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Kateri Tekakwitha está prestes a se tornar a primeira santa ameríndia | Stan Honda/AFP
Kateri Tekakwitha está prestes a se tornar a primeira santa ameríndia| Foto: Stan Honda/AFP

Erguida num campo gelado do estado de Nova York, a estátua da jovem Mohawk, prestes a se tornar a primeira santa ameríndia, transmite muita calma. A história de Kateri Tekakwitha, no entanto, fala de uma vida atormentada, da qual os fantasmas ainda assombram as colinas que cercam o campo.

O Vaticano anunciou, no mês passado, a iminente canonização desta mulher nascida em 1656 em Ossernenon (hoje Auriesville, no estado de Nova York) às margens do rio Mohawk, e falecida no Canadá, aos 24 anos.

Mark Steed, o frade franciscano que se ocupa do local consagrado à futura santa em Fonda (nordeste dos Estados Unidos), acha que já chegou o tempo de os indígenas da 'América serem também reconhecidos.

Ele trabalha com eles há 30 anos. "Foram desprezados, ignorados", diz, numa voz suave. Quando um povo é reprimido, isso representa um quê a mais em sua vida", acrescenta o religioso de 71 anos.

Para muitos ameríndios, principalmente entre os Mohawks e outras tribos iroquesas espalhadas ao longo da fronteira canadense-americana, a canonização de Kateri deveria ter acontecido há tempos. Mas o Vaticano precisava de um milagre reconhecido, para que ela pudesse passar do estatuto de beatificada ao de canonizada (santa).

Milagre constatado

Seus devotos enviaram a descrição de dezenas de milagres: cura de doentes, levitação de um homem, erguido acima do solo, ou ainda sua própria aparição, vestida com peles de cervos.

Nada bastou, até que, em 2006, contra todas as expectativas, um pequeno ameríndio, de 11 anos, foi curado em Seattle (nordeste dos Estados Unidos) de uma bactéria comedora de carne. Seus pais rezaram muito pedindo a intervenção de Kateri. O milagre foi constatado no mês passado por decreto promulgado, no Vaticano, pela Congregação pela Causa dos Santos, com a concordância do Papa.

Nenhuma data foi anunciada ainda para a canonização, mas os devotos da futura santa não escondem sua alegria.

"Será uma grande celebração", afirma a edição de um pequeno jornal indígena dedicado a Kateri, o Tekakwitha News.

Sua vida reflete o período em que viveu, marcado por guerras entre tribos e a instalação dos colonos brancos.

Segundo a história oral e a que nos contaram os jesuítas, ela sobreviveu aos 40 anos a uma epidemia de varíola, doença introduzida pelos europeus, que a deixou órfã e com problemas de visão.

Sua aldeia foi queimada por colonos franceses e seus aliados ameríndios. Ela foi para uma nova aldeia construída na floresta, do outro lado do rio Mohawk, perto do local que é hoje consagrado a ela. Foi aí que recebeu o batismo, aos 20 anos.

Banida por sua tribo, ela fugiu, então, em direção ao que é hoje o Canadá. Mesmo doente, passou a cuidar dos outros, levando uma vida asceta. Ao morrer, segundo a lenda, as marcas de varíola desapareceram de seu rosto.

Convertida à força?

Mas em Fonda, alguns ameríndios não são particularmente admiradores dela.

Tom Porter, 67 anos, um fazendeiro à antiga, que vive com a família no respeito a antigas crenças indígenas, acha que Kateri contribuiu, involuntariamente, para a destruição de seu povo. "Ela foi instrumentalizada", disse ele, persuadido de que foi provavelmente convertida à força.

"Havia muita pobreza. Os europeus destruíram tudo, as pessoas morriam de fome e, se quisessem ajuda, tinham que se tornar cristãos", disse ele. E se recusou a estabelecer diferenças entre a propagação do cristianismo e a crueldade posta em prática para submeter os ameríndios.

O Irmão Mark admite os pecados "terríveis" que marcaram a história da região, mas desde sua chegada a Fonda, há um ano, ele faz de tudo para estabelecer liames.

Na capela de madeira consagrada a Kateri, cordames e peles de cervos são penduradas aos caibros, com as ervas sagradas indígenas - tabaco e sálvia - aí colocadas para secar.

Desde sua chegada, o frade entrou em contato com Tom Porter, e os dois homens passaram a conversar com frequência.

Não estão exatamente de acordo um com o outro, mas ouvem um ao outro.

"É um amigo", diz hoje Tom Porter do franciscano. E, no entanto, acrescenta, "quando era jovem, não havia quem detestasse mais do que eu os padres e as religiosas".

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