
O governo paquistanês culpou rebeldes islâmicos pelo ataque suicida que matou 133 pessoas na volta da ex-primeira-ministra Benazir Bhutto ao país. Do outro lado, o marido de Bhutto Asif Ali Zardari, acusou nesta sexta-feira os serviços de inteligência paquistaneses de estar envolvidos no atentado contra o comboio de sua mulher. Protegida por um forte esquema de segurança, ela escapou sem ferimentos depois de duas explosões seguidas atingirem seu comboio na cidade de Karachi, quando passava por centenas de milhares de simpatizantes reunidos para recebe-la.
O atentado marcou sua volta ao Paquistão, acertada em um acordo com o presidente paquistanês Pervez Musharraf depois de oito anos no auto-exílio. Cerca de 550 pessoas ficaram feridas. Os mortos são em sua maioria pessoas que davam as boas-vindas à ex-primeira-ministra e agentes de segurança que acompanhavam a comitiva.
O responsável pelas investigações sobre o ataque, o inspetor Manzoor Mughal, se declarou 100% convencido de que uma das explosões foi obra de um terrorista suicida. Ninguém assumiu a autoria das explosões, mas a polícia investiga se elas têm conexão com regiões tribais na fronteira com o Afeganistão, que se tornaram redutos de apoio à rede terrorista al-Qaeda e ao Talibã.
- A primeira explosão foi causada por uma granada de mão. A segunda foi um ataque suicida. O suicida correu para o meio da multidão e se explodiu - disse o inspetor.
A ex-premier, que voltou ao país para liderar seu Partido Popular do Paquistãoem eleições destinadas a levar o país de volta a um governo civil, foi recentemente ameaçada de morte por integrantes Al-Qaeda, irritados com o seu apoio aos Estados Unidos. Apesar disso, durante a carreata pelas ruas de Karachi, a ex-primeira-ministra se posicionou no topo do caminhão, desenvolvido para suportar um eventual atentado, e ignorou os conselhos policiais para se manter atrás do vidro à prova de balas do veículo.
Em declarações a emissora de televisão Geo TV de Dubai, o marido de Bhutto assegurou ter provas documentais de que os serviços de inteligência do Paquistão estão relacionados com o ataque, "dirigido a assassinar Benazir Bhutto". Zardari acrescentou que por trás dos atentados não estão grupos extremistas, mas que os responsáveis foram extremistas dentro do governo, incluindo alguns ministros.
- Se os agressores suicidas fossem "jihadistas", teriam atacado personalidades do governo e não o principal partido da oposição - afirmou Zardari, que em declarações anteriores havia destacado que o governo deveria ser considerado responsável pelo ataque por não ter tomado as medidas de segurança suficientes.
A Casa Branca condenou o atentado, afirmando que os responsáveis pelo ataque só buscam "fomentar o medo e limitar as liberdades". Os EUA apóiam o plano que levou Bhutto de volta ao país, numa iniciativa para estabilizar a região, estratégica para os americanos. Mas, embora tenha recebido apoio especialmente nas regiões mais pobres do paí, a ex-premier coleciona inimigos por seu apoio à guerra americana contra o terrorismo.
- Nossos pensamentos e preces estão com as famílias das vítimas. Não há uma justificativa política para o assassinato de gente inocente - disse o porta-voz do Departamento de Estado americano, Tom Casey.
A mediação do governo americano permitiu o acordo de repartição de poderes alcançado há 13 dias com o presidente paquistanês Pervez Musharraf, permitindo o retorno de Buttho ao Paquistão. A anistia concedida por Musharraf permite que Bhutto deixe para trás uma longa série de acusações por corrupção durante seus dois mandatos como primeira-ministra (1988-90 e 1993-96).
Explosões atingem simpatizantes da ex-premier do Paquistão, em Karachi
Ainda no aeroporto de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, pouco antes de embarcar para Karachi, Bhutto defendeu o pacto com Musharraf, a quem repudiou durante todos estes anos. Segundo a ex-premier, a medida é necessária para "garantir a transição para a democracia" e "mobilizar as forças moderadas da sociedade paquistanesa para enfrentar e conter os fanáticos e extremistas que estão tentando se apoderar" do país.
- Minha volta é um milagre - declarou. - Minha viagem é a dos 160 milhões de habitantes do Paquistão. Sou a líder dos pobres e viverei e morrerei com eles.
Para analistas, o retorno de Bhutto ao Paquistão pode ser um tiro no escuro, já que a situação no país não é estável, inclusive com a reeleição de Musharraf sendo questionada legalmente.



