
Nem paternalista, nem imperialista. O rumo que o Brasil precisa dar às relações com os países vizinhos é a integração, tanto econômica, quanto cultural. Diante das crises nas grandes potências, ter laços estreitos com países da América Latina e principalmente da América do Sul pode garantir o desenvolvimento brasileiro. No primeiro trimestre de 2011, a região da América Latina e Caribe foi a segunda (23,6%) que mais comprou produtos exportados pelo Brasil, atrás somente da Ásia (26,1%). "O que mantém o crescimento do Brasil é ter construído parcerias com os vizinhos", analisa o professor de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), de São Paulo, Evaldo Alves. "No passado, tínhamos tradição de olhar para os Estados Unidos e para a Europa de costas para os que estão mais perto. Mas, agora, a proximidade com países da América Latina até atenuou efeitos da crise", acrescenta.
Para o professor Marco Villa, do departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), o Brasil precisa evitar dois tipos de extremos.
"Há a ideia paternalista e o oposto, que é a ideia de domínio. O Brasil não exerce qualquer espécie de exploração sobre os vizinhos, mas é a maior economia da região e é natural que faça negócios com os países próximos", observa.
Alves também chama atenção para os danos caso a postura brasileira seja arrogante ou concessiva demais. "Não podemos achar que somos os maiores e temos todo o poder. Visão imperialista não constrói". A aposta do professor da FGV são as negociações feitas com simetria, vantajosas para os dois lados e que ambos concordem em ceder quando for necessário.
Por outro lado, o Brasil não pode se responsabilizar pelo desenvolvimento dos países vizinhos. "Também não podemos assumir uma postura paternalista, como a que causou a crise europeia. Lá, acharam que os maiores têm que sustentar os menores. Cada país é soberano, tem que resolver os seus problemas", acrescenta Alves.
Para Villa, hoje o Brasil está muito mais voltado ao paternalismo, como ocorreu nos casos da nacionalização das refinarias na Bolívia, em 2007. "Faltou defesa do interesse nacional. Menos de um décimo do investimento que a Petrobras fez foi compensado", diz.
Por outro lado, o intercâmbio cultural, que poderia ser mais intenso e até gerar mais dividendos para economia, ainda patina. "Deveria haver uma relação mais próxima. A integração cultural é nula", critica Villa.
O professor do departamento de Economia da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Luciano Nakabashi considera que não há grande envolvimento do Brasil com países da América do Sul. "Desde a década de 1990, são feitas tentativas de união, como o Mercosul, mas não vemos muitos efeitos práticos". Para ele, o bom fluxo de negócios com a Argentina, por exemplo, se dá pela proximidade geográfica e por se tratar de um país mais desenvolvido na região e não por um esforço real de aproximação com países vizinhos. A Argentina é o terceiro principal comprador de produtos brasileiros, responsável por 9,3% do total.
A situação política na região também influencia no quanto os empresários se interessam e arriscam investir, especialmente nos países da América do Sul, que têm democracias recentes e algumas situações de instabilidade, como é o caso da Venezuela com a doença de Hugo Chávez. Ainda assim, Villa é otimista. "Temos um subcontinente em que a democracia nunca esteve tão presente", diz.
A ideia de que o Brasil está em um momento de grande crescimento e com possibilidades de expandir os negócios na região é rebatida por Villa. "O nosso bom momento é bom vírgula. Comparando com Índia e China, o crescimento do Brasil é muito pequeno."
O professor da Ufscar também critica a postura do governo Dilma. "É como se estivéssemos em inércia, não há toque pessoal, não há proposta original. Só estão levando. Pensam que se foi bem no passado, vai continuar indo", diz.
Independentemente das posturas políticas, Nakabashi lembra que o câmbio muito valorizado que torna os produtos brasileiros muito caros é um obstáculo. Além disso, ele destaca que é preciso arrumar a casa primeiro. "Temos melhorado, aproveitamos uma conjuntura favorável, de estabilidade macroeconômica. Mas temos que fomentar a industrialização aqui dentro, fazer com que o país seja mais competitivo".



