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Investigação

Por que o futebol argentino está “em greve” — e o que Milei tem a ver com isso

Fachada da Associação Argentino de Futebol (AFA) em Buenos Aires (Foto: )

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O futebol argentino enfrenta uma batalha com o governo de Javier Milei há mais de dois anos. O que começou com debates ideológicos acabou virando caso de Justiça e, nesta semana, a crise ganhou um novo capítulo, que afetou diretamente o principal campeonato do país nesta temporada.

A Associação de Futebol Argentino (AFA) decidiu suspender a 9ª rodada do Torneio Apertura, da Liga Profissional de Futebol (LPF), prevista para ocorrer entre os dias 5 e 8 de março, em uma espécie de protesto contra uma investigação da Receita Federal argentina (Arca) sobre uma suposta retenção ilegal de contribuições previdenciárias e outros impostos estimada em mais de 19,3 bilhões de pesos (cerca de R$ 70 milhões) entre 2024 e 2025. A AFA nega qualquer irregularidade e afirma que não tem dívidas fiscais.

No contexto da investigação judicial em curso, o juiz Diego Amarante, da Vara Criminal e Econômica, intimou o presidente da entidade, Claudio "Chiqui" Tapia, e outros membros da diretoria para prestar depoimento entre os dias 5 e 9 de março.

Em 22 de janeiro, a Arca apresentou outra denúncia referente a transferências de fundos sem a documentação comprobatória correspondente, o que poderia configurar um esquema para ocultar o verdadeiro destino do dinheiro e burlar os mecanismos de controle tributário vigentes.

Mas todo esse embate, que escalou para o âmbito judicial, teve início ainda nos primeiros meses da gestão de Javier Milei.

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Governo promove sistema de SAF, mas clubes rejeitam

As tensões entre o governo argentino e a AFA vêm aumentando há mais de um ano devido à intenção do governo Milei de implementar um modelo de empresas esportivas de capital aberto no setor de futebol do país, sistema conhecido como Sociedade Anônima do Futebol (SAF), como já ocorre no Brasil. Atualmente, os clubes são considerados associações sem fins lucrativos.

A proposta foi categoricamente rejeitada pela entidade máxima do futebol argentino e pela maioria dos times esportivos, sob a justificativa de que haveria um risco na gestão do futebol nacional.

Em dezembro de 2023, quando assumiu a Casa Rosada, Milei assinou um "decretaço" de Necessidade e Urgência (DNU) que visava à desregulamentação da economia. Uma das mudanças estabelecia a Lei das Sociedades por Ações, permitindo aos clubes se tornarem empresas com investidores e até mesmo uma SAF.

Com isso, as contribuições previdenciárias do setor passariam de 7,5% para 13,06%, com um adicional de 5,56% por 12 meses. Isso significava que a alíquota sobre as receitas dos clubes no ano seguinte seria de 18,62%. A medida foi recebida com fortes protestos das entidades responsáveis pela administração dos clubes no país.

A AFA, a Liga Profissional e alguns times muito conhecidos rapidamente se mobilizaram para protestar contra a medida presidencial. Em setembro do ano seguinte, a Justiça argentina suspendeu trechos do decreto de Milei, incluindo a parte que permitiria a transformação dos times em SAF.

Em resposta, no mês seguinte, o governo anunciou o fim de benefícios fiscais, medida que reduziu as contribuições previdenciárias dos clubes e aumentou os custos operacionais das entidades.

Em dezembro, o governo aumentou a retórica de embate e as investigações resultaram em buscas da polícia na sede da AFA e em clubes por suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo patrocinadores. A entidade protestou, dizendo que as ações tinham "fins políticos" e decidiu suspender todos os campeonatos nacionais, tanto os profissionais quanto os de base.

O novo capítulo da crise no futebol argentino ganha peso especial por ser ano de Copa do Mundo, o que pode gerar resultados negativos na performance da Argentina no principal campeonato do mundo.

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