
Ouça este conteúdo
A guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã começou tendo o programa nuclear iraniano como principal justificativa. Agora, o risco de uma nova escalada está concentrado em outro ponto estratégico: o Estreito de Ormuz, cuja disputa está deteriorando o frágil cessar-fogo e ameaçando levar Washington e Teerã de volta a uma guerra "total".
Trump disse nesta quarta-feira (8) durante a cúpula da Otan na Turquia que o Memorando de Islamabad, que no mês passado estendeu o cessar-fogo com o Irã por 60 dias, “chegou ao fim” e que “é perda de tempo negociar com eles [iranianos]”.
“Temos de nos livrar desse câncer. E sabem o que deve ser feito? É preciso extirpar o câncer logo no início. É assim que eu penso”, afirmou o presidente americano, que sugeriu medidas como novos “grandes ataques”, retomar o bloqueio naval a portos iranianos e tomar a Ilha de Kharg, por onde passam 90% das exportações de petróleo do Irã.
O Memorando de Islamabad foi assinado por Estados Unidos e Irã em 17 de junho e estabeleceu diretrizes para encerrar a guerra iniciada em 28 de fevereiro, com a meta de que um acordo definitivo para dar fim ao conflito fosse assinado dentro de 60 dias.
Porém, os dois lados vêm trocando ataques nas últimas semanas devido às rotas de navegação no Estreito de Ormuz, que Teerã reivindica que têm que ser autorizadas e controladas pelo regime.
Na terça-feira (7), os Estados Unidos lançaram ataques contra o Irã e reimpuseram sanções ao petróleo iraniano, depois que o regime islâmico atacou navios comerciais na região do estreito.
Nesta quarta-feira, o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã afirmou ter atacado alvos militares americanos no Bahrein e no Kuwait. O Irã disse que essa ofensiva seria o começo de uma “resposta esmagadora” aos ataques dos EUA, que Teerã “não permitirá a interferência dos EUA” na gestão do estreito e que a “única rota segura” para navios comerciais na passagem “é aquela definida pelo Irã”.
O principal negociador do Irã, Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento iraniano, escreveu no X que “a era da intimidação e da extorsão acabou”. “Isso não leva a lugar nenhum. Nós não vamos ceder”, acrescentou.
Os Estados Unidos voltaram a responder com ataques a alvos iranianos nesta quarta-feira, para "reduzir ainda mais a capacidade do Irã de ameaçar a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz", segundo nota do Comando Central das Forças Armadas americanas (Centcom).
Os EUA recomeçaram os ataques ao Irã em resposta às agressões iranianas contra três embarcações comerciais que transitavam pelo estreito de Ormuz, e Teerã, por sua vez, bombardeou bases americanas em vários países do golfo Pérsico como retaliação.
O Irã vinha utilizando bloqueios quase totais a Ormuz, por onde cerca de 20% do petróleo e do gás natural do mundo transitavam antes da guerra, como ferramenta de chantagem no conflito.
O Memorando de Islamabad foi assinado depois que Trump sofreu desgaste devido à alta nos preços dos combustíveis, motivada pela obstrução do estreito.
Além da reabertura imediata de Ormuz, o compromisso estabeleceu, no artigo 5, que o regime islâmico dialogaria com Omã para “definir a futura administração e os serviços marítimos” na passagem estratégica.
No final de junho, Irã e Omã anunciaram a criação de um grupo de trabalho conjunto para abordar a “futura gestão da navegação” em Ormuz. Teerã quer cobrar por “serviços” prestados a quem utilizar a passagem e busca controlar as rotas no estreito, algo a que Washington e seus aliados se opõem.
VEJA TAMBÉM:
Memorando EUA-Irã não deve se sustentar, diz especialista
“No momento atual, parece que o memorando assinado, que deu origem ao atual cessar-fogo, não cumpre mais seu papel, sendo visto mais como uma amarra, tanto por parte da liderança iraniana, quanto de Trump. Assim, é muito difícil prever que o memorando se mantenha da forma como foi assinado”, afirmou Sandro Teixeira Moita, professor do programa de pós-graduação em ciências militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), em entrevista à Gazeta do Povo.
O especialista disse que a insistência do Irã em controlar Ormuz tem o objetivo de explorar um ativo que cria problemas para a economia global, e, “assim, criar dissuasão que impeça ações mais agressivas dos EUA e isole Israel na região”.
“Além disso, explorar a passagem cria um fluxo de capital muito necessário para a combalida economia iraniana, para obter fundos que vão desde manter a operação básica da economia até financiar a reconstrução dos arsenais destruídos nos 40 dias de guerra”, disse Teixeira Moita.
O analista militar afirmou que, caso Trump concretize sua intenção de retomar com força total a ofensiva contra o Irã, poderão ocorrer bombardeios intensos e operações terrestres limitadas para “criar impasses” ao regime islâmico, como tomar a Ilha de Kharg, e para garantir a navegação em Ormuz, “com a captura de ilhas ali que permitam a instalação de sistemas que defendam a navegação comercial na área”.
“Mas o Irã está pronto para tais possibilidades e de certa maneira, suas lideranças mais radicais esperam isto: uma grande batalha contra os EUA que defina o destino da região. O que observamos é a culminação de uma guerra fria de 47 anos que se tornou ‘quente’”, disse Teixeira Moita, que citou ainda o impasse gerado pela ofensiva de Israel contra o grupo terrorista Hezbollah no Líbano, onde o Irã não tem interesse em ver enfraquecido um aliado do chamado “Eixo da Resistência”.
A dúvida que persiste é se Trump realmente retomará a guerra contra o Irã com a mesma intensidade do período anterior ao cessar-fogo anunciado em abril.
Em artigo publicado nesta quarta-feira, Shane Croucher, editor de assuntos internacionais da revista americana Newsweek, escreveu que, assim como ocorreu na assinatura do Memorando de Islamabad, “os mercados podem se tornar os árbitros substitutos do cessar-fogo e fazer o jogo voltar ao estágio anterior” – fazendo referência às altas do petróleo registradas hoje.
Nesse sentido, não haveria exatamente paz, afirmou Croucher, mas “uma pausa relutante”, com “menos ataques, mais intermediários, insultos públicos mais incisivos e esforços discretos para restabelecer a passagem por Ormuz”.
Sandro Teixeira Moita também manifestou dúvidas sobre a possibilidade de a guerra voltar à intensidade anterior.
“Paradoxalmente, não me parece que Trump tenha apetite para voltar aos bombardeios contra o Irã por causa dos custos associados a isto: o fechamento do Estreito de Ormuz, tanto que o preço do petróleo voltou a subir fortemente hoje”, disse o especialista.
“Dessa forma, a possibilidade maior é que vejamos alguns dias de tensão antes que as coisas voltem a um cessar-fogo, apenas como suspensão de hostilidades e não mais do que isso, pois as desconfianças dos dois lados são muito grandes”, projetou Teixeira Moita.







