
Vladimir Putin está no controle. Não só da Rússia, mas de si mesmo, de uma forma que Boris Yeltsin (1931-2007), o presidente anterior, jamais esteve.
Essa diferença entre os dois teria sido fundamental para que Putin conquistasse a confiança dos russos em 2000, se reelegesse em 2004, voltasse a ganhar a eleição com seu sucessor Dmitri Medvedev em 2008 (o terceiro mandato consecutivo não é permitido no país), e retomasse a Presidência em maio deste ano.
Os eventos que o levaram ao poder e o mantiveram lá são tema da jornalista Masha Gessen na biografia Putin A Face Oculta do Novo Czar, publicada agora no Brasil pela Nova Fronteira.
Ao fim do mandato atual, Putin terá passado 18 anos no comando da nação com o maior território do mundo, dona de um arsenal que rivaliza com o norte-americano.
Com a relutância de Putin em entregar o comando da Rússia, fala-se menos de seu autocontrole e mais de seu autoritarismo.
No grupo de líderes que se aferram ao poder, o russo é um caso "bem específico", segundo Rodolfo Dias, professor de História das Relações Internacionais no Cen- tro Universitário Uninter.
"Ele não chega a ser um [venezuelano Hugo] Chávez. Seu autoritarismo está mais ligado à história absolutista oriental, tem a ver com opressão ao povo", diz. "A impressão que eu tenho é de que a estrutura política da Rússia não permite uma democracia muito profunda."
Gunther Rudzit, professor de Relações Internacionais das Faculdades Rio Branco, estudou Segurança Nacional na Universidade de Georgetown, em Washington, e teve um colega russo que, em 2000, dizia que Putin "reergueria a Rússia" do caos instalado por Yeltsin. Essa era a percepção da maioria dos russos na época.
"Vladimir Putin é membro de uma polícia política, de repressão [a KGB], que consegue se transformar num político habilidoso que vai fazer de tudo para se manter no poder", diz Rudzit e continua: "Como alguém que acredita na democracia, acho que essa resistência em deixar o poder começa a criar distorções do ponto de vista político".
Os analistas ouvidos pela Gazeta do Povo explicam que Putin soube "surfar" a onda favorável da economia internacional na primeira década deste século, algo que contribuiu para sua popularidade.
Também é atribuída a ele a renovação do orgulho russo. Em duas ocasiões difíceis, a Rússia se saiu bem: ao entrar na Ossétia do Sul e expulsar tropas georgianas que queriam assumir o controle do lugar, e ao pulverizar revoltas na Chechênia, mantendo o domínio sobre ela.
Judô
Na última quinta-feira, o presidente que completa 60 anos em outubro apareceu em Londres torcendo para o judoca Tagir Khaibulaev. O atleta russo venceu o mongoliano Tuvshinbayar Naidan e conquistou a medalha de ouro na categoria de até cem quilos. Quando a luta acabou, Putin ergueu os braços e se levantou, fazendo um "ó" com a boca. Essa reação destoa de sua postura comum, que é a do homem que (quase) nunca ri.
Depois, ele cumprimentou Khaibulaev, o abraçou, posou para fotos e chegou perto de esboçar mais ou menos um sorriso. E foi isso.
Masha Gessen cria retrato perturbador
Uma imagem poderosa em Putin A Face Oculta do Novo Czar, escrita por Masha Gessen, é a do pátio rodeado de prédios do conjunto habitacional pobre em que morava a família do presidente russo quando este era ainda um pré-adolescente.
Nos anos 50, as consequências da Segunda Guerra Mundial ainda eram palpáveis em São Petersburgo. Chamada também de Petrogrado (1914-1924) e de Leningrado (1924-1991), a cidade estava em ruínas. Não havia escolas e três famílias dividiam apartamentos projetados para uma.
Putin passava o dia à toa, convivia com maloqueiros e tentava se impor era pequeno perto dos outros e ainda é um homem de estatura relativamente baixa, com reportado 1,70 metro.
Por causa dos edifícios ao redor, o pátio no térreo onde os desocupados conviviam parecia o fundo de um poço. É assim que Masha descreve o seu personagem: alguém que saiu do buraco para se tornar um homem poderoso na Rússia.
A jornalista moscovita trabalha para o New York Times e sua posição é tão clara quanto o seu estilo é envolvente. Enquanto vários de seus amigos decidiram ir embora do país, ela continua lá, vivendo em Moscou, e diz ter esperança de que a era autoritária de Putin não dure muito mais.
Masha procura mostrar o quão "improvável" foi a ascensão de presidente russo, levantando diversas hipóteses perturbadoras sobre como ele se tornou o que é.
Uma delas diz respeito a explosões ocorridas na Rússia no segundo semestre de 1999, atribuídas a um grupo terrorista islâmico baseado no Cáucaso. O livro apresenta relatos para tentar provar que elas foram obra do próprio governo, ainda que não tenham sido planejadas por Putin.
"As explosões pretendiam unir a Rússia pelo medo e pelo desejo desesperado de ter um novo líder decidido, e até mesmo agressivo, que fosse implacável com qualquer inimigo".
Masha afirma que o grupo político conhecido como a "Família", que vivia em torno de Yeltsin, tinha um país nas mãos, mas ninguém para governá-lo.
Medíocre
Até que uma dessas figuras, o milionário Boris Berezovsky, teve a ideia de apadrinhar um agente medíocre e destemperado da antiga KGB (sigla para Comitê de Segurança do Estado, sucedido pelo FSB, ou Serviço Federal de Segurança).
"Todos poderiam atribuir àquele homem inexpressivo e comum as características que bem desejassem", escreve Masha. E foi o que fizeram. Putin assumiu o cargo de primeiro-ministro em agosto de 1999. Apenas quatro meses depois, com a renúncia de Yeltsin, ele se tornaria presidente da Rússia.
Nos últimos 12 anos, o homem que parecia manipulável se revelou um grande articulador político que defende o seu poder de tudo que é jeito.



