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Por décadas, os cometas foram considerados possíveis responsáveis por trazer à Terra as moléculas orgânicas fundamentais para o surgimento da vida. A ideia, conhecida como uma das hipóteses para explicar a origem da vida na Terra, ganhou força porque esses corpos celestes carregam compostos que poderiam participar das reações químicas que antecederam os primeiros organismos.
Os resultados, publicados na revista Scientific Reports, porém, indica que esse processo pode ter sido muito mais difícil do que se imaginava.
Pesquisadores liderados pela Universidade de Cambridge, no Reino Unido, usaram simulações computacionais para analisar o que aconteceria com moléculas prebióticas durante a entrada de cometas na atmosfera e o impacto contra a superfície terrestre.
A conclusão é que os cometas provavelmente viajavam rápido demais e atingiam a Terra em ângulos pouco favoráveis para que essas moléculas sobrevivessem em quantidade suficiente. Isso não elimina completamente a possibilidade de participação dos cometas, mas torna esse cenário extremamente raro.
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Por que, segundo pesquisadores, seria tão difícil a vida sobreviver a um impacto?
Para investigar a hipótese, os cientistas concentraram as simulações no cianeto de hidrogênio (HCN), uma molécula encontrada em cometas do Sistema Solar e considerada importante para a química prebiótica – conjunto de processos químicos que pode ter precedido o surgimento da vida.
Os modelos levaram em conta a velocidade e o ângulo dos impactos, além da interação dos cometas com a atmosfera. Segundo os pesquisadores, mesmo que parte do HCN conseguisse resistir à passagem pela atmosfera e ao impacto, seria difícil que a molécula chegasse ao solo em concentração suficiente para desencadear as reações necessárias.
A velocidade é um dos principais problemas. A energia liberada durante um impacto muito rápido produz temperaturas e pressões capazes de destruir ou vaporizar moléculas orgânicas. Além disso, mesmo quando uma quantidade de HCN sobrevivesse, ela tenderia a se dispersar rapidamente no ambiente.
Quais condições seriam necessárias para a hipótese funcionar?
Para que a hipótese funcionasse, portanto, seria necessário reunir uma série de condições muito específicas:
- um cometa atingindo a Terra na velocidade e no ângulo adequados;
- moléculas sobrevivendo à passagem pela atmosfera;
- uma concentração suficiente para que as reações químicas ocorressem rapidamente.
O pesquisador Richard Anslow, principal autor do estudo, classificou, em entrevista à Nature, esse cenário como algo próximo de um evento extremamente raro. Os cientistas estimam que seria necessário um conjunto excepcional de circunstâncias para que o processo tivesse ocorrido.
A pesquisa também considerou um mecanismo proposto pela mesma equipe em 2023. Em sistemas planetários nos quais os planetas estão muito próximos, cometas poderiam perder velocidade ao passar de um planeta para outro, em uma espécie de “salto”, e liberar moléculas orgânicas durante o processo.
No Sistema Solar, entretanto, as grandes distâncias entre as órbitas tornam esse mecanismo muito menos provável.
Então os cometas estão descartados da origem da vida?
Não. O estudo não demonstra que cometas jamais contribuíram para a origem da vida na Terra. Ele questiona especificamente a possibilidade de esses corpos terem entregado moléculas prebióticas em quantidade suficiente para iniciar as reações químicas necessárias.
Essa distinção é importante porque moléculas orgânicas não são sinônimo de vida. Elas são compostos químicos que contêm carbono e podem participar de processos biológicos.
Para que exista vida, porém, é necessário que uma série de reações e condições permita a formação de estruturas capazes de se manter e se reproduzir. Assim, a origem da vida na Terra continua sem uma explicação definitiva.
E Marte? Estudo sugere que o planeta poderia ter sido mais favorável à chegada de moléculas
As simulações também trouxeram uma possibilidade curiosa. Marte, por ser menor que a Terra e possuir uma atmosfera muito mais fina, poderia ter sido um destino um pouco mais favorável para moléculas transportadas por cometas durante os primeiros períodos do Sistema Solar, quando esses corpos eram mais frequentes.

Isso, no entanto, não significa que a vida tenha surgido em Marte. O estudo avaliou apenas a possibilidade de moléculas prebióticas chegarem à superfície do planeta, e não se elas efetivamente deram origem a organismos.
A pesquisa ainda pode ajudar na busca por vida fora do Sistema Solar. Segundo os autores, identificar sistemas em que cometas possam se deslocar entre planetas e transportar moléculas poderá orientar futuras observações de mundos potencialmente habitáveis.



