
Uma visão diferente do drama relatado em Vidas Secas, de Graciliano Ramos, passa a ilustrar os movimentos de migração humana: os imigrantes modernos passaram a ser reconhecidos como catalisadores do desenvolvimento mundial. O Relatório de Desenvolvimento Mundial 2009, elaborado pelo Banco Mundial e divulgado em novembro, revela que os imigrantes com sua busca por melhores oportunidades econômicas e qualidade de vida não estão errados: a formação de metrópoles e a migração, juntamente com o desenvolvimento do comércio internacional, foram as principais forças que permitiram o crescimento das tecnologias e o desenvolvimento humano nos últimos dois séculos.
Esses dados aparecem justamente no período histórico em que a população urbana supera a população rural no globo, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). Dos 6,6 bilhões de pessoas que habitam o planeta, o ano de 2007 foi considerado o ponto de equilíbrio, e 2008 é o primeiro em que a maior parte da humanidade já não está nos campos e agora se aperta em metrôs, apartamentos, fábricas, escritórios e estacionamentos de centros urbanos.
A equipe do relatório do Banco Mundial chama a atenção para a necessidade de políticas públicas decorrentes do fenômeno da imigração, que nesse momento é mais intenso justamente nas duas áreas mais populosas do globo: a população da Índia ainda é 72% rural, enquanto a proporção na China é de 57% mas paradoxalmente ambas também estão nas listas de maiores densidades populacionais. Para servir de parâmetro, em 1972 o Brasil tinha 45% de sua população morando em zona rural, e hoje são apenas 17%, segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).
Enquanto as cidades continuam crescendo, o efeito da imigração rural e do inchamento das cidades gera sentimentos distintos nas pessoas: cidadãos urbanos tendem a associar imigrantes a pobreza e criminalidade, os imigrantes vêem nas cidades oportunidades econômicas e de qualidade de vida. "Mesmo na academia, o pressuposto era de que a concentração populacional era negativa. Havia na época a idéia de que a igualdade social seria maior se houvesse igualdade espacial. Olhando hoje em retrospectiva e dentro de uma economia de mercado, isso não é certo. Passou a ser preciso entender que hoje as cidades não são problema, são uma solução", afirma a professora de Planejamento Urbano Internacional da Universidade de Columbia, Clara Irazábal. Segundo ela, sustentada pelos dados da ONU, o crescimento das cidades não vai acabar nunca, portanto é necessário virar o pensamento e focalizar esforços na melhoria da vida urbana.
Clara concorda que a vida em metrópoles cria problemas, e que as políticas urbanas aplicadas até hoje geram muitos paradigmas. Mas também indica que há dois caminhos a serem seguidos pelos legisladores: é importante otimizar o funcionamento das cidades e aumentar a justiça social, diminuindo a separação de classes. "Cada vez mais os bairros estão segregados, de um lado da avenida há condomínios de luxo e do outro lado está a periferia. Quando as pessoas se escondem, quando não se vêem, elas não se reconhecem mais como cidadãs com objetivos em comum. Isso gera medo e violência", sintetiza a professora.
A geógrafa e turismóloga da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Universidade de São Paulo (USP), Odaléia Telles Queiroz, concorda que a desigualdade criada nas cidades é um dos principais desafios para quem trabalha com gestão pública. "A marginalização dos segmentos dá fermento para as organizações paralelas de poder. Essas organizações são mais numerosas, desencadeiam problemáticas de segurança, e a violência é gerada em ciclos viciosos", destaca.
Para a criação de "cidades funcionais", Clara afirma que a vocação das metrópoles é ser centros de comércio, indústria, moradia e serviços tudo funcionando junto. "O urbanismo moderno dizia que as funções das cidades eram diferentes dos distritos industriais, muito disso por parte da poluição. Mas as indústrias desse século são basicamente digitais, tecnológicas, e suportam boa produção física ou intelectual em pequenos espaços e pouco poluentes", avalia.
Bons exemplos
A pesquisadora da Universidade de Columbia lembra do sistema de transporte de Curitiba como um bom exemplo de aproveitamento de espaço urbano, que inspirou projetos em Bogotá (Colômbia), em Nova Iorque (Estados Unidos) e outras grandes cidades. "Ênfase em transporte coletivo faz parte dos principais esforços para tornar as cidades mais saudáveis", ressaltou.
A professora da USP e da Unesp lembra do exemplo da França. De acordo com ela, Paris está literalmente infestada de ciclistas, e eles se integraram ao trânsito da capital "mas diferente do que nos acostumamos a ver no Brasil, motoristas de carros e de ônibus respeitam o espaço das bicicletas", diz. "Muitas cidades mais antigas já assimilaram esse tipo de civilidade, a maioria das cidades modernas ainda não."
Contraponto
Apesar de haver a tendência mundial de as pessoas escolherem as cidades para viver, em função da possibilidade de empregos, oferta de serviços e mais qualidade de vida, cada vez mais há autores falando na importância do processo contrário, que é levar um pouco das atividades urbanas para a zona rural. "O turismo é um exemplo de levar renda para essas regiões, à medida em que as antigas fazendas de café e velhos engenhos começam a se valorizar como uma forma de alternativa cultural e de lazer nas zonas rurais", diz Odaléia. De acordo com a turismóloga, a oferta de serviços desse tipo é uma das estratégias para enfrentar o novo milênio distante das chamadas "ilhas de calor" das cidades, com solo impermeabilizado e ar poluído. "Aquele movimento que denegriu a imagem do cidadão rural na época da industrialização já está revendo conceitos, está novamente com uma visão mais romantizada do campo e de que a qualidade de vida na cidade não é assim tão boa como se imaginava", avalia. Afinal, ela lembra que muitos camponeses que saíram dos campos por causa da mecanização da agricultura vieram trabalhar na cidade, mas, sem qualificação, acabaram trabalhando informalmente como bóias-frias. "Na prática, eles continuaram trabalhando no campo, com a diferença que agora vêm dormir na cidade", destaca.



