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Processamento da visão

Paciente com dano cerebral prova que enxerga, mesmo se achando cego

Homem andou por entre obstáculos, mesmo sem consciência da visão. Caso é único na história da medicina, dizem cientistas

Cego desvia de obstáculos: caso único na história da medicina | Reprodução
Cego desvia de obstáculos: caso único na história da medicina (Foto: Reprodução)

É um caso único na história da medicina. Um paciente sofreu dois derrames consecutivos, que devastaram o córtex estriado, área do cérebro responsável pelo processamento da visão. O indivíduo ficou, para todos os efeitos, cego. Mas, embora viva com a convicção de que não enxerga nada, ao ser submetido a uma caminhada por um corredor cheio de obstáculos, ele desviou de todos com sucesso (veja o vídeo). O feito emocionou os cientistas, que explodiram em palmas quando ele chegou do outro lado. Mas o que restou desse resultado foi uma tonelada de dúvidas.

Na prática, a única coisa que o estudo, divulgado na última edição do periódico científico "Current Biology", concluiu é que não se pode mais dizer que não ver e pensar que não vê são a mesma coisa. O achado sugere que informações visuais podem ser processadas sem passar pela mente consciente - e que os mecanismos cerebrais ligados a esse fenômeno muito provavelmente nada têm a ver com o córtex estriado.

A equipe internacional de Beatrice de Gelder, do Centro Athinoula A. Martinos para Imageamento Biomédico, ligado à Universidade Harvard, nos EUA, tomou todos os cuidados para se certificar de que o paciente, um senhor identificado apenas como TN, de fato não registrava conscientemente nenhuma informação visual.

TN foi "descoberto" em Genebra, logo após sofre seu segundo derrame. O primeiro já havia danificado a região do córtex estriado em um dos lados do cérebro. O seguinte detonou a mesma região, só que no outro hemisfério. O dano foi radical. Além de declarar não enxergar nada, o efeito foi confirmado com técnicas de imageamente cerebral, que não detectaram atividade no córtex estriado quando TN foi exposto a estímulos na visão.

Na prática, o paciente tinha os olhos e nervos ópticos em perfeito estado, mas a parte do cérebro responsável por interpretar esse sinais estava pifada. Uma "cegueira cerebral", por assim dizer.

Após o segundo derrame, a vida de TN mudou completamente. Ele passou a viver como um cego, usando uma bengala para identificar obstáculos e exigindo um guia para saber onde ir. Mas quando os cientistas encheram um corredor de potenciais "tropeçadores", como caixas, cadeiras e outros objetos, TN conseguiu caminhar perfeitamente, sem ajuda alguma, e evitar colisões.

Como? Para os cientistas, está claro que há mais regiões no cérebro trabalhando com as informações visuais do que o córtex estriado. Mas é tudo que eles sabem.

Apenas um outro caso parecido foi reportado, e com uma macaca. Mas mesmo ela não teve dano completo à região do cérebro responsável pela visão. Ainda assim, ela demonstrou habilidades semelhantes, mesmo tendo ficado cega. "Dada a consonância com os resultados das pesquisas com animais e a extrema raridade de casos com cegueira cortical completa em humanos, essa observação impressionante servirá como ponto de partida para estudos futuros, quando e se outros pacientes similares forem descobertos", afirmam os cientistas, em seu artigo na "Current Biology".

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