes querem que Pequim garanta aos honcongueses eleições livres e diretas para governador em 2017 – mas as paixões que levaram as pessoas à ruas se baseiam no desejo de preservação de uma identidade distinta, principalmente em aspectos como a aplicação de leis, liberdade de expressão e de imprensa, infraestrutura financeira, instituições anticorrupção, educação, a manutenção do idioma cantonês e a influência ocidental.

Uma pesquisa feita em junho por pesquisadores da Universidade de Hong Kong mostrou um aumento este ano do número de pessoas que se identificam como honcongueses, enquanto que o das que se dizem "chinesas" e "cidadãos da República Popular da China" caiu ao nível mais baixo desde 1997 e 2007.

Essa diferenciação é reforçada pela dominância duradoura dos cantoneses e sua cultura popular – cinema, música e TV – que não é só apreciada por quem vive ali como por quem imigrou, mantendo uma unidade em relação à cidade e não ao país. Muita gente que mora fora voltou para engrossar os protestos.

Hong Kong, de forma geral, não busca a independência da China. Mesmo Jimmy Lai, o magnata da imprensa pró-democracia que também é crítico feroz do Partido Comunista, disse que Hong Kong "não pode nunca se separar da China". "O que temos que fazer é manter nossas diferenças, os valores que são legado do nosso passado colonial inglês", afirma.

Para muitos, um evento – o massacre da Praça da Paz Celestial, em 1989 – denegriu praticamente tudo o que o Partido Comunista fez desde então. "Seria melhor ser governado por um país democrático. Não gosto da ideia de estar sob uma nação que massacra seu próprio povo", diz Jeff Leung, de 23 anos. Rowena Leung, professora de 32 anos, diz se lembrar de ter visto o horror pela TV. "Minha mãe me disse: ‘Você não imagina a sorte que tem de estar em Hong Kong e não na China.’"

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