
A depressão pós-parto nem sempre é pós-parto. Nem sequer é sempre depressão. Um corpo de pesquisa crescente está mudando a própria definição de doença mental materna, demonstrando que é mais comum e variada do que se pensava.
Cientistas dizem que novas descobertas contradizem a antiga visão segundo a qual os sintomas começam somente algumas semanas após o parto. Na verdade, a depressão geralmente tem início durante a gravidez, asseguram pesquisadores, e pode se instalar a qualquer momento no primeiro ano após o nascimento.
Estudos recentes também mostram que o alcance dos distúrbios que as mulheres enfrentam é mais amplo do que se pensava anteriormente. Estudos sugerem que no ano seguinte ao parto, pelo menos uma em oito e até uma a cada cinco mulheres desenvolvem sintomas de depressão, ansiedade, transtorno bipolar, transtorno obsessivo-compulsivo ou uma mistura deles. Embora os estudos revelem pistas sobre quem é mais vulnerável, existem vários casos que parecem surgir do nada.
Às vezes os casos são brandos, resolvendo-se sem tratamento, mas uma grande análise de 30 estudos estimou que aproximadamente um quinto das mulheres tivesse um episódio de depressão no ano posterior ao parto, metade das quais com sintomas sérios.
Jeanne Marie Johnson, 35 anos, de Portland, no Oregon, teve uma gravidez feliz, mas começou a ter visões logo após o nascimento da filha, Pearl. Ela contou que se imaginava sufocando a filha enquanto a amamentava, atirando-a contra um ônibus ou "jogando-a contra a parede".
Johnson se disse horrorizada com a ideia de machucar o neném e não levou a cabo os atos que via. Contudo, ao olhar o rinque de patinação de um shopping center, "me vi inclinada sobre a passarela e deixando-a cair para se espatifar como uma melancia".
A maioria das mulheres que vivenciam esses "pensamentos intrusivos", como os especialistas os chamam, nunca machucam os filhos. Algumas tomam medidas radicais para protegê-los. Uma mulher "desceu sentada as escadas durante meses porque se imaginava jogando o filho", contou Wendy N. Davis, diretora executiva da ONG Postpartum Support International.
Porém, estudos indicam que o estresse materno pode enfraquecer a capacidade feminina de formar vínculos ou cuidar dos filhos, afetando a saúde emocional e cognitiva da criança.
Cientistas investigam as causas da depressão materna
Segundo cientistas, uma interação complexa de genes, estresse e hormônios é a causa do problema. "Os hormônios aumentam mais de cem vezes na gravidez", disse a dra. Margaret Spinelli, diretora do Programa Feminino da Universidade Columbia, em Nova York. Após o nascimento, os hormônios despencam, numa montanha-russa que pode "tumultuar a química cerebral".
Algumas mulheres estão geneticamente predispostas a reagir intensamente a mudanças hormonais. E algumas são mais sensíveis a estresses como dificuldades com família, finanças, nascimento e criação dos filhos.
A doença mental materna não é nova. Ela foi reconhecida no século cinco antes de Cristo, quando Hipócrates propôs que o fluído uterino poderia ir para a cabeça depois do parto e causar delírio. Na Idade Média, as mães com tais sintomas eram vistas como bruxas ou vítimas de feitiçaria. Na década de 1920, uma teoria freudiana atribuiu esses distúrbios de humor à frigidez, homossexualidade reprimida ou impulsos incestuosos.
A compreensão científica continua a evoluir. A edição mais recente do periódico "Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders", referência consagrada para doenças psiquiátricas, afirma que os sintomas costumam incluir "ansiedade severa e até mesmo ataques de pânico", estimando que metade dos casos considerados como depressão pós-parto grave na verdade começa durante a gravidez.
De acordo com estudo de 2013, o maior levantamento de depressão pós-parto até agora, a dra. Katherine L. Wisner e colegas da Universidade Northwestern, em Illinois, descobriram que 14 por cento de dez mil mulheres tiveram depressão de quatro a seis semanas depois do parto, mas que no caso de um terço delas, os sintomas começaram durante a gravidez.
Outra pesquisa indicou que os sintomas poderiam surgir a qualquer momento no primeiro ano.
Um estudo de 2013 avaliou 461 mulheres em dois instantes, duas semanas e seis meses após o parto, e contatou que nos dois casos, 11 por cento tinham sintomas obsessivo-compulsivos, perto de quatro vezes acima da média da população feminina como um todo. Porém, "não foram os mesmos 11 por cento", disse uma das autoras, a dra. Dana Gossett, chefe de ginecologia e obstetrícia da Northwestern. "Metade melhorou antes de seis meses e a outra metade desenvolveu transtorno obsessivo-compulsivo".
A pesquisa também demonstra que as mulheres podem ter vários distúrbios psiquiátricos severos ao mesmo tempo.
Emily Guillermo, de 23 anos, de Horizon City, no Texas, teve uma boa experiência com o primeiro filho, ainda que o marido estivesse servindo o exército no Iraque e tivesse acompanhado o nascimento de Christopher pelo Skype. Então, apesar de usar anticoncepcional, ela engravidou novamente. Guillermo e o marido concordaram em abortar, mas mudaram de ideia quando souberam que ela já estava na 20ª semana de gravidez. Ela disse que ficou deprimida, com a sensação de que "meu corpo havia sido invadido". Quando Benjamin nasceu, Guillermo pensou que "ele não deveria ter sido concebido".
Durante vários banhos, "mantive a água sobre seu rosto até que ele começasse a se debater, não conseguindo respirar. Eu ouvia uma voz me dizer: Afogue-o que ele vai parar de chorar. Ele não vai perturbar a soneca do Christopher".
Algo a fazia parar, mas durante alguns segundos, ela não conseguia se lembrar "se eu o havia matado, se ele havia se afogado ou o que eu havia feito". Benjamin ficou assustado. "Quando eu entrava no quarto dele, ele começava a chorar".
Guillermo tentou uma vez pular de um carro enquanto o marido dirigia, mas ele a impediu dizendo: "Você vai amar o Benjamin. Você só precisa tomar a medicação certa".
Por fim, uma combinação de remédios com a ajuda da Postpartum Support International, deu certo quando Benjamin tinha nove meses de idade.
No caso de Johnson, ela disse que tinha sentimentos suicidas e que fugia da emoção bebendo. Por fim, aceitou tomar remédios. Em conjunto com um grupo de apoio, a combinação funcionou. Agora, sua relação com Pearl, de dois anos, é amorosa e descomplicada, relatou Johnson, que se consulta com um terapeuta, mas não toma mais remédios.
Ela disse que "ainda existem momentos no fim do dia em que estou sem energia, mas mesmo em momentos de grande estresse, não tive mais sentimentos de pânico nem pensamentos intrusivos. É uma diferença muito grande".



