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Encontro com Trump

O que é a “Armadilha de Tucídides”, que Xi citou ao falar da relação entre China e EUA

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O presidente dos EUA, Donald Trump, recebendo o ditador da China, Xi Jinping, na Casa Branca. (Foto: JIM LO SCALZO/EFE)

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O ditador da China, Xi Jinping, recorreu nesta quinta-feira (24) a uma teoria inspirada em uma guerra ocorrida há quase 2,5 mil anos para falar sobre um dos principais riscos na relação entre seu país e os Estados Unidos: uma disputa entre duas grandes potências acabar levando a um confronto direto.

Durante a cerimônia de recepção na Casa Branca, antes da reunião com o presidente americano Donald Trump, Xi afirmou que a competição entre China e Estados Unidos deveria permanecer dentro de certos limites e defendeu a manutenção do diálogo entre as Forças Armadas dos dois países para evitar crises.

“A Armadilha de Tucídides pode ser superada”, afirmou o líder chinês.

A expressão se refere ao risco de guerra que pode surgir quando uma potência em rápida ascensão passa a ameaçar a posição ocupada por uma potência dominante. Nas relações internacionais, ela é usada principalmente para analisar a rivalidade entre a China, que expandiu seu peso econômico, tecnológico e militar nas últimas décadas, e os Estados Unidos, principal potência global desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Uma guerra da Grécia Antiga deu origem à teoria

O nome da teoria vem do historiador grego Tucídides, que viveu no século V antes de Cristo e registrou a Guerra do Peloponeso, confronto travado entre Atenas e Esparta e seus respectivos aliados entre 431 e 404 a.C. Na interpretação de Tucídides, havia várias disputas imediatas por trás desta guerra, mas uma mudança mais profunda havia criado as condições para o conflito: Atenas estava se tornando cada vez mais poderosa, enquanto Esparta temia perder sua posição predominante.

Ao descrever o que considerava a causa mais profunda da guerra, Tucídides apontou justamente para o crescimento do poder ateniense e o medo que ele provocava nos espartanos. Séculos depois, essa dinâmica seria transformada em uma espécie de modelo para analisar rivalidades entre grandes potências.

A expressão moderna “Armadilha de Tucídides” foi popularizada pelo cientista político americano Graham Allison, professor da Universidade Harvard e ex-subsecretário de Defesa dos Estados Unidos. Em setembro de 2015, Allison publicou uma análise no Belfer Center da Harvard Kennedy School sobre a possibilidade de Estados Unidos e China repetirem o padrão observado em disputas anteriores entre uma potência em ascensão e outra já estabelecida. Dois anos depois, desenvolveu a ideia no livro Destined for War: Can America and China Escape Thucydides's Trap? (“Destinados à Guerra: Estados Unidos e China podem escapar da Armadilha de Tucídides?”, em tradução livre).

No livro, Allison analisa 16 episódios ocorridos nos últimos 500 anos em que uma potência em ascensão ameaçou deslocar outra que ocupava uma posição dominante. Em 12 deles, a rivalidade terminou em guerra; nos outros quatro, o confronto militar foi evitado. Allison vê a atual disputa entre China e Estados Unidos como mais um caso desse tipo, mas afirma que uma guerra entre os dois países pode ser evitada.

Por que a teoria é aplicada a China e Estados Unidos

Na comparação proposta por Allison, a China ocupa atualmente a posição da potência em ascensão, enquanto os Estados Unidos representam a potência estabelecida. O avanço econômico chinês foi acompanhado nas últimas décadas pela modernização de suas Forças Armadas, pela ampliação de sua influência internacional e pela disputa com Washington em setores considerados estratégicos, como inteligência artificial, semicondutores, comércio e minerais críticos.

Os dois países também mantêm divergências capazes de provocar crises militares, principalmente em torno de Taiwan. Durante a reunião desta quinta-feira na Casa Branca, Xi voltou a pressionar Washington sobre a ilha e pediu aos Estados Unidos que se oponham à independência taiwanesa. Pequim considera Taiwan, ilha governada democraticamente, parte de seu território, enquanto Washington mantém relações não oficiais com Taipei e é seu principal fornecedor de armas.

Antes da conversa a portas fechadas, Xi associou diretamente sua referência a Tucídides à necessidade de impedir que disputas desse tipo escapem ao controle. Segundo ele, os militares dos dois países deveriam manter diálogo regular e melhorar os mecanismos de comunicação e prevenção de crises. O ditador chinês também afirmou que a competição entre Washington e Pequim deveria funcionar como uma disputa para que cada lado avance, e não como uma luta na qual um deles precise necessariamente perder.

Xi fala sobre a “armadilha” há mais de uma década

Xi já usa a expressão há mais de dez anos. Em 2015, durante uma visita aos Estados Unidos, afirmou que a “Armadilha de Tucídides” não era inevitável, mas poderia surgir a partir de sucessivos erros de cálculo entre grandes potências.

Durante a visita de Trump a Pequim no começo deste ano, Xi questionou se a China e os Estados Unidos conseguiriam superar a armadilha. Na ocasião, o ditador comunista perguntou se ambos os países poderiam criar “um novo paradigma de relações entre grandes países”. Nesta quinta-feira, em Washington, Xi transformou a pergunta em uma afirmação ao dizer que a armadilha “pode ser superada”.

Trump e Xi discutem Taiwan, Irã, comércio e inteligência artificial na Casa Branca

Na reunião desta quinta-feira, Trump e Xi trataram de algumas das principais fontes de tensão entre Estados Unidos e China, entre elas Taiwan, comércio, segurança e a disputa tecnológica em torno da inteligência artificial (IA). Antes do encontro a portas fechadas, Trump afirmou que os dois discutiriam questões urgentes nessas áreas e disse que Washington e Pequim vinham trabalhando para tornar a relação comercial mais equilibrada.

Taiwan esteve entre os assuntos abordados no encontro. Segundo o relato divulgado pelo regime chinês após a conversa, Xi pediu que os Estados Unidos se oponham à independência da ilha e tratem a questão com “prudência”.

Os dois também discutiram a guerra no Irã. o ditador chinês defendeu que Washington e Teerã retomem as negociações e afirmou que a China apoia um acordo mais amplo que inclua a questão nuclear e outros pontos de disputa. Em relação à IA, Xi defendeu que o avanço da tecnologia permaneça "sob controle humano". A fala ocorre dias após gigantes de IA dos EUA alertarem para o controle estatal sobre a tecnologia por medo de que ela avance além do que o ser humano pode controlar.

Trump classificou o encontro com Xi como uma “ótima reunião”. O presidente americano não detalhou imediatamente eventuais acordos. A conversa na Casa Branca durou cerca de 3 horas. Trump destacou a relação pessoal com Xi, que definiu como uma “amizade extraordinária”.

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