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América do Sul

Olhar do Brasil para os vizinhos

Especialistas analisam o que o Brasil deve fazer e evitar na relação com os parceiros sul-americanos

A nacionalização das refinarias da Petrobras na Bolívia, em 2007, foi um evento que colocou à prova o governo brasileiro entre ceder ou fazer exigências ao país vizinho | David Mercado/Reuters
A nacionalização das refinarias da Petrobras na Bolívia, em 2007, foi um evento que colocou à prova o governo brasileiro entre ceder ou fazer exigências ao país vizinho (Foto: David Mercado/Reuters)
Veja os principais compradores do Brasil e os números das exportações brasileiras |

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Veja os principais compradores do Brasil e os números das exportações brasileiras

Nem paternalista, nem imperialista. O rumo que o Brasil precisa dar às relações com os países vizinhos é a integração, tanto econômica, quanto cultural. Diante das crises nas grandes potências, ter laços estreitos com países da América Latina e principalmente da América do Sul pode garantir o desenvolvimento brasileiro. No primeiro trimestre de 2011, a região da América Latina e Caribe foi a segunda (23,6%) que mais comprou produtos ex­­portados pelo Brasil, atrás so­­mente da Ásia (26,1%). "O que mantém o crescimento do Brasil é ter construído parcerias com os vizinhos", analisa o professor de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), de São Paulo, Eval­­do Alves. "No passado, tínhamos tradição de olhar para os Estados Unidos e para a Europa de costas para os que estão mais perto. Mas, agora, a proximidade com países da América Latina até atenuou efeitos da crise", acrescenta.

Para o professor Marco Villa, do departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), o Brasil precisa evitar dois tipos de extremos.

"Há a ideia paternalista e o oposto, que é a ideia de domínio. O Brasil não exerce qualquer espécie de exploração sobre os vizinhos, mas é a maior economia da região e é natural que faça negócios com os países próximos", observa.

Alves também chama atenção para os danos caso a postura brasileira seja arrogante ou concessiva demais. "Não podemos achar que somos os maiores e temos todo o poder. Visão imperialista não constrói". A aposta do professor da FGV são as negociações feitas com simetria, vantajosas para os dois lados e que ambos concordem em ceder quando for necessário.

Por outro lado, o Brasil não pode se responsabilizar pelo desenvolvimento dos países vizinhos. "Também não podemos assumir uma postura paternalista, como a que causou a crise eu­­ropeia. Lá, acharam que os maiores têm que sustentar os menores. Cada país é soberano, tem que resolver os seus problemas", acrescenta Alves.

Para Villa, hoje o Brasil está muito mais voltado ao paternalismo, como ocorreu nos casos da nacionalização das refinarias na Bolívia, em 2007. "Faltou defesa do interesse nacional. Me­­nos de um décimo do investimen­­to que a Petrobras fez foi compensado", diz.

Por outro lado, o intercâmbio cultural, que poderia ser mais intenso e até gerar mais dividendos para economia, ainda patina. "Deveria haver uma relação mais próxima. A integração cultural é nula", critica Villa.

O professor do departamento de Economia da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Luciano Nakabashi considera que não há grande envolvimento do Brasil com países da América do Sul. "Desde a década de 1990, são feitas tentativas de união, como o Mercosul, mas não vemos muitos efeitos práticos". Para ele, o bom fluxo de negócios com a Argen­tina, por exemplo, se dá pela proximidade geográfica e por se tratar de um país mais desenvolvido na região e não por um esforço real de aproximação com países vizinhos. A Argentina é o terceiro principal comprador de produtos brasileiros, responsável por 9,3% do total.

A situação política na região também influencia no quanto os empresários se interessam e ar­­riscam investir, especialmente nos países da América do Sul, que têm democracias recentes e algumas situações de instabilidade, como é o caso da Venezuela com a doença de Hugo Chávez. Ainda assim, Villa é otimista. "Temos um subcontinente em que a de­­mocracia nunca esteve tão presente", diz.

A ideia de que o Brasil está em um momento de grande crescimento e com possibilidades de ex­­pandir os negócios na região é rebatida por Villa. "O nosso bom momento é bom ‘vírgula’. Com­­parando com Índia e China, o crescimento do Brasil é muito pequeno."

O professor da Ufscar também critica a postura do governo Dilma. "É como se estivéssemos em inércia, não há toque pessoal, não há proposta original. Só es­­tão levando. Pensam que se foi bem no passado, vai continuar indo", diz.

Independentemente das posturas políticas, Nakabashi lembra que o câmbio muito valorizado que torna os produtos brasileiros muito caros é um obstáculo. Além disso, ele destaca que é preciso arrumar a casa primeiro. "Temos melhorado, aproveitamos uma conjuntura favorável, de estabilidade macroeconômica. Mas temos que fomentar a in­­dustrialização aqui dentro, fazer com que o país seja mais competitivo".

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